Este ano arrasou-nos até ao fim e 2016 ficará na memória como o ano que nos arrancou alguns dos artistas mais queridos. O adeus foi difícil para nomes inigualáveis nas várias artes e, na área da televisão e séries em concreto, fomos obrigados a despedirmo-nos de atores como Doris RobertsGene Wilder e, recentemente, Debbie Reynolds.

Mas num ano de obituários, o Espalha-Factos decidiu olhar para trás e lembrar aquilo que melhor se fez no pequeno ecrã nos últimos doze meses. Fica com as nossas sugestões para voltares a fazer maratonas das séries de destaque do ano ou para descobrires novas histórias para veres antes do fogo de artifício.

WestworldWestworld

É impossível falar do que aconteceu de melhor no mundo televisivo em 2016 sem referir Westworld.

O facto de a série ter o selo da HBO e contar com Sir Anthony Hopkins no elenco é desde logo suficiente para convencer muita gente, certamente.

Porém, a primeira temporada de Westworld não só não desilude, como supera as elevadas expectativas advenientes das duas premissas do parágrafo anterior. Passada num futuro relativamente próximo, a série aborda de modo exímio e inovador o tema da inteligência artificial. A narrativa geral da história é centrada num parque temático, e nos seus bastidores, habitado por robôs ultrarrealistas, e desenrola-se de uma forma semelhante à série Lost.

Lê também: Dragões, zombies e robôs: as séries mais pirateadas do ano

Ou seja, cada episódio incentiva a construção de teorias próprias, promovendo a discussão entre os fãs e, em última instância, aumentando a curiosidade para o capítulo seguinte. Para além de Hopkins, Westworld conta ainda com nomes como Ed Harris, Evan Rachel Wood, Jimmi Simpson, James Marsden, Jeffrey Wrighte o nosso conhecido Rodrigo Santoro.

Entre os produtores executivos encontra-se o nome sonante de J.J. Abrams, e a banda sonora é da responsabilidade de Raman Djawadi, cujo trabalho tem dado nas vistas num pequeno programa chamado Game of Thrones. Já todos devem estar convencidos, por esta altura.

A primeira temporada da série criada por Jonathan Nolan e Lisa Joy é composta por dez episódios de uma hora. Infelizmente, o segundo capítulo, já confirmado, está previsto apenas para 2018.

The Get Down
The Get Down

The Get Down é uma série norte-americana de drama musical que remonta ao Bronx dos anos 70 e que dá início a cada episódio com uma contextualização que cruza, através de rimas e imagens, a narrativa fictícia com a história verídica deste famoso bairro social dos E.U.A.

O enredo gira em torno de Ezekiel Figuero (Justice Smith) e da forma como ele se desdobra em esforços para conciliar as suas três principais ambições: a afirmação da sua crewThe Get Down Brothers, no panorama de competição musical do Bronx; o melhoramento das condições de vida do seu bairro através da intervenção na respetiva esfera política; e a prossecução de uma vida amorosa com Mylene Cruz (Herizen Guardiola).

No que toca a cruzar entretenimento com realidade social e histórica, esta produção da Netflix esmera-se na forma como reflete as problemáticas que assolavam o Bronx dos anos 70. O elevado nível de criminalidade do Bronx está bem representado na forma como cada conflito se rege pela máxima do “olho por olho, dente por dente”, no teor dos esquemas criminosos encetados e nos constrangimentos que isso causa na vida deste bairro a vários níveis.

No entanto, a forma como os The Get Down Brothers elevam a sua música contra este ciclo vicioso é bem representativo do poder simbólico que o hip-hop e outros estilos musicais foram ganhando no Bronx, e o seu papel na resolução de conflitos e de meio pacífico de disputa de poder social. Mylene Cruz, por sua vez, surge como símbolo feminino de resistência à componente opressora da religião e face à perspetiva social da mulher no Bronx.

Stranger ThingsStranger Things

No verão não estamos habituados a que saiam séries icónicas. Contudo, Stranger Things veio mudar o paradigma. A série dos irmãos Duffer estreou a 15 de julho, e foi a terceira série mais vista da Netflix.

Considerada por muitos como uma carta de amor aos anos 80, é precisamente nessa época que a ação da série decorre. Numa pequena aldeia dos E.U.A., Hawkings, fenómenos de natureza paranormal começam a acontecer quando Will Byers (Noah Schnapp) desaparece misteriosamente para o Upside World, e Eleven (Mille Bobby Brown) aparece na vida dos seus amigos.

