No Dia Mundial do Compositor, o Espalha-Factos homenageia um dos maiores cantautores atuais: Benjamin Clementine.

Quis alguém que o Dia Mundial do Compositor se assinalasse ao dia 15 do primeiro mês do ano, em que celebramos e agradecemos as composições que tantos e brilhantes músicos trouxeram ao mundo. Quis eu que esse dia fosse assinalado com uma homenagem a alguém a quem seria crime chamar “apenas” de compositor, por ser bastante mais do que isso: músico, intérprete, poeta. Artista.

Falo de Benjamin Clementine, quem Londres viu nascer em dezembro de 1988, cidade ainda pouco preparada para o talento e determinação que se faria sentir, lá e no resto do mundo. A infância, em que os brinquedos eram trocados por livros e o tempo livre se passava em frente a um piano herdado por um irmão mais velho, talvez fizesse prever que Clementine seria tudo o que quisesse ser, e nada que quisessem que fosse.

Reprovado a quase todas as disciplinas e certo que de a vida de estudante não era a sua, os 16 anos marcaram o início de tempos difíceis que hoje são retratados em várias das suas canções. De costas voltadas para a família, mas de rosto virado para o mundo, St-Clementine-on-Tea-and-Croissants (2015) faz as perguntas-chave:

“Where? Where is your son? Where did he go?

As Ruas e os Palcos

Para Paris, onde levou a vida irónica de quem tinha o seu palco em hotéis e a sua cama nas ruas. Os anos seguintes permitiram que, eventualmente, se desse ao luxo de ocupar um beliche num quarto com outros nove, em Montmartre, o bairro mais boémio da capital francesa.

Ninguém o ensinou a ser artista, mas Clementine sempre o foi; uma guitarra meia partida e um teclado barato foram o suficiente para começar a escrever e a compor as canções que hoje conhecemos e nos lavam a alma, como decerto serviram para lavar a dele, tornando-se cabeça de cartaz frequente das estações de metro de Paris e mais tarde figura de culto do panorama musical da cidade.

Benjamin Clementine a actuar numa estação do metro de Paris, em 2009

Conhecer as pessoas certas, na altura certa, acabou por desenhar o futuro risonho que hoje é o presente de Benjamin Clementine. Um talento impossível de “reduzir” à música, porque a poesia das letras autobiográficas e a expressão na voz, que tantas vezes transcendia o canto e passava a narrativa, assim o ditavam, saltou de Paris para o resto da Europa.

Cornerstone, uma das canções mais populares do artista e que tão bem retrata o que é a solidão no meio de um mar de gente, caiu do céu em forma de EP no ano de 2013 e foi extremamente bem recebido pela crítica.

“I am an expressionist; I sing what I say, I say what I feel what I play by honesty and none other but honesty.”

O poeta que escreve canções

At Least For Now é o primeiro álbum, lançado em janeiro de 2015 (o segundo aniversário foi celebrado em véspera de sexta-feira 13) e por tantos considerado um dos melhores desse ano, o mínimo que a brilhante composição, escrita e interpretação de Benjamin Clementine podia acarretar.

Além destes factores, há ainda um outro que nos pesa tragicamente em toda a sua obra: a história, que Clementine faz questão de deixar sempre presente, seja em canções – tais como Winston Churchill’s Boy, London, Adios e Condolence – ou em concertos, em que pausas são feitas para conversar com o público.

Assim o fez durante a sua estadia em Portugal, em junho passado, no Coliseu do Porto (um concerto de que me lembro na íntegra, cedendo ao cliché, “como se tivesse sido ontem”), logo após a poderosa Cornerstone: “Não afastem os vossos filhos só porque eles amam a arte, a pintura ou a música. Porque se os afastarem, eles vão odiar-vos e isso é um facto. Têm que encontrar o que amam e simplesmente fazê-lo.”

Benjamin Clementine no Coliseu do Porto, junho de 2016

Assim, o mundo habituou-se a uma figura alta e esguia, que surge de casaco comprido e negro, sem camisola que tape o tronco, sem sapatos que calcem os pés, mas com música e voz inconfundíveis e incomparáveis que enchem salas, com história que enche corações. Benjamin Clementine é o artista que já foi sem-abrigo, o compositor que escreve poesia, o poeta que escreve canções, o cantor que toca piano e outros tantos instrumentos diferentes, o músico que conta histórias: as suas.

“Clementine knows where he is now 
Sweet…Sweet sugar stranger… Where did he go?
No need to worry about him 
Clementine is on his tea and croissants”