É impossível não olhar em retrospetiva para o que a literatura nos trouxe de bom e de novo durante 2016. Com o final do ano a aproximar-se, o Espalha-Factos decidiu reunir os livros merecem o título de melhores do ano de 2016.

As opiniões dividem-se e são diversos os livros que merecem uma especial atenção. Desde incontornáveis bestsellers, que parecem nunca ter saído das estantes dos destaques das livrarias, a testemunhos que revolucionam a história mundial, a relatos da história portuguesa e além-fronteiras, a romances de ficção, novelas, não ficção e até ciência política.

Despedimo-nos de 2016 relembrando os melhores autores e livros que marcaram este ano que chega agora ao fim.

A Vida Como Ela é…, de Nélson Rodrigues (Tinta da China)

Fonte: Tinta da China

Pela primeira vez editado em Portugal, o escritor brasileiro Nélson Rodrigues é inevitavelmente uma das escolhas para ocupar o pousio de melhor livro do ano. A vida como ela é… é uma seleção de 60 contos, originalmente escritos num jornal brasileiro ao longo de dez anos, escolhidos e compilados por Abel Barros Baptista. Nestes contos com o Rio de Janeiro como pano de fundo, o humor e a tragédia, a violência e a paixão misturam-se docemente e os retratos nus e crus do que é ser humano, são expostos brilhantemente nesta edição a cargo da Tinta da China e com o apoio do Ministério da Cultura do Brasil.

Vozes de Chernobyl, de Svetlana Alexievich (Elsinore)

Fonte: Elsinore

Publicado em fevereiro de 2016, este é um dos mais marcantes do ano. Svetlana Alexievich, vencedora do prémio Nobel da Literatura em 2015, jornalista de formação, condensa centenas de testemunhos de sobreviventes da tragédia nuclear de Chernobyl. Com tacto e uma edição exímia da autora, este livro dá voz a todos os lados do desastre,  mesmo aos que durante muitos anos foram ocultados por poderes políticos. Um livro que agita as águas e volta a colocar na ordem do dia uma história pessimamente contada, com contornos dúbios e que ainda hoje atormenta quem lhe resistiu. Definitivamente um dos livros mais avassaladores deste ano.

Lavoura Arcaica, Raduan Nassar (Companhia das Letras)

Fonte: Fnac

Inicialmente publicado em 1975, Raduan Nassar, brasileiro de origem libanesa começa finalmente a ocupar o seu papel de destaque em Portugal. Vencedor do Prémio Camões 2016, nesta edição da Companhia das Letras, chega-nos o primeiro livro que escreveu. Neste clássico da literatura brasileira, é apresentado André, um jovem que vive e trabalha numa fazenda. Vive enclausurado entre o dever e a imoralidade. Entre sentimentos incestuosos para com a sua irmã, o afecto incondicional pela sua mãe e a pressão da autoridade de seu pai, André transita entre escolher cumprir ser o protótipo de filho ideal e sair da norma do que deve ser. Um livro que revoluciona a época e que chega finalmente a terras lusas.

Cinco Homens que Abalaram a Europa, Jaime Nogueira Pinto (Esfera dos Livros)

Fonte: Esfera dos Livros

Jaime Nogueira Pinto é já um nome incontestável na elaboração de retratos da história contemporânea. Estaline, Mussolini, Hitler, Salazar e Franco são os cinco nomes em destaque nestas biografias históricas, onde o autor, doutorado em Ciências Sociais, traça linhas gerais que aproximam e separam estes homens. Seriam todos bastantes íntimos e ligados às suas mães e com relações muito distantes com os pais. Homens solitários, pouco afetuosos e com o desejo de poder como o seu último e máximo objetivo. Nogueira Pinto cruza a vida destes ditadores e estuda como ainda hoje as suas políticas se manifestam e afectam a Europa atual.

