Em 2014, Morten Tyldum atingiu o auge da sua carreira ao realizar o aclamado, porém banal, O Jogo da Imitação. A pressão para, desta vez, suplantar o sucesso conseguido com este drama biográfico de Alan Turing foi imensa, nomeadamente por o cineasta norueguês contar no elenco com Jennifer Lawrence e Chris Pratt.

Ambientado no futuro, Passageiros, cujo argumento demorou quase dez anos a sair do papel, segue a nave espacial Avalon. O dispositivo aeronáutico prepara-se para uma viagem de 120 anos na qual transportará cerca de 5259 passageiros rumo a uma colónia num planeta conhecido como ‘Homestead II’.

A trama é despoletada quando a personagem de Chris Pratt, Jim Preston, acorda 90 anos antes do suposto devido a uma falha na sua cápsula de hibernação. Incapaz de voltar ao sono criogénico, Jim fica destinado a morrer sozinho na nave antes que qualquer outro passageiro tenha a oportunidade de acordar. O protagonista passa assim a aproveitar, em solidão, o luxo que a nave espacial lhe proporciona e cuja única companhia é um bartender android de última geração, interpretado por Michael Sheen.

Jim acaba entretanto por encontrar a cápsula de Aurora Lane (Jennifer Lawrence), e vê-se preso dentro de um grande dilema: acordar a bela mulher pela qual se sente vivamente atraído e, assim, por término à sua solidão mas por outro lado, sentenciá-la à morte, ou continuar a fantasiar a sua pessoa e permitir que a mesma cumpra o sono que lhe resta.

A conclusão não era difícil: Jim acorda Aurora e, inevitavelmente, acabam por se apaixonar, não tivessem os dois de passar os próximos 90 anos sozinhos, ao mesmo tempo que tentam combater as anomalias que, misteriosamente, vão surgindo no sistema da nave.

O argumento de Jon Spaihts, trabalhado desde 2007, guia Passageiros numa certa mutação e decadência no avançar dos seus 116 minutos.

Se num primeiro momento da narrativa, quando somos confrontados com a trágica situação de Jim, e posteriormente Aurora, somos presenteados com um argumento extremamente cativante e dinâmico, o que acaba por suavizar a dimensão trágica que os protagonistas enfrentam, no decorrer da trama essa qualidade acaba por se desvanecer, dando lugar à previsibilidade e a um certo pretensiosismo pontuados por várias falhas narrativas.

O mistério central, para o qual fomos encaminhados pela abundante promoção do filme e pela sua primeira metade, é entender porque é que Jim e Aurora acordaram do sono criogénico demasiado cedo e pelas causas das enigmáticas falhas técnicas da nave.

Deste modo, a resolução destes problemas passa a ser o fio condutor de toda a trama, tornando-se simultaneamente na rutura da mesma. Assim, a inovação que Morten Tyldum nos prometera vai se convertendo em previsibilidade e na repetição de vários convencionalismos, o que se traduz em desilusão e põe em causa a qualidade da primeira parte da película.

No que diz respeito ao elenco, Jennifer Lawrence também já teve melhores dias. A jovem atriz oferece uma performance que, embora sólida, nada tem de memorável, ao contrário de Chris Pratt (o verdadeiro protagonista do filme), que assume o lugar de verdadeira essência do filme.

Em contrapartida, em termos de realização, Passageiros acaba por ser um filme muito bem conseguido. Tyldum presenteia-nos com planos-sequência inquestionáveis e efeitos especiais de cortar a respiração extremamente realistas, nomeadamente aquando da falta de gravidade na nave, sincronizados com a banda sonora competente de Thomas Newman.

Concluímos, portanto, que Passageiros, apesar de todas as suas falhas e vicissitudes, é uma experiência estimulante, com alguns momentos mais cativantes, mais não seja por levar ao espaço duas estrelas de Hollywood que o público há muito queria ver contracenar. No entanto, ao contrário daquilo que ambicionara, não é desta que Morten Tyldum nos convence por completo. Afinal de contas: Quantas vezes não fizemos já esta viagem?

6/10

Ficha Técnica

Título: Passengers
Realizador: Morten Tyldum
Argumento: Jon Spaihts
Elenco: Chris Pratt, Jennifer Lawrence, Michael Sheen
Género: Drama, Aventura, Romance
Duração: 116 minutos