Sem nos demorarmos em grandes preâmbulos de metafísica, que seguramente mereceriam muitos mais parágrafos e um outro tratamento estilístico, parece que, afinal, as notícias da morte de Deus (pelo menos enquanto conceito poético) são manifestamente exageradas.

É certo que a proposição nietzschiana mantém qualquer coisa de irreversível e irrecusável – talvez a sua intenção de fotografar um ponto de rutura histórico-teológica, mais do que o seu conteúdo propriamente dito. Desfeito o inquestionável, livrando-se o Homem do peso do dogma e do costume acrítico, todas as crenças são hoje negociadas no permanente diálogo entre uma fé que tem vergonha de si mesma e uma intransigente epistemologia da razão prática.

Não se assustem os que já esperam o velho discurso da “perda dos valores” e da condenação do materialismo; quero apenas notar que é perante este tempo de aparência agnóstica que o cinema – arte assumidamente moderna nos seus temas e formas – se constitui como uma resposta.

Mas longe de anunciar triunfantemente a morte de Deus, o cinema antes participa na sua ressurreição, ou na manutenção do seu espectro. A experiência de ver um filme – sobretudo quando esta implica a deslocação para um espaço que permite a plena imersão na ficção, no mundo-outro – é um ritual eminentemente religioso.

É a ideia, que tem em Tarkovsky um dos seus mais ávidos defensores, de que vamos ao cinema não para perder tempo, mas para o recuperar. A atenção contemplativa que um (bom) filme requer apanha-nos sempre desprevenidos: exige que nos libertemos do ritmo desapercebido e dos automatismos que se instalaram no quotidiano racionalmente cronometrado.

E o que é o Natal senão um abrandamento semelhante, a nossa oportunidade para, junto de quem mais amamos, tomarmos consciência da passagem do tempo? Nesse sentido, e porque a época o pede, seguem-se cinco sugestões de filmes que se propõem a interpretar a fé, filmes que, não sendo necessariamente religiosos nas especializações “políticas” a que nos habituámos (alguns serão difíceis de engavetar no cristianismo, islamismo ou judaísmo…), pretendem religar o espectador à autenticidade da sua existência.

Close-up (1990)

Close-up é muitas coisas de uma vez só. É documentário, drama e comentário meta-cinematográfico (desde Persona que ninguém havia filmado com tanto rigor o próprio ato de filmar). O termo mais adequado, porque provavelmente melhor condensa tudo isto, é docuficção.

E é um filme belíssimo. Conta-nos uma história de perdão e redenção, a história de um cinéfilo que, num misto de admiração e inveja, se faz passar por um cineasta e é depois levado a tribunal pelas pessoas que enganou.

Kiarostami, mestre iraniano que este terrível 2016 nos roubou, nunca perde de vista a Humanidade que ali está a ser julgada na sinédoque de um só homem que apenas se atreveu a sonhar. E o fim deste filme não é menos que um milagre que reafirma a nossa fé em algo transcendente – nem que seja no simples poder do cinema.

O Sacrifício (1986)

Descrever O Sacrifício como um filme “bíblico” seria até redutor para com o tremendo esforço técnico e intelectual que envolveu a produção da derradeira obra de Tarkovsky.

Afinal, este foi um cinema que se fez, importa sublinhar, já em tempos de completo abandono de Deus. Talvez por isso o feito pareça reaccionário a alguns: é um discurso ferozmente crítico com a vertigem racionalista e tecnológica do século XX – que aqui se expressa na hipérbole do apocalipse nuclear.

Todavia, o que porventura importa reter não será tanto o falso regresso à Natureza que alguns insistem em ver no cinema de Tarkovsky, mas o modo como a intuitiva vontade humana, fora dos sistemas e livre de mediações, pode ainda agir sobre o mundo e transformá-lo sem o domesticar. Para isso, é preciso estar-se disposto a sacrificar tudo o que entorpece o espírito – espécie de ética privada que o protagonista desta história levará até às suas últimas consequências.

