Zeus é o título do ambicioso projecto que marca a estreia de Paulo Filipe Monteiro como realizador de longas-metragens. Tal como aparece no grande ecrã no final da película: “Esta é a história real de Manuel Teixeira Gomes”, escritor de literatura erótica e sétimo Presidente da República Portuguesa, cargo que ocupou por pouco mais de 24 meses até decidir, por vontade própria, deixar a sua antiga vida para trás e, com 65 anos, começar tudo de novo na Argélia, onde viveu até ao fim da sua vida.

Paulo Filipe Monteiro optou por uma forma não-cronológica de organizar a narrativa deste filme biográfico ao dividir o mesmo em três blocos distintos que alternam constantemente entre si. Esses blocos podem ser vistos como: o bloco da presidência, onde o público vê Manuel Teixeira Gomes nos seus tempos de Presidente da República; o bloco do auto-exílio no Norte de África, que o apresenta como um viajante apaixonado pela vida; e o bloco de Maria Adelaide, que representa uma das suas mais conhecidas obras literárias e se estabelece assim como um bloco paralelo aos outros dois.

Em termos visuais esta divisão da longa-metragem foi muito bem conseguida, sendo que cada bloco espelha os sentimentos pretendidos pelo realizador. O bloco da presidência é escuro, frio, limitado a poucos espaços físicos; enquanto que o bloco passado na Argélia representa a liberdade com tons quentes, interacção humana e múltiplas localizações.

Mas esta divisão tem também os seus lados negativos. O bloco de Maria Adelaide – apesar de, visualmente, possuir também uma presença própria – acaba por se tornar redundante, servindo muitas vezes apenas para cortar o ritmo do filme e tornar sem qualquer necessidade a alternância entre os outros dois blocos numa tarefa confusa.
Outro ponto negativo neste filme são os erros de montagem. Isto é principalmente perceptível nos primeiros vinte minutos da película, em que o público observa claramente que foram cortadas linhas de diálogo ou até mesmo cenas inteiras. Estas falhas de montagem – que são uma consequência de uma provável tentativa de reduzir a duração do filme – prejudicam em grande medida Zeus, que em diversos momentos é sentido como apenas um conjunto de cenas desconexas.

Mas um dos pontos mais fortes da película de Paulo Filipe Monteiro é, sem dúvida, o trabalho dos seus actores. Todo o elenco foi bem escolhido, mas o destaque tem de ir para as interpretações de Sinde Filipe (Manuel Teixeira Gomes), Ivo Canelas (Ramiro) e Idir Benebouiche (Amokrane).


Podemos dizer que Zeus é um pouco mais do que aquilo que esperaríamos de uma primeira longa-metragem de um realizador. Apesar de ter as suas falhas – algumas delas grandes – , o filme tem também diversos aspectos positivos, tais como a sua estética, o seu forte guião e diversos planos excelentemente conseguidos. Zeus acaba por ser um bom filme que poderia ter sido muito melhor, mas é também a prova de que Paulo Filipe Monteiro tem potencial como realizador.

6/10

Ficha técnica
Título: Zeus
Realizador: Paulo Filipe Monteiro
Argumento: Paulo Filipe Monteiro
Elenco: Sinde Filipe, Ivo Canelas, Idir Benebouiche, Paulo Pires, Paulo Pinto, Catarina Luís
Género: Drama, Biografia
Duração: 118 minutos