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O Exame: ser cordeiro num covil de lobos

Muito antes de Oscar Wilde deixar registado o mítico aforismo “toda a arte é inútil” num dos mais memoráveis prefácios da História da Literatura, já escritores um pouco por todo o mundo produziam obras que provavam o contrário. O Exame não vai mudar a face da sociedade romena nem derrotar heroicamente, através de um agitar de consciências colectivo, o flagelo da corrupção e do tráfico de influências um pouco por toda a Europa. Contudo, tem talvez o poder para levar um pai a rever os seus métodos pedagógicos ou um jovem em formação a problematizar tudo o que lhe foi ensinado. Não é preciso termos crescido na Roménia para sentirmos o peso desta história.

Antes de ser o retrato de um país doente, O Exame é um ensaio sobre a humanidade. Esta é a história de Romeo (Adrian Titieni), um pai protetor e com expectativas elevadas em relação à sua única filha, Eliza (Maria Dragus), que está no seu último ano na escola secundária e já viu o seu empenho reconhecido com a oferta de duas bolsas para estudar em Inglaterra. Contudo, para poder concretizar um sonho que é mais do seu pai do que seu, Eliza tem de garantir resultados elevados nos seus exames finais. A tarefa não se afiguraria muito desafiante, não fosse o facto de Eliza ser atacada e quase violada na véspera do primeiro exame.

Esta é a premissa inicial de uma história que não deixa espaço ao espectador para moralismos. Aos quinze minutos de filme já toda a gente terá percebido que, em O Exame, ninguém é inocente, à excepção talvez da jovem Eliza. Romeo – um homem comum de rosto tão neutro e familiar que podíamos jurar que já estivemos no seu consultório – é conhecido como o mais honesto e respeitável dos médicos a trabalhar em Cluj. Contudo, nem ele é intocável: este extremoso pai de família mantém um caso extra-conjugal com uma paciente, que, coincidência ou não, trabalha também na escola da sua filha. E, no momento em que, em nome dos interesses de Eliza, cede à pressão de uma teia de corrupção que parece não deixar de fora nenhum sector do funcionalismo público, Romeo torna-se na personificação de todos os males que condena e contra os quais tentou toda a sua vida proteger Eliza.

À medida que a rede de troca de influências se adensa e o cerco em redor do protagonista se aperta, apercebemo-nos da irremediável tragédia em que todas as personagens se encontram mergulhadas: o sistema não pode ser destruído sem que cada uma delas seja destruída primeiro e, por essa mesma razão, todas se vêem forçadas a ceder. E é a suprema das ironias que, numa tentativa de salvar a filha de uma sociedade corrupta, doente, viciada, Romeo acabe por ter ele mesmo de sujar as mãos.

Filmado num estilo que roça por vezes o documental, O Exame é o retrato cru e realista de uma sociedade que vive ainda na sombra do passado; uma Roménia que, na transição para a democracia, não conseguiu nunca libertar-se da herança do ditador Ceaucescu. A câmara por vezes estática, outras vezes ao ombro, mostra-nos, simbolicamente, um cidade cinzenta e em obras, de mato selvagem, ruas sujas e edifícios decadentes, onde uma jovem de 17 anos é violada em plena luz do dia à porta da escola, sem que ninguém tenha coragem para intervir.

Com O Exame, Cristian Mungiu provou que é possível a arte ser subversiva permanecendo profundamente humana. É que subliminar aos comentários políticos mordazes, palpita um coração enorme. A história desenrola-se em territórios distantes mas soa desconcertantemente familiar. O desafio é sair da sala de cinema indiferente e sem um enorme nó na garganta.

8/10

Ficha técnica

Título: O Exame

Realizador: Cristian Mungiu

Argumento: Cristian Mungiu

Elenco: Adrian Titieni, Maria-Victoria Dragus, Rares Andrici, Lia Bugnar

Género: Drama

Duração: 128 minutos

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