Europa ’51 (1952)

E se uma mulher da burguesia (lembremo-nos de que em 1951 este rótulo não era um arcaísmo, era neorrealista…) italiana do pós-guerra subitamente se tornar num São Francisco de Assis dos tempos modernos, após um acontecimento trágico na sua vida?

É esta a realidade que Rossellini pretende testar no seu Europa ’51, antecipando que a divisão classista do mapa social se traduziria numa profunda infelicidade em ambos os lados da barricada: os pobres sobrevivem das esmolas, mas não têm ainda permissão para viver; os ricos são “bons cristãos”, dão somente o suficiente para acalmarem um qualquer sentimento de dever, e vigiam-se constantemente uns aos outros para excluírem quem já não domina os códigos destas cortes.

Neste caso, é a personagem de Ingrid Bergman, a tal santa, que é expulsa ou excomungada, porque se atreveu a transpor o intransponível, a praticar uma caridade sem precedentes e a morar e trabalhar com os mais desfavorecidos. O desfecho deste conto é de uma melancolia muito pouco natalícia, há que dizê-lo, mas o percurso da narrativa até esse ponto relembra-nos um dos princípios desta época festiva: dar sem esperar nada em troca, ou, na ausência de uma utopia total, dar mais do que aquilo que se espera receber.

O Silêncio (1963)

Uma nota dissonante na lista: este é um dos mais negros e desencantados momentos em toda a filmografia de Ingmar Bergman (em comparação, quase que faz O Sétimo Selo parecer otimista na sua vivência kierkegaardiana da fé).

Duas irmãs completamente estranhas uma à outra viajam para um país ainda mais estranho, que está à beira de uma guerra. Sozinhas em território estrangeiro, elas partilham uma língua e um passado, mas são dois mundos inteiramente incomunicáveis. Ambas experimentam o mais aflitivo dos silêncios, que dá nome ao filme: o silêncio divino, a carência de uma determinação original que garantiria sentido às suas vidas. A criança que elas trazem consigo deambulará pelo absurdo do hotel (estão aqui pequenos surrealismos que não costumam ser tão explícitos em Bergman), absurdo esse que é também o da angústia das duas irmãs, desamparadas e ansiosas, aguardando por algo que nunca saberemos muito bem o que é.

Ignorem-se as reduções psicanalíticas que muitos impõem ao filme e pense-se na desilusão das protagonistas: é quase como se Bergman nos pedisse para escolher entre uma irreligiosidade convulsiva e a felicidade de um agnosticismo sincero: o silêncio de Deus não incomoda o rapazinho porque ele, como muitos de nós, não se pôs à escuta.

O Tio Boonmee Que se Lembra das Suas Vidas Passadas (2008)

Há muito por escrever sobre a influência dos preceitos budistas no cinema formidavelmente novo de Apichatpong Weerasethakul. A isocronia dos seus longos planos-sequência é desde logo um convite à meditação. Somos interpelados, levados a pensar sobre o que não terminou e tem ainda lugar diante dos nossos olhos – mas de nada nos serve um pensamento inquisidor, que quer ver causalidades e justificações onde não as há. E é aqui que se verifica um corte essencial com o cansaço da razão ocidental judaico-cristã: os filmes de Apichatpong resistem à nossa vontade missionária.

Queremos que a morte, sempre que ela surge em O Tio Boonmee…, se nos apresente estridente, trágica, explosiva; porém, somos surpreendidos pelo exato oposto: uma muda quietude que deposita as suas esperanças na imortalidade da alma e na imaginação mítica de horizontes mais felizes que os presentes.

É um cinema desconhecido, no qual nunca nos sentiremos em casa, mas que por isso mesmo nos descentra e torna mais abertos à diferença, ao imprevisto, à urgência de responder moral e emocionalmente perante o Outro. Não será por acaso que o humor assume posição de destaque nos filmes de Apichatpong: rimo-nos da extrema diferença – a nossa própria finitude – e entramos em comunhão com o tranquilo devir do mundo.