Estreou em 2013 nos E.U.A. e tem vindo a surpreender. Steven Universe foi criado por Rebecca Sugar, e foi o primeiro programa do Cartoon Network a ser criado somente por uma mulher.

Para grande parte da geração nascida nos anos 90 o Cartoon Network “já não é o que era” e “perdeu a piada toda”. Ninguém esquece quando o canal começou a transmitir todos os seus programas com dobragem em português. E ninguém perdoa o completo desaparecimento de clássicos como Courage the Cowardly Dog, Dexter’s Laboratory ou Ed, Edd n Eddy.

Ora, para os mais desatentos, a verdade é que o canal se tem aprimorado. São vários os programas para crianças que citam ideais de amor, tolerância e respeito pelo outro.

Steven Universe e as Joias de Cristal

Estreou em Portugal a 1 de junho de 2014 e a 5.ª temporada está por anunciar. Tem recebido elogios pelo seu design, música, dobragem, caracterização, estilo de fantasia e ficção científica e construção de mundo. Foram lançados livros, bandas desenhadas e um videojogo baseados na série. Além do mais, Steven Universe foi indicado a dois prémios Emmy e cinco Annie Awards.

Rebecca Sugar

Steven Universe é uma série de desenhos animados que conta a história de um jovem rapaz – Steven – que vive em Beach City. Com ele vivem as Crystal Gems (ou Joias de Cristal, na versão portuguesa), uma equipa de guardiãs humanoides extraterrestres – Pérola, Granate e Ametista – e o seu pai, Greg Universe.

Steven, que é metade joia e fruto do amor entre Greg e Rosa Quartzo, passa os dias em busca de aventuras com os seus amigos e ajuda as Joias a proteger o mundo da sua própria espécie.

O extraordinário está na diferença

O que esta série animada tem de peculiar é a quantidade de estereótipos que quebra. Sugar considera que os desenhos animados não devem ser dirigidos somente a rapazes ou a raparigas, por exemplo. É por isso que Steven e o seu pai são as únicas personagens masculinas no núcleo das personagens principais.

Uma das maiores preocupações da criadora é providenciar um reflexo da comunidade queer, que raramente se vê representada nos media.

Exemplo disso são as fusões entre as Joias. Neste mundo paralelo, a convenção é a de que uma fusão apenas deve ser feita entre o mesmo tipo de Joias. As nossas protagonistas refugiadas na Terra provam o contrário: a fusão é algo especial e íntimo que deve ser partilhado com alguém importante.

Rubi e Safira

Granate é, como se vem a descobrir no episódio Fuga da Prisão da primeira temporada, a fusão entre Rubi e Safira. Estas duas joias amam-se de tal forma, desde a primeira vez que se viram, que nunca mais se quiseram separar.

A criadora e os realizadores optaram por uma construção lenta e um enquadramento subtil de certos momentos românticos. Relativamente à relação de Rubi e de Safira, o uso propositado de palavras como “amor” e “flirtar” permitem que o público se concentre no facto de a relação ser saudável, amorosa e obviamente romântica, desmistificando todo um preconceito.

Pérola nutre um amor muito puro por Rosa Quartz (mãe de Steven). Contrariamente a Granate, estas duas não viveram numa permanente fusão (Arco-Íris Quartz). Rosa apaixona-se por Greg e desiste da sua forma física para dar à luz Steven, morrendo. No entanto, Pérola e Rosa sempre tiveram uma grande cumplicidade, da qual Pérola se orgulha muito e que ao mesmo tempo, deixava Greg inseguro (por ser um simples humano, incapaz de se fundir).

Episódio dedicado a falar do amor que Pérola nutria por Rosa Quartz e no orgulho que tem na relação especial que tiveram

Rosa Quartz e Pérola no início de uma Fusão. Greg Universe no segundo plano.

Mas a mensagem mais poderosa desta série é relativa ao género. E é exatamente através da personagem principal que as várias barreiras que os papéis de géneros impõem são rompidas.

Steven não tem vergonha de ser feminino ou de pensar com o coração. Ela chora quando tem de o fazer e ninguém o julga por isso. Quando a sua amiga Sadie não se pode apresentar perante a cidade, ele substitui-a e usa o seu traje (de mulher) com todo o orgulho. E não há uma única expressão de estranheza, choque ou comentários depreciativos por parte das restantes personagens.

Um modelo positivo

Embora tenha enfrentado algumas adversidades com censuras internacionais, Rebecca Sugar continua o desenvolvimento do projeto com a mesma paixão com que o iniciou. Para a criadora, não é apenas na idade adulta que se aprende o que é a comunidade queer ou que somos todos diferentes e que não há problema nenhum nisso.

O desenvolvimento da identidade é feito desde cedo. Quanto a este, estudos provam que a ficção nos ajuda a descobrir quem somos, ao nos identificarmos com determinada personagem ou situação. Se não houver este tipo de oferta, as pessoas que não se veem representadas tenderão a isolar-se e a sentir-se deslocadas na sociedade. Steven Universe prova-nos que os contos de fadas existem para todos.