La La Land é um filme endereçado aos tempos presentes, quando a musealização da cultura ameaça substituir por completo a própria produção cultural. Portanto, para estimular o debate em torno dessa questão (acreditemos que sim), Damien Chazelle decidiu conquistar meio mundo com este exercício vampírico que está nomeado para todos os Óscares e mais alguns.

Depois de um Whiplash meramente contratual, ele, na sua terceira longa-metragem, tem agora a confiança e o apoio incondicional da crítica para fazer o que possivelmente sempre quis fazer: ferrar os dentes no corpo moribundo de uma Hollywood anémica, irreversivelmente ensimesmada, para dele sugar o pouco que resta, que (e esta parece ser a tese que aqui se defende) talvez seja apenas nostalgia.

São logo precisos uns cordões de alho e um crucifixo à mão para sobreviver à primeira cena – um número musical histérico que, não pesasse a aclamação universal do filme nas expectativas do público, poderia bastar para esvaziar a sala de cinema.

Declaração de amor a Hollywood?

Infelizmente, também nos é contemporâneo o vampiro que Ryan Gosling interpreta e a sua filosofia make jazz great again, a adoração cega de um passado falsificado, inchado. Emma Stone, ao seu lado, é que realmente dá a impressão de ter vindo de outro tempo, e o melhor de La La Land é porventura a naturalidade com que ela calça os sapatos das starlets da era dourada de Hollywood que o filme tão insistentemente convoca, fingindo novidade quando está somente a citar de cabeça.

Mas é uma homenagem ao grande musical americano, dirão, ou como muito se tem lido por aí, uma declaração de amor à cidade dos sonhos. Ora, nem uma coisa nem outra. Não se percebe de forma clara o que está a ser homenageado (as referências cinéfilas do filme são entropicamente dispersas, só se parecem arrumar num indistinto retro feel que abarca o que lá quisermos meter) e, para onde quer que olhemos, o amor, a possibilidade de uma ficção romântica, não se encontra em lado nenhum.

Chega a ser estranha a frigidez do casal Stone/Gosling, cuja paixão se resume a umas quantas buzinadelas, alguns encontros anti-sépticos – isto é, desprovidos de quaisquer indícios de uma atração sexual, humana – e muitos diálogos patologicamente irónicos porque o namoro pós-moderno assim o exige. É preciso que os amantes sejam comediantes e queiram a todo o momento superar-se um ao outro em sarcasmos e tiradas cómicas, não vá o guião ser demasiado sincero no seu sentimentalismo pegajoso…

A que se deverão, então, todos esses aplausos e prémios que o filme de Damien Chazelle recebe por onde quer que passe?

Uma hipótese de resposta, entre muitas: ter-se-á descoberto a pólvora. Afinal, o realismo pode ser “fantástico” sem comprometer a coerência da narrativa, na única condição de que a fantasia, aqui, de surreal tenha muito pouco, e se contente com uma mera distorção melodramática do real.

Lê também: Os nomeados dos Oscars 2017

São exemplos disso a cena em que o casal protagonista levita enquanto dança, kitsch estratosférico que deixa saudades do carro voador que encerrava Grease, e os execráveis últimos vinte ou dez minutos de La La Land, que deitam por terra qualquer boa vontade que poderíamos ter conservado até esse ponto.

Whiplash guardava o melhor para o fim, com aquele derradeiro sprint musical que não o redimia mas dava algum propósito ao espetáculo sadomasoquista que concluía (o overacting de uma relação doentia entre aluno e professor).

Já do desenlace de La La Land não podemos dizer senão o exato oposto: só agrava tudo aquilo que nos custou suportar ao longo do filme. É uma interminável sucessão de pseudo-experimentalismos vistosos que vão sendo sucessivamente descartados à medida que Chazelle se vai aborrecendo e perdendo de vista qualquer ideia, qualquer sentido narrativo que fique para além da mais vulgar e imediata das sensações.

“Não temos como regressar a esses tempos”

A cereja no topo do bolo é o modo como La La Land descobre um antagonista na personagem (risível) de John Legend, ou como, em bom rigor, vê no que este defende – a atualização da música jazz – uma tentação do demónio. Rejeite-se o presente, há que endeusar a tradição, diz-nos Chazelle. Porém, é uma tradição sem História, removida do seu tempo e recriada de uma forma violenta, opressiva, que pretende intimidar o espectador com a escala e excentricidade do seu aparato.

La La Land faz do passado uma moda, e todavia, a pressa do digital e a densidade do pastiche avisam: já não temos como regressar a esses tempos.

Entre as ruínas desta frustrada máquina do tempo, salva-se um sorriso – o de Emma Stone, exemplar naquilo que lhe é pedido. Já Ryan Gosling atravessa o filme com a impassividade de um fantasma: sussurra em vez de cantar, contorce a cara sem emoção. Não há sentimento que daqui se aproveite. Talvez seja uma recusa do ator, ainda que involuntária, de acrescentar excessos ao filme, que sendo sentimental e ridículo não comove nem faz rir tanto quanto desejaria.

Nada disso importa, o delírio generalizado da crítica tirou todas as dúvidas que pudessem ainda haver: na cidade dos sonhos tudo é peça de museu.

 

3/10

 

Ficha Técnica
Título: La La Land
Realizador: Damien Chazelle
Argumento: Damien Chazelle
Elenco: Emma Stone, Ryan Gosling
Género: Comédia, drama, musical
Duração: 128 minutos