No seu novo disco, Simon Green aka Bonobo faz uma notável migração com destino ao seu trabalho mais sofisticado até hoje. O sexto álbum do músico e produtor britânico chama-se Migration e promete fazer-nos viajar para os espaços mais selvagens da imaginação.

O disco apresenta-se como um upgrade a The North Borders, ou seja, um produto maturado de eletrónica downtempo mas com mais potencial do que mera música para ouvir num bar lisboeta no verão.

Numa entrevista concedida à WIRED, Bonobo admitiu que “em 2013, arrumou todos os seus pertences e foi em tour pelo seu quinto álbum The North Borders. Dezoito meses depois, foi parar a Los Angeles com apenas uma mala e sem casa. Migration, o álbum nascido dessa experiência, aborda a vida peripatética do próprio músico britânico ao mesmo tempo em que torna a questão da migração humana intensamente pessoal.

Migration é a faixa que abre o disco e começa com um piano muito melancólico quase a desenterrar ali um Ólafur Arnalds, mas rapidamente se vai juntando aos synths e percussão que tomam conta da música. Break Apart, que conta com a colaboração da dupla de R&B Rhye, é uma faixa especialmente melancólica para ouvir encostado a uma janela num modo daydreaming.

Surface é mais morna e distante, mas Bambro Koyo Ganda, que conta com a colaboração do grupo Innov Gnawa, faz uma viragem no álbum com as suas influências marroquinas e mostra que Bonobo é um artista experimental que consegue fazer a ponte entre world music e eletrónica.

Outlier, uma faixa monótona e produzida em demasia, faz-nos lembrar Four Tet ou Burial e mostra-se bastante paralela ao resto do álbum, notavelmente mais melancólico e cru. Um dos momentos altos do álbum devido à sua peculiaridade é Second Sun. Torna-se facilmente na faixa mais sentimental e serena do trabalho de Green quando os synths são repostos por uma pequena orquestra e um piano, demonstrando mais uma vez que este é o trabalho mais maturado do músico. Também Grains se mostra bastante descontraída e reflexiva com pequenos samples a voarem pela música fora.

Como o álbum temperamental que é, há nele faixas como No Reason e Kerala que ganham um estatuto de single e são mesmo os opostos do álbum. No Reason é muito mais desconcertante e reservada no que toca às palavras entoadas por Nick Murphy fka Chet Faker durante o refrão: “and we’ve got no rhyme or no reason now / we’ve got the time of our lives now”.

Kerala consegue, em cerca de quatro minutos, fazer-nos uma breve visita guiada pelo sexto álbum de Green, com o seu downtempo realçado bem como o cativante ritmo étnico que deixa entre nós um rasto de ansiedade.

A proximidade de Ontario e 7th Sevens assinala a constante mutação que este álbum sofre à medida que ouvimos. Apesar de tudo ser meramente instrumental, Bonobo obriga-nos a olhar para além do simples groove. Há temas de felicidade e de tristeza, de estabilidade e de mudança. É em Figures que Simon Green alcança o final cinemático e relaxado que precisamos depois de percorrer toda esta obra tão avassaladora

Simon Green deixou este trabalho a fermentar e demonstra que é o verdadeiro cidadão global que nunca deixou de lado o Afrobeat ou o trip-hop underground. No entanto, aborda um lado mais pessoal do músico, que necessitou de refletir acerca de temas como a identidade e a mudança. É pensativo e introspectivo. Deixem as mentes à solta pelas verdejantes selvas com o dreamy e sonoramente rico Migration.