Manchester by the Sea é uma brilhante obra do cinema independente norte-americano e um triunfo do realismo. O filme de Kenneth Lonergan surpreende pela sua simplicidade, pelo seu caráter pragmático e pela forma como as personagens se revelam tão belas no seio da sua própria mundanidade e genuinidade.

Lee Chandler (Casey Affleck) é forçado a voltar para a sua cidade natal com o objetivo de tomar conta de seu sobrinho adolescente, após o pai (Kyle Chandler) do rapaz, seu irmão, ter falecido precocemente. Este retorno ficará ainda mais complicado quando Lee precisar de enfrentar as razões que o fizeram ir embora e deixar sua família para trás, anos antes.

Manchester by the Sea é incrível, ponto final. A realização de Lonergan e especialmente o seu argumento são essenciais para a definição deste filme como um marco na sua ainda curta carreira como realizador. É o despojamento da câmara dos seus artifícios técnicos, é o minimalismo nos diálogos, é a entrega natural dos atores. Todos estes fatores fazem com que Manchester by the Sea pareça que não tem nada de novo para oferecer ou que é um filme extremamente fácil de se fazer, mas é nessa ilusão criada por Lonergan e Casey Affleck que este filme se torna na obra-prima que é.

O compromisso que Lonergan tem com o realismo ao longo de todo este filme é algo a que o realizador tem de obedecer a cada segundo e é uma tarefa extremamente inglória, principalmente no cinema americano que se quer rápido, estimulante e extraordinário. O que Lonergan se propõe e faz com o seu espectador é completamente o oposto, ele submerge-nos numa história de passo lento, por vezes apática e que demora a evoluir…

Aliás, não existe em Manchester by the Sea uma real evolução da história. Lee, a personagem de Casey Affleck, é o nosso ângulo perceptivo e, com ele, vamos acompanhando não uma história com princípio meio e fim, mas sim uma conturbada psique que nos deixa espectar para dentro dela durante um determinado período. O filme começa e acaba sem uma evolução palpável, mas não é assim que o ser humano funciona face à destruição e ao caos? Não ficamos nós apáticos, estáticos e imóveis?

É neste entender por parte de Lonergan do ser humano que faz de Manchester by the Sea um dos mais curiosos filmes do ano e Casey Affleck nunca desilude. É um papel definidor de carreira. Uma das personagens mais mística e humanamente interessantes do cinema mais recente e Casey consegue-o captar de uma forma perfeita. É uma performance que, pela excelência de Affleck, poderá ser caracterizada por muitos como fácil. Mas a apatia, a mágoa, a dor, tormenta e os fantasmas de Lee fazem dele próprio a personagem mais fascinante e ingrata de encarnar. Casey consegue-o fazer e, vindo do nada, entrega a performance do ano.

E o que dizer também de Michelle Williams? A atriz que interpreta Randi não é uma presença frequente na película, mas entrega, sempre que aparece, uma performance fantástica. Williams parece ter estudado Randi ao milímetro, desde a estridente voz ao pequeno trejeito na boca quando se irrita que só o espectador mais atento é que apanha, tudo o que esta atriz fez com a Randi é irrepreensível.

Manchester by the Sea é um filme longo, um filme humano, indolente e que tem como base uma história extremamente trágica, mas que nunca roça no melodramático. Esta é também uma das proezas da realização segura e pragmática de Lonergan, o não cair no gratuito muito rapidamente graças à base narrativa.

Este é um filme quase sensorial. Um filme que nos submerge na depressão inerente a todos os humanos, inerente ao ser. É uma obra que pinta a vida através da morte, uma obra que encontra a beleza na tragédia.

Ficha técnica

9/10

Título: Manchester by the Sea
Realizador: Kenneth Lonergan
Argumento: Kenneth Lonergan
Elenco: Casey Affleck, Michelle Williams, Kyle Chandler, Lucas Hedges
Género: Drama
Duração: 137 minutos