Se tivesse de eleger o realizador português mais polémico, seria João César Monteiro. O cineasta tornou-se um mito ao deixar um legado repleto de histórias excêntricas e uma obra cinematográfica difícil de rotular. Atingiu o auge da controvérsia com o filme Branca de Neve, a sua penúltima longa-metragem, que lhe valeu aquando da estreia a icónica citação “Eu quero que o público português se foda e assim sucessivamente.”. Este mês, o Espalha-Factos vai analisar Recordações da Casa Amarela, uma comédia da trilogia em que o realizador surge como protagonista, através do seu alter ego João de Deus.

vlcsnap-2016-11-23-14h46m42s848João de Deus é um homem pobre, encardido e soturno que mora num quarto alugado numa pensão piolhenta. A senhoria, dona Violeta (Manuela de Freitas), é uma velha antipática e sovina, pregadora da falsa moral, que repete constantemente que a casa não oferece serventia. Além da casa, o pano de fundo é o de uma Lisboa cinzenta, com edifícios degradados e cafés sebosos. O reflexo de um Portugal pequeno e provinciano em que as conversas começam com “Então e o nosso Benfica?”.

João, doente, deambula na busca ociosa da próxima moeda para alimentar a fome pornográfica da sua libido. Seja dinheiro real para gastar no animatógrafo do Rossio, ou aqueles instantes em que aproveita para vigiar Julieta, a filha de Violeta, a despir-se. A história desenrola-se através destes eventos triviais, começando pela cura da doença que lhe aparece ao início do filme (e que levanta a suspeita de percevejos na casa), passando pelo seu trabalho, boémia e terminando num hospital psiquiátrico.

jcm

As cenas são filmadas com takes longos em que é raro o movimento da câmara, conferindo à ação a cadência natural das coisas. César Monteiro decide os planos com intenção simbólica, associando um mise-en-scene igualmente rico em subtexto. O som, pelo caráter mais estático da imagem, ganha maior relevo e é usado de forma inteligente. Desde o pássaro que chilreia nas cenas diurnas da pensão, ao relato de futebol que é sobreposto à conversa de dona Violeta com a hospede Mimi (Sabina Sacchi), sobre ter que se livrar do seu cão. Os diálogos, como em toda a obra de César Monteiro, são expositivos e filosóficos, há um caráter literário e também lírico na sua construção.

Como a maioria das obras de João César Monteiro, Recordações da Casa Amarela é um filme polarizador. Apesar de ter vencido o Leão de Prata no Festival de Veneza de 1989 e ter sido recebido positivamente pela crítica, muitas foram as vozes que acharam, e ainda acham, o seu cinema aborrecido e sobrevalorizado. Talvez tudo dependa das expetativas. Como diria o próprio João César Monteiro, “Queriam telenovela, era?”.

Ficha Técnica:

Realizador: João César Monteiro
Argumento: João César Monteiro
Elenco: João César Monteiro, Manuela de Freitas, Sabina Sacchi, Ruy Furtado
Duração: 122 minutos

8/10