O espetáculo já não é uma estreia e o talento deste grupo brasileiro também já não nos é desconhecido. Pelo contrário. Porta dos Fundos, o mais famoso coletivo de humoristas do Brasil, regressou com Portátil a Portugal e encheu mais uma vez as salas de espetáculo por onde passou.

Depois de ano passado termos também assistido à peça, em Leiria, não podíamos agora deixar de marcar presença numa das sessões no Teatro Tivoli, em Lisboa. Ao entrar, encontrámos, mais uma vez, uma sala cheia. O público não se desiludiu e comprova novamente o sucesso de Portátil.

Com lotação esgotada e muita ansiedade para rever Gregorio Duvivier, Luis Lobianco e Gustavo Miranda, o público aguarda pelo começo do espetáculo que este ano traz consigo uma grande novidade: o humorista português César Mourão integra o elenco como convidado.

A tela branca ilumina-se e o elenco entra em palco

Com um cenário simples de apenas quatro cadeiras, uma tela gigante e um tapete branco, os atores entram em cena e começam por nos contar o que aconteceu desde o tempo do homo sapiens, até ao momento da nossa conceção e, finalmente, até ao momento que decidimos ir ver a peça. Sim, porque afinal a história que ali vai ser contada é sobre os espectadores. No caso, sobre uma ou um espetador.

Para que os atores escolham o protagonista, é feita uma pequena entrevista à plateia. Alguns dos seus membros contam histórias diferentes sobre a forma como os seus pais se conheceram. Dos participantes foi escolhida uma pessoa, Ana.

Ana é uma jovem jornalista que, com os poucos dados que pôde fornecer, vê agora as suas memórias, momentos e sonhos recriados por César Mourão, Gregorio Duvivier, Luis Lobianco e Gustavo Miranda.

Luis Lobianco assume então o papel de Ana e outros pequenos papéis que vão surgindo, como o responsável pelo coletivo russo, em Moscovo, onde os pais se conheceram. Gustavo Miranda é o pai, o professor de ballet, um dos ‘futuros’ filhos de Ana, um livro e outras tantas personagens.

O mesmo acontece com Gregorio Duvivier, que se encarrega de fazer o papel da companheira de Ana, de um amigo do pai e, inclusive, da pequena bailarina Sofia que Ana ajudou numa apresentação em criança e que, segundo a improvisação, acaba por ser também a sua futura companheira.

Já César Mourão apropria-se da personagem da mãe, do outro filho de Ana e de um ou outro papel secundário. O enredo torna-se, assim, cada vez mais complexo, o que exige alguma concentração para possamos perceber tantas personagens diferentes. No entanto, o grupo de atores e o formato mais ou menos alinhado da peça, dentro do possível, permite-nos estar sempre atentos e nunca perder o fio à meada.

Foto: Divulgação

O cenário, porém, esse nunca se altera. Surgem apenas títulos na tela à medida que vão sendo contadas partes da vida da protagonista, como o seu nascimento, por exemplo. Nessa altura lê-se na tela: “O Nascimento”. Trata-se do tal ‘alinhamento’ que referimos em cima e que nos permite estar sempre situados e, ao mesmo tempo, criar alguma coesão na história.

A verdadeira arte do improviso

Apesar da sua origem brasileira e, por isso, existir desconhecimento de algumas expressões e palavras, os três humoristas acabam por, com imensa naturalidade, provocar-nos o riso com as suas tentativas de adaptação para português, mais que não seja pelos pormenores que vão conhecendo acerca do nosso país.

César Mourão acabou por ser uma grande ajuda nesses pequenos detalhes, evidenciando-os e até fazendo-nos rir ainda mais com eles. Os aplausos e gargalhadas são quase contínuos ao longo dos mais de 70 minutos de peça.

Também no correr de toda a peça, Andres Giraldo é o compositor que, atrás de um pequeno piano, compõe, também de forma improvisada, uma banda sonora que acompanha cada elemento desta narrativa que percorre as memórias do entrevistado.

Portátil é sempre diferente, a cada sessão, o que o torna um espetáculo especial e único. No entanto, o formato é quase sempre igual, seguindo, para isso, uma ordem cronológica. Primeiro começam pelo futuro, onde o sucesso pessoal e profissional de Ana é visível. Depois retrocedem ao primeiro encontro dos pais de Ana, e, mais tarde, ao seu nascimento claro. O seu vício de cheirar livros é também satirizado e exagerado, com Gustavo Miranda a interpretar o seu primeiro livro lido… e cheirado.

Foto: página oficial de Portátil no Instagram

Seguidamente mostram-nos cenas da infância de Ana, que acabam, segundo a improvisação, por estar ligadas, em alguns aspetos, ao presente e futuro da sua vida. Sempre de uma forma lógica. Até ao momento que, também pelo rumo da improvisação, Ana cheira demasiados livros e, já em estado de alienação, fica perdida sem saber o que fazer com a sua vida.

Aí começam a passar pela sua cabeça pequenos momentos que os atores recriam novamente, desta vez de forma mais rápida. Isto ajudará Ana a seguir o seu caminho e a tomar uma decisão importante que ditará a sua felicidade e o cumprimento do sonho. Sonho esse que a verdadeira Ana referiu aquando da pequena entrevista realizada por Gregorio e César.

Terminam com a mesma cena do começo, recriada tal e qual como a primeira.

Portátil, um espetáculo de ver e chorar por mais

Sobre Portátil, só podemos dizer que se trata de um verdadeiro espetáculo de teatro e comédia, onde em cada episódio podemos encontrar uma história e respetiva interpretação diferentes. Nunca se sabe o que esperar, pois há sempre algo que não foi dito ou feito pelo elenco. Tudo pode, de facto, acontecer!

Mas há uma coisa que temos como certa: este é um grupo de atores/humoristas absolutamente genial nesta arte que é o improviso. Não só nos conseguem fazer rir muito, como também nos transmitem emoções e sentimentos.

No final, o resultado é um espetáculo orgânico, diversificado, para quem gosta de sair de um teatro com a cara a doer de tanto rir, para quem aprecia a criatividade e a capacidade de criar coisas espetaculares.

Prova superada

Portátil é, sobretudo, um espetáculo onde estes talentosos artistas são postos à prova e onde, mais uma vez, não nos desiludem. Pelo contrário, conseguem sempre surpreender-nos!

César Mourão já nos comprova isso mesmo há algum tempo e o coletivo Porta dos Fundos, para quem como nós conhece e é fã, também. Não fossem, claro, artistas reconhecidos pelo seu trabalho tanto no Brasil, como em Portugal.

A produtora Porta dos Fundos detém um canal de vídeos no youtube com a marca de 2,5 mil milhões de visualizações em menos de quatro anos e já conta também com trabalhos na televisão e cinema.

César Mourão integra o grupo Commedia a la Carte desde 2000, entre outros grupos de improvisação e personagens que foi criando. Inclusivamente chegou a participar num dos vídeos do grupo brasileiro.