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Imagem: Homo Literatus

Autor do Mês: Aldous Huxley e a contemporaneidade de um ‘Admirável Mundo Novo’

Voltamos com a rubrica Autor do Mês. Em dezembro, o destaque vai para Aldous Huxley. Em Admirável Mundo Novo, de 1932, o escritor falou-nos de uma utopia distópica onde as pessoas, meras “alegres consumidoras”, são condicionadas psicologicamente a fazer de tudo na busca da felicidade, a consumir e refugiar-se em “lugares felizes”, manipuladas por aquilo que crêem amar. Atualmente, na era em que se fala de desinformação, pós-facto e sociedade de consumo e do imediatismo, Huxley está mais atual que nunca.

O contexto elitista

Nascido em Godalming, Inglaterra, a 26 de julho de 1894, Aldous Leonard Huxley veio de uma família de intelectuais: o seu avô era Thomas Henry Huxley, cientista apoiante da teoria da evolução de Charles Darwin e criador dos termos “agnosticismo” e “biogénese”; a romancista Humphrey Ward era sua tia e o seu tio-avô era o poeta Matthew Arnold.

E Aldous, seguindo as pisadas da elite intelectual que o rodeava, ingressou em Medicina – curso que teve de abandonar devido a um problema ocular. Ingressou então em Oxford, onde teve o seu primeiro contacto com a literatura – e se tornou amigo de nomes como D. H. Lawrence (O Amante de Lady Chatterley, 1928), Bertrand Russell (Nobel da Literatura de 1950) e Lytton Strachey (Queen Victoria, 1921).

Em 1920 publicou a sua obra de estreia, uma coletânea de seis contos e uma peça de nome Limbo. Publicou depois diversos romances e ensaios, entre eles o conhecido Admirável Mundo Novo. Ao mudar-se para Los Angeles em 1937, Huxley descobriu duas novas paixões: o cinema e o LSD. Um modernista cético com algo a dizer no seu tempo, e que está hoje mais atual que nunca.

Admirável Mundo Novo: o magnum opus

Imagem por Laurie Lipton
Imagem por Laurie Lipton

Admirável Mundo Novo foi o mais aclamado livro da carreira literária de Huxley. Consta ainda hoje em listas dos 100 mais importantes clássicos, e é sem dúvida uma crítica tenaz à modernidade, e ao caminho que a Humanidade poderia trilhar se se permitisse que os grandes poderes controlassem a ciência, a sociedade, a opinião pública e a felicidade das pessoas – tudo isto enquanto acreditam que são livres e felizes. Uma distopia mascarada de utopia.

Há muito quem afirme que a nossa sociedade atual se aproxima hoje mais de Admirável Mundo Novo do que de 1984, o seu counterpart, obra distópica por George Orwell em que as pessoas são oprimidas num regime totalitário opressivo e vivem as suas vidas manipuladas pelo governo e numa vida predefinida que aceitam.

1984 acreditava que aquilo que tememos iria oprimir-nos; a violência, a tortura, a censura e a opressão. Admirável Mundo Novo, por outro lado, acreditava que era aquilo que amávamos que nos oprimiria: a busca cega por felicidade, a tecnologia, o consumismo descontrolado.

Em Admirável Mundo Novo, uma das personagens troça do facto de o futebol ter sido em tempos tão popular, sendo uma forma de entretenimento tão rudimentar em termos de consumo; e enaltece as novas, mais complexas formas de entretenimento que obrigam as pessoas a consumir constantemente para desfrutar.

E por muito satírica que esta parte (e todo o livro) seja, o que é possível observar hoje em dia? Os jogos de futebol mobilizam milhões de pessoas enquanto consumidoras todos os anos: estádios cheios de pessoas que compraram o seu lugar, vestidas com as t-shirts, cachecóis e acessórios que compraram para mostrar o seu apoio pela sua equipa de eleição, que fizeram apostas desportivas sobre os resultados do jogo que estão a ver. Filmes, livros e música estão rodeadas de merchandise oficial, tours, benefícios especiais para quem pagar mais – lugares melhores nos concertos, meet-and-greet com escritores e atores, versões autografadas de livros…

Não ficaria Huxley, no mínimo, espantado com o quão perto chegou da realidade?

“Most men and women will grow up to love their servitude and will never dream of revolution.”

(Huxley, Admirável Mundo Novo)

 

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