Hoje, a mesa de milhares de portugueses está mais composta com familiares e amigos, bacalhau e bolo-rei, boa disposição e espírito natalício. Afinal, é a noite de consoada, e não há como não celebrá-la junto dos nossos entes queridos, diante de um grande banquete e com os cânticos de Natal a tocar discretamente, marcando o ritmo do jantar e da entrega de prendas.

Mas e se, por (grande) azar, nos víssemos afastados da nossa família nesta noite e fôssemos cair desamparados na mesa de uma que só conhecêssemos do grande ecrã? Foi este cenário que a secção de cinema do Espalha-Factos teve em mente para listar um conjunto de famílias do cinema com as quais a consoada perderia toda a magia. Desde uma mãe fanaticamente religiosa a reis da máfia, muitas são as consoadas a evitar esta noite.

Família White

A família White de Carrie (1976) é apenas constituída por uma mãe (Margaret White) e uma filha (Carrie White), pois infelizmente o pai abandonou Margaret para estar com outra mulher. À primeira vista, passar o natal com esta família não parece uma má ideia. Enquanto boas cristãs, não pode haver nada de mal com elas…certo? Infelizmente, Margaret é tão fanática pela religião que se tiveres uma roupa que “revele demasiado” ou tenhas comportamentos “impróprios”, ela vai-te trancar num armário escuro que tem apenas uma estatueta de Jesus para rezares. Por outro lado, Carrie é uma telepata com pouco controlo sobre as suas habilidades que poderá acidentalmente pôr a casa toda a arder.

Família Hoover

Quando a temática é consoada natalícia, a mesma não seria muito agradável na companhia da Família Hoover, sendo os seus membros os ingredientes ideais para um jantar intragável. Começando no filho mais velho Dwayne, um ávido seguidor das filosofias de Nietzsche, que, como tal, odeia profundamente tudo em seu redor e fez um voto de silêncio até alcançar o seu sonho de ser piloto de caça. Pode-se dizer que a ceia de Natal passar-se-ia algo silenciosa. O pai de família, Richard, leva secretamente a família à falência, mas tem fé no seu quase charlatão programa de 9 passos para o sucesso, acreditando que este lhe trará fama e fortuna.

Edwin Hoover, é um avô sem papas na língua que foi expulso do seu lar de idosos devido aos seus problemas com droga, mantendo, no entanto, uma relação extremamente afetiva com Olive Hoover, a sua neta mais nova, que tem uma obsessão com o concurso de beleza juvenil Little Miss Sunshine. Por último, vem Frank Ginsberg, um professor homossexual que se considera a maior autoridade catedrática em Proust. Contudo, depois de ser derrotado pelo seu maior rival tanto em relações amorosas como em intelecto, Frank revela tendências suicidas e é deixado ao cuidado da sua irmã Sheryl Hoover.

Tendo agora uma ideia do panorama de imbróglios que uma consoada com a família Hoover tinha para oferecer, não te vai custar tanto resignares-te com aquele par extra de meias que a tua avó te vai oferecer.

Família Torrance

Os Torrance até podiam parecer uma família completamente normal em 1980. Só há um problema: estão numa história criada por Stephen King e realizada por Stanley Kubrick. Isto faz com que Wendy seja uma paranóica depressiva, que Danny tenha uma série de amigos imaginários que o fazem ter visões um tanto ou quanto violentas e Jack… Bem, Jack tem um cabelo fabuloso, um gosto por mulheres peculiares e uma aptidão duvidosa quando se encontra com um machado na mão. De facto não é a família com o espirito natalício mais desejável…

Família Palmer

Se Twin Peaks é a tragédia estruturalista por excelência –fala-nos sempre de um terrível debaixo, de um segredo em profundidade, das térmitas que o jardim esconde –, por que haveria a família Palmer de escapar incólume a este pesadelo? Longe dos traficantes de drogas e de alguns amantes sinistros, Laura parecia a salvo na solidão da sua casa. Mas o génio perverso da dupla Lynch e Frost manifesta-se precisamente no modo como estes se atrevem a penetrar na mais íntima das camadas do mistério, revelando-nos que, afinal, não há um “fora de campo” no diabólico jogo de Twin Peaks.

Lançam-se sombras sobre o quarto, as escadas, a cozinha, a sala, lugares que julgaríamos privados e inacessíveis ao terror que assombra os bosques em redor da vila. E se tiver sido o próprio pai de Laura a matá-la? É uma dúvida suficientemente assustadora para nos manter a uns bons quilómetros de distância da casa dos Palmer, e desqualifica-a de imediato no que ao plano da consoada diz respeito.

Família Dursley

Se já viste os filmes da saga Harry Potter sabes que passar a consoada com a família Dursley seria uma péssima ideia que acabaria de forma inevitável por levar a uma noite desastrosa.

O jovem Dudley iria aproveitar todos os momentos para testar a tua paciência e, em certa altura, o mais certo seria começar a gritar com todos por coisas insignificantes, tal como aconteceu em Harry Potter e a Pedra Filosofal. Petunia – mãe de Dudley – seria provavelmente a pessoa mais calma durante toda a refeição, tentando apenas certificar-se de que tudo estaria a correr bem enquanto o seu marido Vernon estaria ocupado a comer tudo o que estivesse na mesa, desviando a sua atenção da televisão apenas para te mandar calar.

Mas o teu pior inimigo seria Marjorie. A irmã de Vernon iria certificar-se de passar toda a consoada a resmungar e, tal como aconteceu em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, a falar tão mal de ti e da tua própria família que irias ter um surto de raiva e pô-la a voar para fora de casa. E se conseguisses fazer isso estarias de parabéns, pois a tua carta de Hogwarts estaria certamente a chegar.

Família Corleone

Vamos ser sinceros: haverá no mundo alguma razão suficientemente forte para levar os Corleone a aceitarem receber-nos na sua mesa para a consoada? O convite seria, no mínimo, suspeito e provavelmente passaríamos a totalidade da refeição a olhar desconfortavelmente por cima do ombro. Ainda que concedendo o benefício da dúvida e assumindo que éramos desinteressada e calorosamente integrados neste sagrado cenário doméstico, as probabilidades de passarmos uma noite tranquila não jogam a nosso favor.

Para começar, somos forçados a aceitar as particularidades de uma família radicalmente patriarcal: quem tem a “má fortuna” de ser mulher neste reino de homens, pode contar com uma consoada passada na cozinha.

Não exageremos, terá naturalmente o seu merecido assento ao fundo da mesa, encabeçada pelo chefe de família, desde que não seja atrevida, envolvendo-se sem permissão em discussões que não lhe dizem respeito. Sendo homem, o melhor é mesmo ir de peito inchado e preparado para debates acesos: nesta corrida de galos ganha a voz mais grossa, o comentário mais viril. E se a ameaça não vier de quem está sentado ao nosso lado, é bom que estejamos prontos para a qualquer momento protegermos a cabeça e esconder-mo-nos debaixo da mesa.

Afinal, não seria a primeira vez que os grandes rivais de Vito ou Michael Corleone escolhiam a ocasião de um encontro familiar para fazer tiro ao alvo às janelas da imponente mansão. Neste cenário tão harmonioso, salvam-se talvez as maravilhas da cozinha italiana. Ah, e claro, o orgulho de quebrar a fourth wall e entrar no universo daquele que nunca vai deixar de ser um dos melhores filmes da História do cinema.

Texto redigido por Adriano Ferreira, Diogo Ferreira, Diogo Simão, Mariana Cruz, Rodrigo Umbelino e Rui Pereira