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“Hollywood, tens cá disto?”: Ossos (1997)

Este mês, a rubrica Hollywood, tens cá disto? analisa o filme Ossos (1997) de Pedro Costa. O realizador português conhecido pelos seus filmes de caráter experimental e documental estudou História antes de ingressar na Escola Superior de Teatro e Cinema. Foi assistente de realização de cineastas como Vítor Gonçalves, Jorge Silva Melo e João Botelho, estreando-se com a longa-metragem O Sangue (1989).

Ossos é o primeiro filme da trilogia Cartas das Fontainhas, que além desta longa metragem conta com No Quarto da Vanda (2000) e Juventude em Marcha (2006). Documenta a cruel realidade do bairro pobre, em Lisboa. Tina, uma jovem que mora nas Fontainhas, dá à luz e tenta suicidar-se abrindo as bocas do fogão. Temendo o pior para o bebé, o pai foge com o filho, mendigando para sobreviverem. É auxiliado por uma enfermeira, Eduarda, que lhe dá uma sandes para se alimentar e leite para o rebento. Mais tarde, o filho é internado por ingestão de leite e o pai reencontra Eduarda, que oferece pousio durante o internamento. Em paralelo, no bairro, Clotilde, que partilha casa com Tina e trabalha na cidade, encarrega-se de cuidar pelo bem-estar da amiga, tornando-se o elo de ligação entre o casal.

No drama, Costa utiliza técnicas do cinema direto para documentar a realidade com rigor, conferindo ao filme uma identidade de doc-ficção. Os dois polos de Lisboa contrastam como sombras e luz, pondo em perspetiva a opressão dos pobres com a existência confortável dos lisboetas. A dor emocional e a rotina apática revela-se na ação e na composição que repete planos e motivos. As cenas longas e contemplativas vão gradualmente tornando o espectador consciente do espaço; as ruas por onde os personagens passam repetidamente, as casas degradas que albergam os moradores numa miserável claustrofobia, as sombras, os sons e as gentes do bairro que observam e se escondem através das janelas e portas.

Contudo, é um filme que exige do espectador. As cenas longas e contemplativas tornam-se cansativas e a ação lenta ultrapassa o suportável. Embora o espaço seja explorado com intuito documental de forma inteligente, com um irrepreensível mise-en-scène, o retrato social demasiado calculado e teórico por vezes torna o filme indolente, como se algo se perdesse num arquitectónico exercício intelectual. Confesso que esta desconexão me cansou e tive dificuldade em ver a última meia hora de filme.

A exposição da miséria do Bairro das Fontainhas e confronto do público com aquela realidade cruel, não bastou para ter apreciado a longa-metragem. Como narrativa ficcional, gostaria que fosse para além do osso e oferecesse um vislumbre da carne. O que é acaba por ser atingido no segundo filme da trilogia, o Quarto da Vanda (2000), por ter um estilo unicamente documental, onde o retrato é menos clínico e permite uma imersão na realidade social, cultural e emocional.

Ficha Técnica:

Realizador: Pedro Costa
Argumento: Pedro Costa
Elenco: Vanda Duarte, Nuno Vaz, Mariya Lipkina
Duração: 98 minutos

5/10

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