Sexta-feira 13, frio no Cais do Sodré mas um Musicbox bem quente para receber L-Ali, Mike El Nite e Nerve – com casa cheia, importante mencionar. Pediram um funeral, mas vale sempre uma interpretação livre sobre o que é trazer a casa abaixo. Um anda mascarado, outro autointitula-se de sacana nervoso e ainda há um terceiro que gosta mais de bicicletas em vez de carros que falam – mas isto é tudo muito por alto, que há mais à mistura.

2017 arrancou com o consolidar de uma ideia que já arranha o cérebro de muito boa gente há uns tempos – o hip hop em português está vivo e recomenda-se. Já dava para perceber isso quando o SBSR finalmente percebeu que fazia sentido ter um dia dedicado ao género – que levou a uma verdadeira enchente para ver Slow J e Mike El Nite, numa tórrida tarde de verão. Chegamos ao outono e o Vodafone Mexefest também alinha na ideia da representação tuga e junta Nerve a Mike El Nite – e quão bem estas alminhas se complementam.

Mas deixemo-nos de divagações e voltemos ao Musicbox – onde tudo começava com L-Ali. De máscara preparada, não se pode dizer que tudo tenha sido um passeio até conquistar a plateia. Andou às voltas, mas o rapper lá conseguiu; tudo culminava com a subida a palco de Mike El Nite, já a antever a noite que se ia passar com os “meus grandes putos”, como já é um hábito na sua comunicação com o público.

Nerve misturou habilmente as músicas de Trabalho e Conhaque ou A Vida Não Presta e Ninguém Merece a Tua Confiança com algumas das já amadurecidas músicas de Eu Não Das Palavras Troco a Ordem. “Onde é que vocês andavam há uns anos?”, atirava, como que em resposta à entusiasta manifestação do público aos temas do disco de 2008.

Diz que lhe basta “ser um herói de vez em quando” e aceitamos – não houve quem se negasse a entoar refrões em Lenda, Trabalho ou na soberba Nós e Laços. Impossível não mencionar também o momento à capella – certamente capaz de assombrar qualquer alma. Em jeito de transição, a mais recente Funeral, com produção a cargo de DWARF, juntava os dois vultos em palco.

Com a saída de Nerve, era tempo de Mike El Nite, que agradecia novamente aos “grandes putos”. Irrequieto, respondia aos pedidos do público pela Só Badalhocas“não, muito uplifting. Hoje é só marchas fúnebres.”

Sem deixar de lado os seus filhos mais velhos – Vaporetto Titano ou Rusga para Concerto em G Menor – passaria rapidamente por Oliude, Horizontes ou Santa Maria. Para Água Fria, uma preparação muito à la Kanye West – com autotune. Tudo para deixar o palco preparado para Prof Jam, para entoar Água Fria, para logo depois mergulhar em Mambo Nr.1, tema que viria a chamar a atenção de muita gente, em 2013.

Houve até quem não resistisse a um pequeno throwback ao Super Bock, durante as interacções com o público, recordando o cântico mais ouvido em julho no Parque das Nações, alusivo a Éder – está tudo dito, não é? T.U.G.A que é tuga sabe que vale sempre terminar concertos em festa.

Quatro anos depois do primeiro EP, Mike El Nite tem uma boa vista do panorama musical português. Nerve tem o seu quê de eterno desconfiado, mas isso não diminui a capacidade de deslumbrar – e não há dúvida de que Trabalho & Conhaque proporcionou bons momentos a muita gente. Juntos são peças que encaixam com requinte. Por isso, fica a questão: para quando um projeto conjunto, além de um Funeral? E, já agora, uma sala maior para futuras repetições deste género…