O ano passado terminou com grande alívio e o desejo de um 2017 melhor. Para M. Night Shyamalan, o realizador com a carreira em convalescença, o novo ano está a começar bem. Após um declínio gradual que o apagou momentaneamente do panorama internacional, surgem boas notícias.

Os primórdios

Em 1999, Shyamalan, na altura um cineasta sem relevância que escrevera o guião de Stuart Little, toma de surpresa audiências e críticos com O Sexto Sentido. O thriller tenso, em que Bruce Willis surpreende e o jovem Haley Joel Osment desempenha o papel da sua vida, chocou o público com a reviravolta final. Um mecanismo narrativo que se tornou recorrente na obra de M. Night. Em um ano, Shyamalan passou de cineasta incógnito a realizador de um filme com seis nomeações para os Oscars.

Seguiu-se O Protegido, em 2000, e Sinais, em 2002, ambos filmes bem recebidos pela crítica e com sucesso comercial. Tal era o sucesso, que se iniciaram negociações para que realizasse o primeiro filme da saga Harry Potter. Uma proposta que caiu por terra, por entrar em conflito com rodagens de outros filmes já agendados.

O Embuste do Canal Syfy

No auge da sua carreira, o ego de Shyamalan era tão grande quanto o número de cameos que contabilizava nos seus filmes. Tendo o foco passado para si mesmo, o canal Syfy produz em 2004 um documentário de três horas sobre o realizador: The Buried Secret of M. Night Shyamalan. O documentário prometia uma investigação sobre a sua vida pessoal e a revelação de um segredo chocante. Através de investigação, o canal Syfy descobriu que quando era jovem, Shyamalan sobrevivera miraculosamente a um afogamento, após passar 35 minutos no fundo de uma lagoa. Como consequência, o realizador teria tido experiências sobrenaturais e comunicado com espíritos.

Começaram a surgir suspeitas de que tudo não passava de um grande embusteAssociated Press, que noticiara o documentário como baseado em factos reais, confrontou publicamente Bonnie Hammer, o presidente do canal SyfyHammer cedeu, era mentira. O filme que projectava ser independente, na verdade tinha tido envolvimento direto e ativo de Shyamalan, desde o início, descobrindo-se que foram assinados contratos de confidencialidade com multas no valor de cinco milhões de dólares.

A Implosão

Com a imagem manchada pelo embuste do canal Syfy, o realizador estreia no mesmo ano A Vila. Apesar de ter sido um sucesso comercial, os plot twists tornaram-se expectáveis e as primeiras opiniões negativas surgiram. Os críticos interrogavam-se se todo o louvor não teria sido precipitado.

Entretanto, o realizador iniciara conversações com a 20th Century Fox para uma adaptação de A Vida de Pi, o filme que mais tarde viria a ser realizado por Ang Lee. O projeto é posto de parte e Shyamalan dedica-se a Senhora da Água e O Acontecimento. Os dois filmes foram destruídos pela crítica. “Ridículo“; “Rebuscado“; “Incoerente“; “Aborrecido“. Eram alguns dos comentários feitos e proferidos. O anteriormente chamado de génio do suspense passava a patético. As tentativas fracassadas de ter histórias invulgares tornavam-se evidentes e os seus plot twists dispensáveis. Com cada filme cotado pior que o anterior e com os resultados financeiros em declínio, Shyamalan põe todos os seus esforços em O Último Airbender. Contrariamente ao ambicionado, o filme que fica marcado como a apoteose da sua espiral descendente.

Um novo começo

Desde então, Shyamalan tem visto o seu nome soterrado nos créditos ou omitido na totalidade. Uma estratégia usada pelos estúdios, de forma a impedir a condenação dos seus filmes ao insucesso, à partida. O modus operandi tem sido o de de jogar pelo seguro e, por vezes, utilizar star power (Depois da Terra). Até agora, apesar de alguns contratempos, tem conseguido críticas medianas, ou o privilégio do quase-anonimato para proteção dos seus mais recentes fracassos.

Mas, como que se de um reviravolta da vida real se tratasse, Shyamalan surpreende com o seu novo filme Split. A história de um homem com múltiplas personalidades que rapta três raparigas tem sido recebida de forma esmagadoramente positiva, criando debates nas redes sociais sobre qual será o plot twist. A longa-metragem tem, à data, uma pontuação de 7,5/10 no IMDB e 81% no Rotten Tomatoes. Segundo John Hoffman, do Guardian, o novo filme é “uma magistral mistura de Hitchcock, com terror e uma sessão de psicologia”.

Estaremos perante o regresso de M. Night Shyamalan? Provavelmente teremos que esperar pelo fim, para perceber.