Stranger Things está repleta de referências a filmes e músicas dos 80 (ninguém conseguirá ouvir o Should I Stay Or Should I Go da mesma forma depois), e consegue fazer aquilo que muito poucas séries conseguem: ter um elenco infantil de extrema qualidade. Juntando isto a planos que só podem ser considerados arte no seu estado mais puro, Stranger Things é um claro must-see de 2016.
This Is Us

This is Us

A série foi uma das maiores surpresa do ano. Claro que quando a HBO ou a Netflix lançam uma série, já sabemos que de uma maneira ou de outra vamos ficar agarrados. Agora, quando isso aconteceu com um drama familiar da NBC, ficámos perplexos.

A trama de This is Us foca-se num grupo de pessoas que não tem ligação entre si, com exceção de fazerem anos no mesmo dia. Somos assim levados através de uma panóplia de histórias, protagonizadas na perfeição por nomes como Sterling K. Brown, Milo Ventimiglia e Mandy Moore. Apesar de tudo isto parecer (e admitimos que estávamos desse lado) bastante básico, a verdade é que This is Us mostra o poder de uma história bem contada.

Não vamos revelar as reviravoltas da história, mas esperamos que as três nomeações para os Globos de Ouro sirvam para ajudar a que conheçam. Dar uma oportunidade a This is Us é a mesma coisa que dar uma oportunidade àquela pessoa com a qual não vamos muito à bola, mas que depois se revela alguém espetacular.

Lembra: This is Us: Nunca a lamechice soube tão bem

TerapiaTerapia

A RTP1 iniciou o ano de 2016 com uma promessa: que este seria o ano do regresso das séries portuguesas à televisão. E assim foi. Terapia, uma adaptação de um original israelita, foi a primeira grande aposta da estação pública para as noites de segunda a sexta. Composta por episódios de 30 minutos, a série acabou por se revelar uma boa surpresa, sendo, provavelmente, o melhor produto de ficção produzido em Portugal este ano.

O texto é a base de toda a série. Sendo bastante visual e descritivo, mas também intenso e surpreendente, o destaque vai para as interpretações dos atores. Ao longo de nove semanas, pudemos ver Virgílio Castelo, o terapeuta de serviço, a receber no seu consultório os cinco pacientes interpretados por Soraia Chaves, Nuno Lopes, Catarina Rebelo, Filipe Duarte e Maria João Pinho. Foi com a expressividade do paciente e as reações do terapeuta que Terapia nos prendeu ao longo de 45 episódios.

Formalmente, a série revelou-se simples mas bastante cuidada. André Szankowski, responsável pela fotografia e Patrícia Sequeira, a realizadora, foram capazes de tornar uma simples conversa, sem grande ação aparente, num momento de puro interesse narrativo e visual. De facto, porque é que ver alguém a falar e a contar a sua vida a outra pessoa, sempre sentados, no mesmo espaço, se torna tão interessante? Talvez seja isso mesmo, o facto de estarmos a ouvir a história de alguém, contada na primeira pessoa.

Terapia acabou por ser uma série que, não sendo cinema, muito se aproximou deste formato, como se cada episódio fosse uma curta-metragem. O formato de exibição escolhido, 2:35, acabou por nos trazer essa linguagem cinematográfica. Ainda assim, Terapia passou completamente despercebida e as audiências foram bastante baixas: o que prova que nem sempre a qualidade basta para captar o público. Os maus resultados são mesmo o único facto a lamentar neste projeto de excelência.

Recorda: Terapia: do primeiro para o quinto episódio menos 100 mil espectadores

Dentro
Dentro

Em setembro, as séries em série chegaram à estação pública. Depois de Terapia e Aqui Tão Longe, emitidas diariamente na RTP1, a aposta passou a ser feita em quatro séries em simultâneo. De terça a sexta-feira, cada dia contava com a exibição de uma produção diferente. Dentro foi a escolhida para as quintas-feiras e revelou-se a melhor aposta desta nova “fornada” de séries portuguesas.

Protagonizada por Miguel Nunes e Vera Kolodzig, Dentro contou com 13 episódios que acompanharam a vida de uma série de reclusas numa prisão feminina e o trabalho de Pedro (Miguel Nunes), o mais recente psicólogo estagiário, que vê a sua vida complicar-se com o novo emprego. O destaque foi para o casal de protagonistas, sobretudo para a revelação do ator que recentemente protagonizou o filme Cartas da Guerra. Para além deles, destacaram-se ainda as interpretações de Margarida Cardeal Carla Galvão.

Cada episódio de Dentro ficou marcado por uma história nova, contando com atrizes convidadas todas as semanas. Ao mesmo tempo, os dramas das personagens interpretadas pelo elenco fixo, foram  se desenvolvendo ao longo da trama. A ideia e o guião partiram de Lara Morgado, que trouxe, desta forma, uma nova linguagem à televisão portuguesa. De parabéns esteve também Henrique Oliveira, o realizador.

