A actriz portuguesa de teatro e cinema Maria Cabral morreu este sábado, dia 14, em Paris, segundo informou esta madrugada a Academia Portuguesa de Cinema. Conhecida pelos seus papéis em filmes como O Cerco (1970), de António da Cunha Telles, O Recado (1972), de José Fonseca e Costa e Um Adeus Português (1985), de João Botelho, a atriz foi apelidada pela Academia, na sua publicação no Facebook, de “rosto e símbolo do Novo Cinema Português”.

Marcelo Rebelo de Sousa apresentou publicamente as condolências à família da actriz no site oficial da Presidência da República, destacando que “nenhum outro actor ganhou, com uma obra tão breve, um estatuto tão icónico no cinema português” e recordando a imagem deixada “de uma mulher luminosa e irreverente, inquieta e livre”.

 

Uma personalidade marcante e um talento inegável

De facto, “irreverente” parece ser o termo que melhor descreve esta mulher cujo carisma tanto impressionou colegas e jornalistas. Tomemos como exemplo esta entrevista que a actriz deu à revista Plateia antes da estreia de O Cerco, enquanto vivia em Inglaterra:

“— Quando começou a pensar em ser atriz? Acreditou desde logo em si? E outros, acreditaram?
— Nunca pensei em tal coisa. Acredito sempre em mim, sobretudo quando digo mentiras. E os outros também.
— Tem presente ainda o seu primeiro dia de filmagens, ou já esqueceu tudo quanto se passou?
— Nunca tenho presentes, de maneira que o melhor é esquecer.
— Que impressão recolheu da primeira exibição das primeiras cenas filmadas?
— As impressões não se recolhem.
(…)
— Gosta de se ver em ‘O Cerco’.
— Gosto sempre de me ver. Sou uma pessoa muito simpática, faço muito boa companhia.
— Como vê a personagem que encarna no filme, encarando-a friamente como mulher que tem uma experiência vivida decerto muito diferente.
— Conhece alguém que tenha encarnado uma personagem?
(…)
— Dizem que tem uma voz maravilhosa para cantar e que uma empresa gravadora já a convidou para o lançamento de um disco com quatro canções interpretadas por si. Trocaria a carreira de actriz pela de cançonetista se tivesse essa possibilidade?
— Não sabia que dizem isso! Mas se dizem deviam dizer-me.
(…)
— Pensa vir a Lisboa assistir à estreia de ‘O Cerco’?
— Sim, se me pagarem as passagens em 1.ª classe.
— Que representa a vida para si como mulher, como mãe e como actriz?
— A vida não representa, eu é que represento.”

É a força desta personalidade arrojada que parece ter conquistado aqueles com quem trabalhou. Cunha Telles referiu-se a ela como “uma personalidade curiosíssima” e “uma presença particularmente sugestiva”, em entrevista à revista Celulóide, enquanto João Botelho a recorda como uma “pessoa um pouco fora do normal”.

Mas se a peculiaridade do seu carácter parece ser difícil de explicar, as razões pelas quais fica na História do Cinema Português parecem bem mais fáceis de apontar. É que o talento de Maria Cabral era consensual. Depois de O Cerco fazer a sua passagem pela edição de 1970 do Festival de Cannes, o jornal Le Monde teceu rasgados elogios ao seu desempenho e surgiram rumores de que Jean Luc Godard desejaria trabalhar com ela, o que, contudo, nunca se chegou a concretizar.

Também João Botelho tem histórias para contar do tempo em que dirigiu Maria Cabral nas filmagens de Um Adeus Português. O realizador desde cedo soube que a actriz era ideal para o papel de Laura, a viúva de um soldado morto na Guerra do Ultramar que recebe em sua casa os sogros enquanto tenta reconstruir a sua vida.“Ela era ideal para aquela personagem, sabia disso, lembro-me daqueles olhos portugueses. Mas era estranha. Lembro-me de lhe ter pedido para vir com o cabelo comprido, apareceu com o cabelo rapado. Tive de esperar uns 15 dias para que lhe crescesse algum cabelo. Outra vez apareceu com sete saias, achava que estava magra e precisava engordar. Mas quando começava a trabalhar, aquilo era resplandecente.”

Depois da rodagem deste filme, em 1986, Maria Cabral retirou-se definitivamente e mudou-se para Paris, segundo conta Cunha Telles, para aderir a uma comunidade religiosa, afastando-se do seu país, do cinema, dos palcos e daqueles que a tinham acompanhado ao longo da sua carreira: “Foi para França, para uma experiência religiosa oriental e afastou-se do nosso mundo contemporâneo”. Foi neste contexto que partiu, este sábado, aos 75 anos.