Quando a narrativa de Elle parece estar já a desintegrar-se diante dos nossos (incrédulos) olhos, Michèle – a protagonista, a esfinge – relata-nos uma espécie de parábola imoral: a história de um católico demente que, talvez por ter sido impedido de espalhar a fé pela sua vizinhança, resolve matar todos os que lá moram. É neste mundo de soluções violentas que o filme de Verhoeven tem lugar, um mundo onde o que outrora era sagrado e imaculado se precipita agora para a mais baixa das heresias. Estamos, é certo, perante um cinema profundamente profano. Não se trata apenas da excentricidade sexual, dos fétiches e jogos sadomasoquistas que há em Elle, porque nada aqui permanece intocado pela verve demoníaca do seu cineasta. Até o dogma da seriedade que se espera de um thriller – transcendência que, julgávamos nós, sairia incólume deste filme – sofre mutações sucessivas, cedendo cada vez mais espaço ao humor, à farsa e à pura deriva absurdista. Faz sentido que o vírus de Verhoeven se aloje precisamente no centro do cliché: é a partir daí que o começa a devorar.

E também não é por acaso que a estética do videojogo se intromete no enredo. A imagem contingente (e por isso, mundana) dos videojogos faz deles objetos inevitavelmente profanos, e, para alguns, isso justifica que lhes seja vedado o estatuto de Arte com pomposa maiúscula. Será possivelmente essa a ameaça que paira sobre boa parte deste filme: a ideia de que a qualquer momento tudo pode resvalar para o mau gosto, para o vulgar. Mas Verhoeven suspende, desde o início, as fronteiras do sublime, permitindo que o reles e o requintado se encontrem e, muitas vezes, se substituam um ao outro. Isto resulta numa extraordinária ambiguidade que garante que as cenas de Elle são mais vividas do que estilizadas, porque a delicadeza do tema assim o requer.

elle2Mas quem é ela? Elle é Michèle, bem-sucedida mulher de negócios que dirige uma empresa produtora de videojogos e que, um dia, é violada em sua casa por um assaltante mascarado. E Michèle é Isabelle, a francesa Isabelle Huppert, numa interpretação assombrosa, tão grande que não parece sequer caber nas duas horas de filme. É uma personagem exigente cujas decisões e motivações estão decididamente para além do bem e do mal, o que não satisfará quem procurar nela um óbvio recorte de heroína feminista – ainda assim, a sua resiliência (que nunca perceberemos muito bem de onde vem) fará com que todos os homens que a rodeiam, desde o ex-marido ao amante atual, nos pareçam perfeitos idiotas. Afinal, esta é uma mulher que reage com uma estóica eficiência à sua própria violação: não há tempo para chorar, é preciso mudar as fechaduras, fazer um teste de DSTs, investigar alguns colegas de trabalho suspeitos, comprar gás pimenta. É claro que o enredo nos fornece possíveis justificações para esta aparente neutralidade emocional,  e muitas delas têm que ver com o passado traumático de Michèle. Nenhuma hipótese, todavia, é capaz de esgotar o mistério desta protagonista, que decerto sobreviverá a todas as reduções psicanalíticas que lhe tentarem impor.

É que, felizmente, quem está por detrás da câmara não é Fincher nem Nolan, e por isso Elle não se transforma num estéril jogo de pistas e twists concebido para que o espetador se sinta como um detetive muito perspicaz. Paul Verhoeven, que já passou por Hollywood (RoboCop, Total Recall, Basic Instinct) e que tem neste filme a sua primeira investida em território francês, conhece todos esses truques e brinca com a possibilidade de os pôr em prática: por exemplo, quando a identidade do violador de Michèle é revelada, esperávamos, porventura, ou uma aceleração ou um brusco desvio daquela que havia sido a trajetória da narrativa até esse ponto, mas o que sucede é bem mais curioso – e menos mecânico – que isso. Em Elle, o que nos choca é esta permanente violação das leis do thriller, esta recusa dos universais, das categorias: devolve-se o cinema aos casos particulares, à terra (seja ela de bom ou mau gosto).

No fim, e apesar de todos os nós satíricos que o argumento baseado no romance Oh…, de Philippe Dijan, vai dando sobre a premissa inicial, o que descobrimos neste filme é relativamente simples: trata-se da história de uma mulher que, contra todas as adversidades, mantém – quando não chega mesmo a reforçar – a complexa teia de poder que criou em torno de si própria. E se daqui não podemos logo generalizar, extrapolar para um otimismo feminista (embora este não seja, de todo, impensável), isso deve-se  ao facto de Michèle ser uma só mulher, única e singular na terceira pessoa, elle.

8/10

Ficha técnica
Título: Elle
Realizador: Paul Verhoeven
Argumento: David Birke (baseado na obra Oh…, de Philippe Dijan)
Elenco: Isabelle Huppert, Laurent Lafitte, Anne Consigny
Género: Drama, Thriller
Duração: 130 minutos