Provavelmente, Dentro não terá uma segunda temporada, uma vez que as audiências também não o justificam. Mas fica a sensação de missão cumprida, num projeto que, apesar do baixo orçamento, conseguiu trazer ação, tensão, drama, comédia e até mistério à televisão portuguesa, em pouco mais de 45 minutos semanais.

The Crown
The Crown

Quem quer transparência quando se pode ter magia? Quem quer prosa quando se pode ter poesia? Se afastarmos o véu, o que resta? Uma jovem de capacidades modestas e pouca imaginação. Mas se a vestirem assim e a ungirem com óleo… O que temos? Uma deusa!

The Crown, a série mais cara de sempre da Netflix, chegou este ano e provou que o fascínio pela monarquia continua vivo, principalmente pela inglesa, não fosse esta a aliança mais antiga de Portugal.

É a Claire Foy que cabe desempenhar o papel de Isabel II, a monarca que ainda governa o Reino Unido. Nesta primeira temporada, vemos não só a ascensão ao trono como o próprio crescimento da rainha, o que nos faz ter mais simpatia por Sua Majestade. Se nos dias de hoje temos uma imagem de Isabel II muito ligada à de Diana, é com The Crown que ganhamos empatia por quem se viu forçada a servir o país e a coroa de forma inesperada e precoce.

Para além da personagem principal, é também em John Lithgow que recaem as atenções, no seu brilhante desempenho como Winston Churchill (e o mesmo já foi reconhecido em diversas nomeações para os prémios de televisão). Desde a voz aos movimentos, o político tem aqui uma das suas melhores representações e só por ele vale a pena perceber as transformações políticas da velha Inglaterra.

The Crown terá mais temporadas, mas lá mais para a frente veremos o elenco principal totalmente substituído, para dar veracidade à história. Até agora convenceu-nos, e por isso mesmo, God Save this Queen.

Love
Love

Estreada em janeiro na Netflix, Love é uma série que retrata de maneira realista as relações humanas, as inseguranças e os defeitos que podem fazer parte da personalidade de alguém. Segue as vidas de Mickey, uma mulher despreocupada que trabalha numa estação de radio, e de Gus, um tutor no set de um programa de televisão. Ela é a cool girl e ele o nerd, muito ao estilo de Woody Allen

É uma criação de Judd Apatow, Paul Rust (que é também um dos protagonistas) e Lesley Arfin. É uma mistura das comédias habituais de Apatow com um olhar mais honesto e cru como se vê, por exemplo, em Girls, queArfin também escreveu. Este tipo de abordagens tem sido cada vez mais popular, respondendo à necessidade de fugir ao irrealismo de Hollywood.

Apesar de não ter criado um grande burburinho nas redes sociais, as críticas foram positivas, nomeadamente no que diz respeito ao desempenho dos atores. A Netflix encomendou duas temporadas, a primeira com dez episódios e a segunda, prevista para o início de 2017, com mais doze.

Flaked séries
Flaked

Todos os anos, muitas séries chegam até nós. Séries para todos os gostos e feitios. Séries que são sobrevalorizadas ou subvalorizadas. Flaked, original da Netflix, inclui-se na segunda categoria. É uma série que não merece as más críticas que recebeu e que é um tesouro escondido que muitos ainda podem (e deviam) descobrir.

A história é muito simples. O recém-sóbrio Chip (Will Arnett) é um auto denominado guru de ajuda que, por vezes, também necessita que lhe digam “não”. A viver na ensolarada Venice, na Califórnia, apaixona-se pelo interesse amoroso do seu melhor amigo, Dennis (David Sullivan). Chip mantém a imagem de que tem tudo controlado, mas cedo as mentiras começam a vir ao de cima. De repente, parece que estamos a falar de Californication, masFlaked é muito mais do que isso.

Numa série que tanto é comédia como drama, com episódios a rondar os 30 minutos, a interpretação de Will Arnett é excelente. Tanto podemos estar a rir com uma piada que faz, como a pensar a sério sobre algo que diz. David Sullivan também faz um bom trabalho como a bússola moral.

No geral, as personagens são bem tratadas e dadas o devido tempo para se desenvolverem. Outro aspeto que merece uma nota especial é a fotografia, uma das melhores que já vi em qualquer série. A maneira como Venice é filmada dá vontade de apanhar um avião até lá depois de vermos os oito episódios.

Texto de André Pereira, Carlos Rodrigues, Cátia Duarte Silva, Diogo Magalhães, Helena Santos, Mariana Espírito Santo e Paulo Pereira.