A época do Estado Novo foi marcada por um número elevado de filmes portugueses de comédia e O Pátio das Cantigas foi um dos mais bem-sucedidos. Lançado em 1942 (o mesmo ano de Aniki Bobó), o resto da Europa poderia estar em guerra, mas Portugal estava a desfrutar da sua paz com a comédia de Vasco Santana. Neste caso, Santana não é apenas protagonista, mas também guionista. O realizador de Pátio das Cantigas é Francisco Ribeiro, que não voltou a realizar outro filme narrativo. A verdade é que esta é uma obra que parece pertencer mais aos seus atores do que ao seu realizador.

Não existe uma história coesa, pois Cantigas é composto por um elevado número de personagens com relações diferentes entre si. O foco está maioritariamente na exploração de diferentes episódios do quotidiano, sendo que grande parte do seu charme se encontra na possibilidade de se observar um bairro lisboeta nos anos 40.

Apesar disso, não se pode negar que Narciso Fino (Vasco Santana) e Evaristo (António Silva) acabam por ser as atrações principais. Narciso é o típico alcoólico do bairro, que começou a embriagar-se após um desapontamento amoroso e acaba por beber tanto em certas noites que chega a ter de ser guiado a casa pelo seu filho Rufino (Francisco Ribeiro). Por sua vez, Evaristo é o dono pouco paciente de uma mercearia e está constantemente a entrar em conflito com o resto do bairro quando põe música clássica no seu fonograma (em vez de cantar ou ouvir música portuguesa). De destacar é ainda o facto de este ficar furioso quando alguém lhe diz a icónica frase: “Evaristo, tens cá disto?”. Tanto Narciso como Evaristo são ligados pelo facto de ambos estarem apaixonados pela Sra. Rosa (Maria das Neves), um típico triângulo amoroso cuja conclusão pode ser previsível, mas que não deixa de oferecer algumas interações engraçadas entre Santana e Silva.

Este não é o único conflito amoroso. Há ainda Alfredo (Carlos Otero), um rapaz que está apaixonada por Amália (Maria Paula), uma rapariga frívola com o mesmo primeiro nome da famosa Amália Rodrigues e que tal como ela, é uma talentosa cantora de fado. Infelizmente para Alfredo, Amália namora com o irmão dele: Carlos Bonito (António Vilar). Tal como o nome deste indica, Bonito é popular entre as raparigas da aldeia. Juntando isso ao talento na guitarra, o seu ego está bastante inchado. Por sua vez, Susana (Graça Maria), a irmã de Amália, está apaixonada por Alfredo. O que se segue no filme é um jogo de namoros e desencontros, acerca dos quais um senhor idoso da aldeia até chega a comentar: “…trocam de namoro como eu troco dinheiro lá no banco“.

Devido ao tamanho do seu elenco, há poucas personagens que fiquem tanto na memória como as de Santana ou Silva após uma primeira visualização do filme. Mas Pátio não pretende que o espetador compreenda todos os seus detalhes da primeira vez. Os primeiros minutos são um resumo de todas as relações pessoais da aldeia, e dão-nos uma amostra da confusão que são as relações da população neste bairro. Algumas desavenças culminam ainda numa sequência no meio da história em que todas as pessoas do bairro começam a bater umas nas outras. Momentos como este podem já ser engraçados quando se vê esta obra pela primeira vez, mas ganham maior impacto à medida que se tem uma maior familiaridade com as personagens (algo que aconteceu com uma grande parte dos portugueses que viu e reviu esta história na RTP várias vezes).

Tal como o seu título deixa claro, Pátio das Cantigas é um filme melódico. Mesmo quando uma personagem não está a cantar uma música ou a tocar guitarra, alguém está a assobiar. Só é pena os aspetos técnicos não serem da mesma qualidade das canções. Portugal obviamente não tinha o mesmo equipamento que as produções feitas na altura nos Estados Unidos da América, na Alemanha ou na França, mas há partes em que o som desaparece na sua totalidade. Não chega a acontecer durante tanto tempo como em A Canção de Lisboa, mas é uma falha percetível. Também há pouco de positivo que se possa dizer da sua fotografia, que é funcional e pouco mais. As poucas cenas que foram realmente bem filmadas e editadas são aquelas que se passam durante as festividades.

Também não se pode falar deste projeto sem se deixar de mencionar o seu carácter propagandista. Em 1942 era necessário que qualquer obra cinematográfica fosse aprovada pelo Estado Nova, e em alguns casos, estas até chegavam a servir de aparelho ideológico para reforçar na população uma opinião positiva dos ideais Salazaristas. Assim, Pátio das Cantigas serve parcialmente um papel de propaganda. Talvez seja por isso que a cultura portuguesa é elevada por todas as personagens, com o próprio O Primeiro Fado cantado por Maria Paula a ter uma letra que se congratula a si mesma (“Há para aí muita gente, que não sente nem acredita que esta canção portuguesa é sem duvida a mais bonita”) e a quebra do disco de música clássica italiana de Evaristo a ser um momento triunfante para a população do bairro.

Para além disso, o excelente momento em que as personagens começam a bater umas nas outras acaba por ter outro propósito além do de divertir. Nesta sequência, crianças atiram bombinhas e Rufino dispara rolhas de garrafas de champanhe de uma forma que referencia a guerra que estava na altura a ser combatida na Europa. Isto relembra ainda ao povo português que, devido ao país não ter entrado na guerra, as suas únicas preocupações não passavam de desavenças mesquinhas.

Mas o momento mais óbvio de propaganda encontra-se no final dessa sequência, quando Narciso transporta crianças para um local em que “não lhes acontece mal nenhum”, sendo que a câmara logo a seguir revela que este sítio tem o nome “Salazar”, ao mesmo tempo que uma música triunfante começa a tocar. É difícil não se soltar uma gargalhada neste momento, afinal, eram tempos diferentes, e cenas como esta acabam por ter um significado mais insidioso quando observadas com um olhar contemporâneo.

Em si, O Pátio das Cantigas é um produto do seu tempo. Com atores famosos no panorama nacional a fazerem o mesmo papel a que já estavam habituados, não é como se tivessem tido um trabalho muito desafiante. No entanto, é palpável que se estão a divertir, bem como a tentar que o espetador se divirta. O facto de este ser um produto da década de 1940 acaba por ser um aspeto positivo, pois oferece uma perspetiva de como a sociedade portuguesa se idealizava a si mesma. É mesmo caso para Vasco Santana perguntar: Hollywood, tens cá disto?

 

Ficha Técnica:
Realizador: Francisco Ribeiro
Argumento: Vasco Santana
Elenco: Vasco Santana, António Silva, Francisco Ribeiro, Maria das NevesLaura AlvesBarroso LopesCarlos OteroAntónio VilarMaria PaulaGraça MariaJoão SilvaCarlos AlvesEliezer KameneskyRegina MontenegroArmando Machado e Maria da Graça.
Duração: 127 minutos

7/10