vlcsnap-2016-11-23-14h21m24s848

“Hollywood, tens cá disto?”: Recordações da Casa Amarela

Se tivesse de eleger o realizador português mais polémico, seria João César Monteiro. O cineasta tornou-se um mito ao deixar um legado repleto de histórias excêntricas e uma obra cinematográfica difícil de rotular. Atingiu o auge da controvérsia com o filme Branca de Neve, a sua penúltima longa-metragem, que lhe valeu aquando da estreia a icónica citação “Eu quero que o público português se foda e assim sucessivamente.”. Este mês, o Espalha-Factos vai analisar Recordações da Casa Amarela, uma comédia da trilogia em que o realizador surge como protagonista, através do seu alter ego João de Deus.

vlcsnap-2016-11-23-14h46m42s848João de Deus é um homem pobre, encardido e soturno que mora num quarto alugado numa pensão piolhenta. A senhoria, dona Violeta (Manuela de Freitas), é uma velha antipática e sovina, pregadora da falsa moral, que repete constantemente que a casa não oferece serventia. Além da casa, o pano de fundo é o de uma Lisboa cinzenta, com edifícios degradados e cafés sebosos. O reflexo de um Portugal pequeno e provinciano em que as conversas começam com “Então e o nosso Benfica?”.

João, doente, deambula na busca ociosa da próxima moeda para alimentar a fome pornográfica da sua libido. Seja dinheiro real para gastar no animatógrafo do Rossio, ou aqueles instantes em que aproveita para vigiar Julieta, a filha de Violeta, a despir-se. A história desenrola-se através destes eventos triviais, começando pela cura da doença que lhe aparece ao início do filme (e que levanta a suspeita de percevejos na casa), passando pelo seu trabalho, boémia e terminando num hospital psiquiátrico.

jcm

As cenas são filmadas com takes longos em que é raro o movimento da câmara, conferindo à ação a cadência natural das coisas. César Monteiro decide os planos com intenção simbólica, associando um mise-en-scene igualmente rico em subtexto. O som, pelo caráter mais estático da imagem, ganha maior relevo e é usado de forma inteligente. Desde o pássaro que chilreia nas cenas diurnas da pensão, ao relato de futebol que é sobreposto à conversa de dona Violeta com a hospede Mimi (Sabina Sacchi), sobre ter que se livrar do seu cão. Os diálogos, como em toda a obra de César Monteiro, são expositivos e filosóficos, há um caráter literário e também lírico na sua construção.

Como a maioria das obras de João César Monteiro, Recordações da Casa Amarela é um filme polarizador. Apesar de ter vencido o Leão de Prata no Festival de Veneza de 1989 e ter sido recebido positivamente pela crítica, muitas foram as vozes que acharam, e ainda acham, o seu cinema aborrecido e sobrevalorizado. Talvez tudo dependa das expetativas. Como diria o próprio João César Monteiro, “Queriam telenovela, era?”.

Ficha Técnica:

Realizador: João César Monteiro
Argumento: João César Monteiro
Elenco: João César Monteiro, Manuela de Freitas, Sabina Sacchi, Ruy Furtado
Duração: 122 minutos

8/10

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
Porto dos Milagres
‘Porto dos Milagres’ está de regresso à televisão portuguesa