Estreou recentemente no Netflix a série baseada nas desgraças de três orfãos, perseguidos por um vilão sinistro e desprezível que fará de tudo para deitar as garras à fortuna das crianças. Com A Series of Unfortunate Events a receber uma adaptação (bastante) leal aos livros escritos por Daniel Handler, coloca-se a questão: vale a pena ler os livros ou será a série superior?

O artigo que se segue contém spoilers da história, assim como uma série de eventos extremamente desagradáveis. Se quiseres ler um artigo mais positivo recomendamos que não continues com a leitura. Não digas que não avisei.

Lemony Snicket e a sua Série de Desgraças

O primeiro livro, Mau Começo, foi lançado em 1999 nos EUA, seguido de 12 livros “muito desagradáveis“. O autor, Daniel Handler, na altura usou o pseudónimo de Lemony Snicket, acabando o próprio por se auto-inserir na narrativa.

A Series of Unfortunate Events foca-se nas crianças Baudelaire, Violet Klaus Sunny, que após perderem os pais num misterioso incêndio, entram num ciclo estranho de passagem pelas mãos de vários guardiões. O primeiro desses guardiões, o Conde Olaf, fará de tudo para deitar a mão à herança das crianças.

Até ao momento, na série da Netflix, foram adaptados os quatro primeiros livros (Mau Começo, A Sala dos Répteis, Janela Larga Lugar Tenebroso), embora a série termine no começo do quinto livro (Uma Austera Academia).

Em Portugal os livros só foram lançados até ao oitavo livro O Hospital Hostil. No meu caso, até ao momento só li até ao décimo livro (The Grim Grotto), embora tenha intenção de reler toda a história eventualmente.

A Series of Unfortunate Events tem um certo charme e suspense que me compele a querer ler mais. Lemony Snicket tem uma escrita única e que consegue transparecer uma história negra polvilhada com uma pitada de comédia. A narrativa é acompanhada de experiências pessoais do autor, definições de palavras que alguns leitores podem não conhecer e de várias críticas sociais, as quais definitivamente se podem aplicar na realidade em que vivemos.

Contudo, falando apenas nos quatro primeiros livros, a narrativa tem um defeito grave que é a repetição da trama: em cada livro os órfãos têm um guardião diferente e em cada livro têm que desmascarar o Conde Olaf, ao mesmo tempo que os adultos com quem convivem nunca os levam a sério por serem crianças. Até ao sétimo livro a trama é sempre a mesma, algo que pode aborrecer os leitores que gostam de ver avanços numa história.

No entanto, ao quinto livro começam a ser introduzidos elementos de mistério e intriga aos quais estão associados os pais dos órfãos e a partir do sétimo livro a história dá uma reviravolta, melhorando em mistério e em desenvolvimento de personagens.

Uma adaptação, não só leal, mas também extensa

A série, enquanto adaptação, não só conseguiu apresentar uma história completamente leal à história e tom dos livros, como ainda teve a oportunidade de expandir vários elementos. Os órfãos deixaram de ser personagens definidas apenas pelos seus talentos. O Conde Olaf aqui é mais do que um vilão sinistro e ganancioso.

No caso das personagens principais esta série serviu para os introduzir, assim como para explorar vários aspetos das suas personalidades que nem os livros aprofundaram.

Um dos defeitos principais dos primeiros livros, nomeadamente a unidimensionalidade de muitas personagens definitivamente é algo que nesta adaptação não se nota nas personagens com maior tempo de antena.

Até algumas das personagens secundárias revelam um pouco mais de caráter, ao mesmo tempo que se mantêm fiéis ao que os adultos nesta história são: ou são pessoas que se preocupam genuinamente com crianças, pessoas com más intenções ou simplesmente estúpidas (o Sr. Poe e a Tia Josephine, por exemplo, continuaram a ser duas personagens que me davam raiva sempre que abriam a boca).

Várias outras personagens tiveram direito a uma história mais aprofundada e até temos direito a ver personagens que nos livros apenas são mencionados. Alguns elementos que apenas começariam a ser referidos no quinto livro, nomeadamente a sociedade secreta presente na vida dos órfãos, são abordados aqui, algo que dá a entender aos leitores que há algo muito maior por detrás da miséria dos Baudelaires. Isto foi uma boa opção, pois caso a série seguisse os livros de forma rigorosa, a série correria o risco de se tornar monótona.

