Fotografia: Catarina Abrantes Alves / Espalha-Factos

Vodafone Mexefest às voltas com a música na Avenida

Sexta-feira e sábado. Numa dezena de palcos, mas também nas ruas da Avenida da Liberdade e suas circundantes, as novas tendências da música atual desfilam no Vodafone Mexefest por entre pingos de chuva e iluminações de Natal.

São dois dias de música desde início da noite até de madrugada em sítios tão comuns como o Coliseu de Lisboa, tão belos como a Casa do Alentejo ou tão “recentes” como o Capitólio, que se estreia para este festival.

Dois dias em que nomes emergentes da cena musical sedimentam a relação com o público, outros inscrevem pelo menos a inicial nas veias dos melómanos e outros ainda – como o caso dos nossos “irmãos” brasileiros, demonstram como esta ligação da língua de Camões tem muito que se lhe diga.

Além dos palcos e da música, outra das fundamentais razões pela qual adoramos festivais é o lado de convívio, os amigos que não víamos desde o último festival de verão, as borlas da marca patrocinadora – que aqui são bolas de berlim ou chocolate quente ironicamente saboreado entre litros de cerveja – ou a interação com os turistas, lojistas ou artistas de Lisboa. São todos estes “pormaiores” baralhados que fazem do Vodafone Mexefest um festival único, atrativo e bastante acarinhado.

Tu percebes o hip hop

A sexta-feira à noite inicia-se na intimidade da voz de Lula Pena e da belíssima sala da Sociedade de Geografia de Lisboa. Também em português, mas numa toada bem diferente, Mike El Nite e Nerve estreiam o Capitólio, icónica sala do Parque Mayer que recebe em grande o hip-hop. E por lá estão todos os representantes da cena “tuga” a apoiar Nite, o Justiceiro português, para logo de seguida erguerem os braços para Talib Kweli.

Master na arte de bem dizer, Kweli agarra-se ao mic e homenageia num fôlego nomes como Beatles, Bob Marley, Prince, Nina Simone ou J Dilla. Do lado de cá o calor humano responde à questão que Talib Kweli fez assim que pisou o palco: sim, o verdadeiro hip hop está aqui.

img_8995Mais difícil é a adesão do público à receita “à moda antiga” de Diamond D & Large Professor: dois clássicos da arte do diggin’ capazes de misturar sons fabulosos nos pratos mas com dificuldade para fazer entrar o público naquela sua forma de trabalhar imperiosa mas menos imediata.

À mesma hora as solicitações são bastantes. NAO estreia-se no Coliseu e pela sua presença e emotividade parece acontecer aquilo a que o Vodafone Mexefest se tem dedicado: o nascimento de uma bela relação com o público português. Ao lado, na Casa do Alentejo, Howe Gelb quebra corações debaixo do seu omnipresente chapéu e apresenta Future Standard, o mais recente disco. Mais para cima na Avenida, a brasileira CéU obriga a fazer fila à porta do Cinema S. Jorge quem quer viajar por Tropix e a bossa nova da recém vencedora do Grammy Latino de Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa.

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A noite termina no Coliseu dos Recreios com as batidas potentes dos australianos Jagwar Ma que, com disco novo na bagagem (Ever Now and Then), pouco acrescentam ao que já os vimos fazer no último NOS Alive ou mesmo em Paredes de Coura, quando se estrearam por terras portuguesas.

Mas bem cedo tínhamos passado pela Estação do Rossio, palco montado com o castelo em pano de fundo, para ouvir Baio, baixista dos Vampire Weekend, a apresentar The Names, disco envolto de batidas e prestação cheia de ginga.

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Gente altamente fixe

É assim que Elza Soares, diva brasileira, saúda o vasto público no Coliseu dos Recreios, embasbacado com a Mulher do Fim do Mundo, colocada no seu trono, na sua cadeira de rodas, de onde saem longos tentáculos negros. Mas colorida é a sua música, como a sua cabeleira.

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Uma força de vida de quem viveu muita coisa má e que toca nos pontos podres deste mundo que “vai acabar num poço cheio de merda”. Sem papas na língua, deslumbra o público com o portento que é enquanto mulher e cantora, acompanhada por uma banda extraordinária.

Antes já Gallant tinha passado por aquele palco, apresentando um R&B imberbe mas seguro, acompanhado também de uma competente banda. Possivelmente, à semelhança do que acontecera com NAO, também um nome que voltaremos a ver por cá brevemente.

Ali perto, debaixo de impermeáveis e guarda-chuvas, algum público abriga-se no espaço quente da Casa do Alentejo e da voz de Joana Barra Vaz, um dos (enormes) novos talentos portugueses.

joana-barraMais tarde, aquele espaço receberá Sua Entidade, Senhor Tom Barman (dos belgas dEUS) para a primeira presença em Portugal dos Taxiwars, banda de contornos mais jazzísticos, cheia de boa energia, em espaço condizente.

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No Tivoli os Whitney – autores de um dos discos mais luminosos do ano – apresentam-se reduzidos a metade dos elementos porque os outros decidiram ir embora para passar o feriado do Thanksgiving. O que poderia ser desastroso. Julien Ehlich, que costuma ocupar a bateria, entrega-se à guitarra e admite estar nervoso com isso. Não havia motivos. É um momento belíssimo, amplamente aplaudido e prova de que, para ser altamente fixe, basta ser assim honesto, divertido, e com bonitas músicas. O álcool também pode ajudar.

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Para terminar esta edição do Vodafone Mexefest – talvez aquela que menos nomes imediatos teve – Branko põe toda a gente “a dar tudo” no Coliseu numa hora certinha de ritmo e batidas suadas que parecem ter espantado a chuva por uns dias.

Contas feitas a esta edição, o Vodafone Mexefest continua fiel ao seu conceito de sobe e desce a avenida, conhece novas bandas, abraça os teus artistas favoritos que eles andam aí.

Mas… há um mas.

Dêem-nos um pouco menos, que isso pode significar dar-nos um pouco mais. Se tivermos menos salas (há espaços onde são ocupadas três divisões diferentes) mas mais tempo para circular entre concertos, talvez a experiência musical possa ser mais enriquecedora.

Fotografia: Catarina Abrantes Alves e Jhonatan Magalhães. 

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