Na primeira tarde de sol do ano, foi na Cinemateca que se deu o ponto de partida de Zeus, a primeira longa-metragem de Paulo Filipe Monteiro. Uma estreia que foi ainda marcada pela presença do atual Presidente de República, Marcelo Rebelo de Sousa.

José Sinde Filipe, Paulo Pires, Catarina Luís e o próprio realizador falaram ontem sobre a sua participação no filme biográfico de Manuel Teixeira Gomes, escritor e ex-presidente da República Portuguesa.

Sinde Filipe interpreta Manuel Teixeira Gomes, o escritor de romances considerados devassos para a época, eleito Presidente da República em 1923. A sua curta presidência viria a acabar apenas 26 meses depois, quando renuncia ao cargo e embarca no navio cargueiro Zeus. O destino? Um caso tirado à sorte, mas que lhe pareceu assentar bem: Argélia.

Sinde Filipe e Paulo Pires

O ator de 79 anos é um veterano das novelas, que regressa assim ao grande ecrã para uma produção em grande escala. Sinde Filipe volta a trabalhar com Paulo Filipe Monteiro, depois de ter participado na sua primeira experiência como realizador, na curta-metragem Amor Cego. Mas a familiaridade não se fica por aqui. Sinde Filipe também regressa ao grande ecrã com Paulo Pires, depois de ambos protagonizarem Cinco Dias, Cinco Noites, de José Fonseca e Costa, em 1996.

Viana de Carvalho, o “contraponto consciente” de Manuel Teixeira Gomes

Paulo Pires interpreta Viana de Carvalho, o principal conselheiro do presidente. Esta é uma personagem “sempre assustada e a pensar nas consequências”, que o ator confessou não ter nada a ver com a sua personalidade.

Entrevista com Paulo Pires

O ator, que estreou uma peça na mesma noite e por isso não esteve presente na estreia, mostrou-se feliz pelo bom feedback recebido por quem já tinha tido a oportunidade de ver o filme. Em relação ao seu primeiro contacto com Zeus, Paulo Pires disse ao Espalha-Factos que “quando recebi o guião percebi que era um filme muitíssimo interessante, com um guião muito bem escrito. Manuel Teixeira Gomes era um tipo fascinante, um presidente atípico, um homem das letras que gostava de escrever. Era um artista, alguém que não cabia no país.”

Depois de já ter trabalhado com Paulo Filipe Monteiro como ator, na televisão, Paulo Pires explicou como foi “muito fácil” trabalhar como ator no seu filme.  Segundo o mesmo, “Ele sabe o que é estar do outro lado, é alguém que tem as ideias muito claras, que sabe o que quer fazer e onde quer chegar. Vi-o solucionar cenas muitíssimo bem. Em algumas cenas até trouxe música para os atores como referência e fonte de inspiração.”

Amante assumido do cinema, Paulo Pires confessou o seu gosto por fazer esta arte e por com ela poder ter entrado no universo da época. Sobre a sétima arte, o ator afirmou que “fazer cinema em Portugal é um luxo”. No entanto, “quando existem boas ideias tem de se pôr em prática. O cinema é uma arte que não pode morrer em nenhum lado, muito menos em Portugal.” O ator mostrou-se ainda aliviado pelo facto do cinema no nosso país resistir, pois “aparece cada vez mais gente nova a juntar-se àqueles que já existem e que já tem um trabalho considerado, que vão fazendo coisas novas”.

No balanço final sobre a sua participação em Zeus, o ator português afirmou que “valeu tudo muito a pena.”

A estreia de Paulo Filipe Monteiro na cadeira de realizador

A maioria assumirá Paulo Filipe Monteiro como a cara conhecida das telenovelas portuguesas. Porém, é também como investigador de cinema, encenador, professor e guionista (termo que prefere em relação a argumentista) que Paulo Filipe completa a sua carreira nesta arte. Depois de uma longa viagem de oito anos a trabalhar na sua primeira obra como realizador, vê finalmente chegar o dia da estreia do seu Zeus.

Entrevista com Paulo Filipe Monteiro

Paulo Monteiro constrói este filme biográfico coincidindo três histórias, que caracterizam as facetas mais marcantes da vida de um homem que considera “corajoso”. Ao longo de 118 minutos, vemos simultaneamente as passagens do Sr. Gomes pela presidência, o final da vida na Argélia e ainda a história de Maria Adelaide, romance que escreveu já no norte de África, em 1938.

A vontade de contar a história de Manuel Teixeira Gomes é clara: “O meu interesse começou pelo gesto desmesurado de largar tudo e partir, um gesto de liberdade e coragem. Um presidente da república que diz basta e embarca no primeiro barco a sair de Portugal e vai parar à Argélia. E que o faz aos 65 anos.” Um “caso único no mundo”, como afirma ser o deste ex-presidente, que os portugueses terão agora a oportunidade de conhecer melhor.

Depois de escrever guiões para sete longas-metragens, Paulo Filipe Monteiro decide mudar de estratégia e ser ele a realizar a história que construiu no papel. O guionista relembra que não é um caso único, dando exemplos como Joseph L. Mankiewicz e Federico Fellini:

“É fácil haver esta vontade, uma fez que já escrevi sete longas e os realizadores fizeram-no à sua maneira e eu sempre respeitei muito isso. Mas se eu quero levar a minha visão até ao fim, o natural é realizar.”

Entrevista com Paulo Filipe Monteiro

A verdade é que Paulo Filipe já antes se tinha aventurado pela realização, com uma curta-metragem realizada em 2010. Sobre a preparação que essa experiência lhe pode ter dado, o realizador explica: “Eu não nasci ensinado. Eu estou a aprender, estou a entrar cada vez mais no cinema. Esse meu filme foi importante pelos erros, vi os trunfos que tinha. Mas estava demasiado centrado na expressão de três atrizes. Neste filme tentei ir mais longe e é um salto que não se compara.”

Após a segunda tentativa como realizador numa produção incomparável à primeira, o realizador de Zeus sente que “confluem na figura do realizador várias experiências e vocações minhas.” Paulo Filipe afirma encontrar no papel de realizador os lados de guionista, ator, encenador e também da fotografia, uma das suas grandes paixões.

Realizar Zeus foi “mais longo do que estava à espera. Foram oito longos anos. Hoje, finalmente, Zeus chega ao seu destino.” Sobre o resultado final, o realizador confessou que “nunca é como estamos à espera, temos de estar abertos ao que acontece.” Paulo Filipe está contente com o filme e com a forma como este corresponde ao que queria contar, mas confessa que “hoje já sou outra pessoa diferente da que era há oito ou mesmo há um ano. Reconheço que este filme é um pouco a minha cara, mas eu já estou noutra.”

Sobre um futuro novo projeto na realização, Paulo Filipe Monteiro mostra-se entusiasmado e pronto para voltar a esta cadeira. Ainda pouco ficámos a saber, apenas que “o próximo que anda a fervilhar é um filme contemporâneo, experimental, mesmo a rasgar.” Mas, para já, “vamos ver como corre este.”

Zeus já está em vários cinemas do país. Podes ver as sessões aqui.

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Fotografias: Rui Pereira