Foi aprovada a proposta que pretende conceder personalidade jurídica aos robots. O Comité Europeu dos Assuntos Jurídicos alerta que as categorizadas “pessoas eletrónicas” devem ser responsabilizadas pelos seus “atos e omissões”. Verdadeiras questões estalam, o debate alastra. Será isto afinal, o princípio de uma nova era?

Uma selva digital

Ao sair do trabalho para almoçar, o GPS escolhe o trajeto por mim, considerando a evolução do trânsito e a velocidade média de cada troço. Recebo um e-mail de um parceiro alemão, que o Google automaticamente traduz para Português quase nativo.

Para me ajudar a escolher o restaurante, utilizo a Zomato, pois foi aprendendo os meus gostos nas últimas semanas. Recebo uma notificação: a minha reunião terá de ser adiada já que o voo do meu cliente está atrasado.

Vivemos rodeados por inteligência artificial, dependentes de computadores em todas as suas formas e nem nos apercebemos disso. Em 2014, o aumento do número de vendas no setor da robótica atingiu os 29%, o maior já registado. Mas mais do que a vulgarização das tecnologias, as últimas décadas assistiram a um aumento exponencial da sua capacidade.

É o caso do programa Pocket Fritz 4 que, em 2009, venceu um campeonato de xadrez, correndo num simples smartphone. Pois é, num jogo em que cinco movimentos significam quase cinco milhões de combinações, esta é a prova de que todos carregamos no bolso um supercomputador.

Outro exemplo é o da robot Nadine, secretária na Universidade Tecnológica de Nanyang. Nadine consegue reconhecer clientes, ajustando os seus temas de conversação ao que o seu histórico lhe diz que melhor resulta.

A nossa visão antropomórfica, aplicada à computação, levará a sermos substituídos em todos os setores. Desde cirurgiões mais eficazes a professores que acedem num ápice a toda a informação disponível, a vantagem competitiva dos robots será esmagadora.

Os dilemas que enfrentamos

O súbito aparecimento de máquinas que tomam decisões em aspetos cada vez mais relevantes da nossa vida preocupou Bruxelas, e com razão. Os deputados europeus pretendem assegurar que os possíveis danos causados por um computador são imputados ao seu dono. Também a questão dos direitos dos robots foi avaliada, nomeadamente da propriedade intelectual do conteúdo científico por eles gerado.

Mas é de notar que à superfície estará o que é uma ponta muito tímida de um iceberg de questões e possibilidades. Mais cedo ou mais tarde, a título de exemplo, as metrópoles contarão unicamente com carros de condução automática. Peter Sweatman, da Universidade de Michigan, recorda que isto reduziria o número de acidentes em 90%. Mas há um dilema moral que rapidamente surge. Por vezes, um veículo poderá ter de optar por deliberadamente chocar contra algo, matando todos os seus passageiros, mas evitando a morte de mais pessoas fora do carro. O setor automóvel é, para Bruxelas, dos que pede a mais urgente regulamentação.

O relatório sugere que os robots e outras manifestações de inteligência artificial poderão “provocar uma nova revolução industrial, que provavelmente não deixará nenhum estrato social de parte”. O documento deverá ser agora votado em plenário, no mês de fevereiro.

O verdadeiro debate estará para breve

Se pararmos para pensar onde a inteligência artificial nos leva, as conclusões podem ser intimidantes. A diferença entre programar uma calculadora ou o cérebro humano é apenas uma questão de complexidade. Se os computadores já nos superam em tantas áreas, o que nos leva a achar que não o farão em todas?

Sensibilidade, emoção, consciência: tudo se pode resumir a um conjunto de estímulos químicos, sinapses e ADN. Mapeando o cérebro e o código genético, em vez de neurónios teríamos fios, em vez de carbono silício, mas o cérebro seria o mesmo, em todas as suas funcionalidades. Pois é, nem há um ano uma equipa alemã anunciou que estava a trabalhar na criação de um sistema nervoso artificial, que permitirá aos robots sentir dor física.

Em 70 anos criámos a Nadine, o que faremos noutros 70? Procuramos dar mais e mais autonomia aos robots, mais e mais inteligência. Ganhando perceção da própria existência, que direitos reivindicarão eles? E mais importante, que direitos estamos dispostos a dar-lhes?