O cinema além de arte é indústria. A sensibilidade cinéfila é o motor criador das mais variadas obras e está, muitas vezes, subjugada às exigências dos números do Box Office. Como dizia Mein Herr (Liza Minelli) e Willkommen (Joel Gray), em CabaretMoney makes the world go around. Exatamente por essa razão, as datas dos lançamentos dos filmes não são deixadas ao acaso. Se o objetivo é o sucesso comercial, as distribuidoras planeiam os timings com precisão milimétrica.

Como lucrar com filmes “maus”?

Nem todos os filmes são bons, é claro. Mas mais do que com a qualidade, Hollywood preocupa-se com a rentabilidade. Um filme poderá não ser uma obra prima, mas com certeza vir a ser um investimento com retorno garantido. Veja-se a saga Tranformers. Unanimemente considerada brainless, é lucrativa o suficiente para a estreia do seu quinto filme estar agendada para junho; no auge da competição entre filmes blockbuster.

Restam os outros filmes: maus e não lucrativos. Sempre que possível, Hollywood esquiva-se à estreia em cinemas e lança diretamente em DVD. Mas quando essa não é uma possibilidade (por razões contratuais) estreiam-nos nos Dump Months.

Em português, traduzir-se-à para algo como Meses de Despejo, porque é para isso que servem: despejar os filmes que os estúdios se arrependeram de ter dado luz verde.  São eles janeiro e fevereiro, embora também se considere, por alguns, agosto e setembro

Regresso às aulas e carteira vazia

Observam-se instantaneamente duas razões para Janeiro deixar pouco a desejar. A primeira é o regresso às aulas. Quantas vezes se ouve um adulto dizer que não ia ao cinema há algum tempo?

Hollywood sabe disto, o público que mais gasta dinheiro em cinema são os jovens e, em janeiro, voltam às aulas. Esta é uma das razões que leva também à inclusão de Agosto e Setembro como Dump Months. Por outro lado, os adultos que poderiam preencher esta brecha estão a contar os tostões depois dos gastos natalícios. Junta-se a falta de disponibilidade à falta de dinheiro e o público diminui bastante.

A luta pelos Oscars e Super Bowl

Outro grande influenciador da data de lançamento de um filme no Estados Unidos são os Oscars. Os filmes nomeados têm de ter data de lançamento até dia 31 de dezembro do ano anterior. Numa estratégia com vista a evitar o esquecimento, os estúdios lançam os melhores filmes no final do ano. Janeiro sofre, por consequência, um défice de qualidade cinematográfica.

Tendo o primeiro mês do ano terminado, seria de esperar que houvesse alguma recuperação. Mas Fevereiro, além de ser o palco do feriado do dia do Presidente, é o mês em que acontece o evento mais americano à face da terra, o Super Bowl.

O fenómeno que já se tornou global junta famílias inteiras numa festa gordurosa, para fixarem os olhos no decisivo jogo da NFL. Os cinemas ficam vazios. De qualquer das formas, Hollywood investe no futuro, passando teaser trailers de blockbusters que irão estrear, principalmente, no verão.

Alguns despejos de 2017

The Bye Bye Man

Se há um estereótipo do filme que vai a janeiro morrer, são longas-metragens de terror PG-13. Repetições de fórmulas já antes vistas, repleta de clichés, com um elenco desconhecido e nenhum nome conhecido na equipa técnica. Bye Bye Man cumpre todos os requisitos.

IMDB: 3,8/10 Rotten Tomatoes: 24%

Monster Trucks

Um filme live action sobre um Monster Truck que ganha vida. Quando a premissa é ridícula e até o Nickelodeon deixa o projeto a meio da pós-produção, não é bom sinal. A data de estreia foi alterada três vezes e acabou no cemitério dos filmes. 

IMDB: 5,4/10 Rotten Tomatoes: 33%

The Book of Love

Também há espaço para lágrimas. Maisie Williams contracena com Jason Sudeikis, naquele que parece ser o mais passageiro drama deste ano.

IMDB: 5,5/10 Rotten Tomatoes: 0%