É certo que existiram algumas mudanças, contudo a série conseguiu usar isso a seu favor. Talvez a mudança mais notável, para quem leu os livros, tenha sido nos dois últimos episódios. Contudo, a meu ver, foi uma forma de fugir um pouco à monotonia dos livros, assim como para aprofundar um pouco a história de certas personagens que, mais tarde, poderão vir a ter um papel maior.

Contudo, se tiver que apontar um aspeto negativo na série, ei-lo: um elemento de mistério que se perdeu com a série foi ter sido mostrado o rosto de Lemony Snicket. Sempre que lia existia um certo mistério em volta do narrador que me ia ensinando palavras e contando bocados da sua história de vida. De certa forma existia uma liberdade da parte do leitor para se ponderar quem seria ele, que aspeto teria e que faria ele, algo que até o filme de 2004 manteve nas sombras.

Ao mostrarem um rosto, parte do mistério perdeu-se um pouco, a meu ver, embora reconheça que com a narrativa de Snicket ao longo dos episódios, isso de certa forma me faça lembrar o livro em que o narrador ia dando opiniões e contando experiências pessoais ao mesmo tempo que a ação decorria.

No geral, apesar do último aspeto que apontei, atrevo-me a dizer que a série conseguiu ser superior aos livros em que se baseia. Não só aos livros, como também ao filme de 2004.

Neil Patrick Harris ou Jim Carrey?

Com esta nova adaptação, naturalmente surge a tendência de se comparar as adaptações. O filme de 2004, apesar de ter tido sucesso assim como de ter ganho um Oscar (Melhor Maquilhagem) esteve muito longe de conseguir captar todos os eventos do livro. A adaptação pegou nos três primeiros livros, cortou vários elementos do segundo e do terceiro e meteu o final do primeiro livro no final do filme, mesmo esse com alterações drásticas.

Esta decisão prejudicou um bocado a narrativa, assim como as oportunidades de mostrar as estratégias dos órfãos em derrotar o seu maior inimigo. Os irmãos no filme, apesar de visivelmente inteligentes, não revelaram tanto carácter como os da série. A melhor atriz dos três… ou devo dizer as melhores atrizes, foram as gémeas que deram vida a Sunny Baudelaire, visto que Klaus e Violet em muitas cenas pareciam pouco envolvidos na história.

Quanto ao Conde Olaf, aqui a escolha torna-se complicada, pois tanto Jim Carrey como Neil Patrick Harris conseguiram dar uma interpretação cómica à personagem em questão. Contudo, é o Olaf de Neil que captura melhor o lado sinistro e narcisista do antagonista, ao mesmo tempo tempo que assume um tom cómico.

No caso de Carrey, sem dúvida sobressaía mais o lado cómico do que o lado sinistro, já para não falar que muito do marketing em torno do filme estava centrado em torno dessa performance.

No que toca a elementos tais como os cenários, ambas as adaptações conseguiram dar azo à sua criatividade, mas é no tom que ambos se distinguem: o filme é cómico e, às vezes, sentimental; a série consegue manter um equilíbrio entre o cómico e o negro, algo que prevalecia nos livros.

Apesar de ainda ter algumas boas recordações com o filme, é a série que definitivamente consegue mostrar maior solidez assim como tirar muito maior partido dos seus elementos.

Vale a pena ler os livros mesmo assim?

Apesar de salientar que a série consegue dar o essencial e muito mais aos que nada sabem sobre os livros, aos que gostam realmente de ler, definitivamente recomendo uma leitura desta série.

Apesar de começarem por ser livros muito simples, no começo, há uma sensação de interesse e compaixão pela situação dos Baudelaires que me levou a continuar a ler. Mesmo com a monotonia na trama (que acaba no livro sete) existia a curiosidade por saber o quanto isso iria afetar os irmãos. Se tiverem a paciência que eu tive, garanto-vos que a história melhora de forma significativa.

Não só os Baudelaires envelhecem fisicamente, como ainda crescem com as suas experiências, sendo expostos a uma variedade de realidades desagradáveis. O livro é infanto-juvenil, no entanto, trata os leitores como adultos ao falar-lhes de duras realidades e dos “monstros” que as tornam reais.

A Series of Unfortunate Events tem momentos genuinamente negros, mas é a viagem e a esperança que move os irmãos que leva a que o leitor queira saber o que está na próxima página, mesmo com todos os adultos na sua vida a tratá-los mal ou a ignorarem as suas palavras.

Esta série pode não ter um final feliz, mas é certamente uma viagem na qual estes jovens aprendem que só podem contar com um tipo de pessoa para sobreviver às desgraças: eles próprios.