Se o Passado Não Tivesse AsasPepetela (Dom Quixote)

Fonte: Dom Quixote

O vultuoso Pepetela regressou em maio deste ano, com um retrato cru dos últimos vinte anos em Angola. Himba, de treze anos, perde-se da sua família. Encontra Kassule, um menino órfão, sem uma perna que perdeu devido ao estilhaço de uma mina. As duas crianças sobrevivem dos restos deitados ao lixo dos restaurantes. Sofia, gere um restaurante destinado à alta classe angolana e está disposta a tudo para que a sua vida e a do seu irmão melhore. Sonha poder providenciar-lhe a oportunidade de expor em grandes galerias. O entrecruzar de todas estas histórias, contadas pela mão de um dos maiores escritores angolanos, num condensar numa narrativa peculiar.

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, J.K. Rowling, John Tiffany e Jack Throne (Editorial Presença)

Fonte: Wook

Esta escolha não poderia faltar. Depois de meses a fio no pódio dos destaques e dos livros mais vendidos, o pequeno Harry Potter volta, agora casado e com três filhos. As perguntas que ficaram por responder no livro que fecha a saga do feiticeiro mais famoso de sempre, como o que teria acontecido a Hogwarts, terá sido finalmente o terror erradicado de vez, são retornadas neste volume. Nesta versão teatral, Harry Potter e o seu filho, Albus, debatem-se e percebe-se que o mal nasce em lugares inesperados. Um dos livros mais aguardados pelos fãs e que cumpriu as expetativas.

Dias Birmaneses, George Orwell (Relógio d’Água)

Fonte: Relógio d’Água

George Orwell é um dos escritores mais incisivos na descrição de sociedades totalitárias, com livros como 1984 Animal Farm. Dias Birmaneses resulta da sua experiência como agente da polícia da Birmânia e redireciona o foco para o colonialismo britânico. Descrevendo a corrupção, a intolerância e a segregação de uma sociedade que se apoderou de um povo “inferior de pele negra”. A história de uma amizade improvável de um comerciante branco com um indiano é o alibi perfeito para a exposição do parasitismo dos colonizadores e dos nativos que procuram ascender socialmente, num retrato mordaz da realidade que conheceu bem de perto.

A GordaIsabela Figueiredo (Caminho)

Fonte: Caminho

O título deste livro de Isabela Figueiredo é bem indicativo do tema. Maria Luísa, a personagem chave deste romance é uma rapariga bonita, inteligente, com uma forte personalidade, o arquétipo de mulher perfeita. No entanto, é gorda. Isso atormenta-a, incomoda-a. Sofre em silêncio com os comentários, com a exclusão. Um reflexo de como uma caraterística física consegue ter poder de condicionar a vida de uma mulher. Ainda assim, esta é a busca de Maria Luísa por uma vida em que é aceite tal como é. Um história que se insurge com o papel da mulher atual e retrata como a sua fachada é apenas isso.

As RaparigasEmma Cline (Porto Editora)

Fonte: Porto Editora

No primeiro romance de Emma Cline, a receção pela crítica literária não poderia ter sido mais positiva. Esta é a história de Evie, uma adolescente atormentada pelos problemas típicos desta fase. Perante a sua fragilidade, é seduzida a ingressar numa comunidade isolada e organizada em torno de um líder carismático e frustrado. Numa viagem de drogas, amor livre, este livro é um mergulho nas vulnerabilidades da adolescência e da forma como as escolhas de um presente inconsequente têm consequências a longo prazo.

As 10 questões do colapsoAs 10 questões do colapso, João César das Neves ( Dom Quixote)

Fonte: Dom Quixote

Neste livro, um pouco mais técnico, político e económico, o Professor João César das Neves, traça um retrato sobre o futuro, sobre o colapso, as mudanças, as desigualdades e o extremismo. Em linguagem consideravelmente acessível , o escritor explica o que se têm passado e passará no panorama português, ressalvando que o caminho a percorrer se avizinha árduo e trabalhoso.