João Tordo nasceu em 1975, filho do cantor Fernando Tordo e de Isabel Branco, em Lisboa. Desde cedo se distinguia dos seus colegas desportistas encontrando nos livros, o seu refúgio. Formado em Filosofia pela Universidade Nova de Lisboa, estudou também Jornalismo e Escrita Criativa entre Londres e Nova Iorque. É entre aulas e o seu trabalho como empregado de mesa num café, que nasce o seu primeiro livro, O Livro dos Homens sem Luz, em 2004.

Do entrecruzar de Três Vidas até ao Prémio José Saramago

Fonte: Wook

João Tordo afirma-se no panorama literário com o livro As Três Vidas, publicado em 2008. Esta história é um relato dos anos 80 entre Lisboa, Alentejo e Nova Iorque, um romance de mistério. Um rapaz de origens modestas é convidado a trabalhar numa quinta alentejana em negócios soturnos, que envolvem um ex-espião. O desaparecimento de Camila, neta do espião, despoleta a trama da história. O rapaz, que se havia apaixonado por ela, embarca numa investigação atribulada, em torno de qual giram as peripécias de todo o mistério.

Neste livro, o autor deixa já transparecer aquela que é a sua maior e melhor conseguida característica literária: a narração. Esta, é de tal modo profunda, intensa que o leitor é convocado para a história e imerso nela.  

As Três Vidas concederam a  Tordo o privilegiado Prémio José Saramago em 2009.  A partir daí, as portas abriram-se para o autor. Desde então consolidou o seu papel no horizonte literário português e brindou os seus leitores com obras inesquecíveis.

Quando o Verão é um Bom Inverno

Em 2010, quando João Tordo lança O Bom Inverno, as expetativas estavam elevadas. O autor não desiludiu com um livro que rompeu os cânones clássicos. Assemelha-se a policial, a thriller e até mesmo a terror, sem nunca chegar a ser nenhum destes géneros.

Fonte: Wook

Escrever histórias sobre escritores é algo que Tordo faz frequentemente (e, provavelmente, devido ao conhecimento de causa). Nesta obra, o autor apresenta-nos um escritor que perdeu o seu toque para a escrita. Em decadência, prestes a declarar falência, tenta, a convite da sua editora, embarcar numa viagem até Budapeste. Lá, procurará a inspiração num encontro de leitores. No entanto, é além fronteiras que esta personagem, débil e frustrado, se depara com algo muito maior do que as suas histórias.

Convidado a visitar a casa de um importante cineasta e produtor italiano, este é encontrado morto num lago, após uma noite de festa. Daí em diante, inicia-se a procura do assassino, num entusiasmante e controverso trilho até lá.

A crítica perdeu-se em congratulações absolutamente merecidas e João Tordo, novamente conquista o seu lugar nas livrarias portuguesas e no coração dos leitores.

Hugo, o duplo, o retorno às raízes e a verdade

Recomendado pelo Plano Nacional de Leitura, O Ano Sabático é uma viagem ao processo de descoberta de Hugo. Contrabaixista, viveu no Canadá durante longos anos até decidir retornar a Portugal. Durante um concerto de um famoso pianista, Hugo ouve a música que fermenta na sua cabeça faz anos e que nunca havia conseguido exteriorizar.

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Revendo-se neste pianista que o duplica, nesta personagem que embora seja externa a si, o repete, Hugo inicia a obsessiva busca pela sua verdade. Percorre trilhos incertos que se encerram num destino imprevisível.

Esta talvez seja uma das obras mais poéticas e introspetivas de João Tordo. Com perícia, o escritor expõe e constrói um mundo real gracioso, musical, onde ser autor de algo é o âmago que oleia a história.

“Ando há muito tempo a tentar compor este tema, mas não sei como terminá-lo”, respondeu.

A problematização do Autor…

João Tordo elabora frequentemente as suas histórias em torno de escritores, compositores, de obras, de leituras.

Na trilogia, iniciada em 2014, sem nome, esta questão é central.

O luto de Elias Gro é o primeiro título. Passado numa ilha, um homem procura a solidão. No entanto, esta ilha aparentemente deserta está recheada de personalidades intensas e atípicas. Elias Gro, o padre que intitula o livro, Alma, uma senhora de uma amabilidade incontável e ainda, um fantasma de um escritor são alguns dos companheiros do homem que centraliza a ação. Nestas interações, nas reminiscências  do passado, da dor, a condição humana reinventa-se e o luto, a temática chave deste livro, é vivido e sentido de forma absolutamente singular.

Não existem pausas e este livro é para ser lido de um trago (e não poderá ser feito de outra forma). O autor constrói personagens que são pedaços de todos os leitores que já viajaram pelos mares do luto.

Fonte: Wook

João Tordo transfigura-se nesta fase da sua escrita e apresenta-nos um interligar de palavras maduro, ponderado e introspetivo. Uma reflexão filosófica sobre aquilo que implica ser homem e mulher.

… Quem escreve o quê?

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No livro que se segue, O Paraíso Segundo Lars D.a temática inverte-se para o extremo oposto: após deliberações sobre o luto, a reflexão varia até ao paraíso. Um escritor de meia idade, metódico e apagado pelas exigências da vida e da escrita, escreve O luto de Elias Gro. João Tordo ancora este livro no primeiro da trilogia.

Nesta vivência esmorecida, Lars (o escritor) conhece uma adolescente fogosa, acesa pela idade e pela irreverência em combustão e acredita ser ela a chave para que o próprio volte a sentir. Abandonando a mulher de uma vida, mergulha numa falsa viagem que culmina por o afastar mais e mais do encontro a si próprio.

João Tordo é filósofo. A sua obra é o reflexo e o espelho da sua formação académica, que é metamorfoseada e limada sob a luz poética e romântica da literatura do autor.

Cada livro é arrebatador: o leitor não se distancia do que lê e nada pela sua inconsciência à deriva das palavras de João Tordo. Lê-lo é sempre um confronto connosco mesmos, com o que pensamos ser. E é essa a alma do autor, que projetando-se no que escreve, arrasta consigo o leitor.

João Tordo foi também finalista do prémio Telecom e tem obras publicadas em França, Brasil e Itália. Atualmente coopera como formador em workshops de escrita criativa.