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Foto: Raquel Silva

AmadoraBD 2016 e a necessidade de regressar à glória de outros tempos

A 27.º edição do AmadoraBD – Festival Internacional de Banda Desenhada celebrou, de 21 de outubro a 6 de novembro, O Espaço e o Tempo na Banda Desenhada, no Fórum Luís de Camões. O Espalha-Factos partilha agora a retrospetiva daquele que é um dos mais conhecidos acontecimentos do panorama bedéfilo nacional.

AmadoraBD: O Espaço e o Tempo na Exposição Central

Este ano, por sugestão e face à ligação com a Trienal de Lisboa, o tema da exposição central recaiu sobre O Espaço e o Tempo na Banda Desenhada, assim como sobre a sua relação com outras artes, sobretudo com a Arquitetura, em que prima o espaço, e o Cinema, cujo primado é o tempo.

Segundo a organização, na Banda Desenhada, embora sujeita ao espaço bidimensional da prancha ou banda, existe desde logo um ritmo temporal, uma cadência imposta pela sequência das vinhetas que colocam em paralelo conceptual o espaço e o tempo. Predominaram assim, três mundo-visões (Clássica, Moderna e Contemporânea), representadas  por três autores de referência: HergéHugo PrattMoebius.

A exposição foi dividida, tal como aconteceu no ano passado, em cinco núcleos temáticos. NO Começo, procura explicar-se ao visitante  que existem processos de iniciar as narrativas que vão desde a nossa ideia do universo à produção musical. O primeiro corredor apresenta-nos inícios de obras, como as famosas primeiras palavras do livro A Tale of Two Cities, de Charles Dickens. Num outro canto, estão auscultadores à disposição para ouvir algumas músicas previamente selecionadas.

No segundo núcleo, O Lar, o visitante deve tomar contacto com a noção de Lar/Casa como a âncora espacial que situa e marca a atividade dos protagonistas. Ao longo da exposição, encontraremos cubículos, espaços mais ao menos grandes e escondidos, no qual será possível observar uma projeção, e que poderemos entender como representações de lares/casas.

O Lugar pretende demonstrar como a mudança de lugar implica quase sempre a mudança de episódio na narrativa e como estas convenções se foram fazendo e desfazendo na história da BD. Abordam-se as formas como o tempo da história se desenrola, com as suas situações radicais, a suspensão do tempo, o tempo ininterrupto, o tempo todo numa só página, as diferentes intensidades do tempo e os saltos no tempo.

De seguida, passa-se para a abordagem d’O Mundo, tentando explicar que as histórias comportam sempre uma viagem, tanto geográfica como narrativa. “Deve ser percetível que o herói europeu viaja e regressa enquanto que o norte-americano se fixa na sua cidade e o japonês cria o seu próprio mundo.” N’O Fim, fala-se de como se pode terminar a narrativa, abrindo por vezes a possibilidade de uma continuação.

A exposição esteve, sem qualquer aviso aos visitantes, parcialmente encerrada no primeiro fim de semana. Embora tenham existido alguns apontamentos dignos de referência, como um quarto vermelho que fez as delícias dos mais pequenos, a verdade é que pecou por excesso de livros abertos, alguns deles repetidos lado a lado, e aos quais o público não tinha acesso, uma vez que estavam guardados por detrás de vitrines. Para além disso, existiam mais impressos do que originais e algumas legendas em falta ou trocadas, o que desvirtuou a conceção dos comissários.

Zombie, de Marco Mendes, o Autor de Destaque

Com cenografia de Teresa Cardoso João Nogueira (que merecem uma salva de palmas), a exposição apresenta-se retrospetiva, dedicada ao processo criativo do álbum, que aborda temas como a precariedade, as praxes e a comunidade que vamos construindo ou vendo construir à nossa volta. Embora seja uma história ficcionada, existem algunss elementos autobiográficos do autor e do presente contexto social do país.

Lucky Luke, o 70.º aniversário

Em associação com o Clube Português de Banda Desenhada, o festival celebrou os 70 anos de Lucky Luke, uma vez que Morris foi o primeiro convidado internacional, logo na 1.ª edição em 1990, e teve, consequentemente, uma importância decisiva na internacionalização e na credibilização do evento. Morris, que regressou à Amadora dois anos mais tarde (para receber o Troféu Honra, a maior distinção da banda desenhada portuguesa), foi autor de 87 álbuns do célebre cowboy que criou em 1947 com Goscinny.

A cenografia da exposição apresentou-se de grande qualidade, demonstrando que continua a ser um dos pontos fortes do festival. Contudo, no primeiro fim de semana, as legendas que situavam a história da exposição estavam em falta, perdendo-se um pouco o enquadramento. A figura em cartão do Lucky Luke e dos irmãos Dalton conquistou, por outro lado, a maior parte das atenções.

O aniversário foi ainda assinalado pelo lançamento mundial de uma nova aventura, A Terra Prometida, com autoria de Achdé Jul, que levará Lucky Luke a escoltar uma família de judeus da Europa do Leste até aos confins do Oeste selvagem.

Outras exposições

É ainda necessário destacar, sobretudo, duas exposições. A exposição de Anton Kannemeyer, um sul-africano que ainda conheceu o apartheid e que, sendo branco, o conheceu do lado de quem dominava. Papa em África pretendeu reunir histórias curtas, publicadas na revista Bitterkomix, que refletissem, de forma dura mas essencial, sobre o modo como nos relacionamos com os outros e o papel que o poder assume nas relações.

Por outro lado, embora geograficamente mal localizada, por estar muito escondida e num local de passagem, é importante referir a exposição de André Caetano e de André Oliveira, que abordava o processo criativo de Volta – o Segredo do Vale das Sombras. O álbum explora a memória e a redenção num ambiente atravessado por mistério e suspense e pelo contraste entre o rural e o urbano. A presença de cartas sobre o guião é, sem dúvida, a razão porque a exposição resultou tão bem. No ano passado, o Espalha-Factos chegou a entrevistar o argumentista: 1.ª parte aqui, 2.ª parte aqui.

BD para todos os gostos num festival a precisar de regressar à glória de outros tempos

A área comercial continua a ser um grande ponto de interesse, uma vez que é o espaço no qual é possível não só comprar banda desenhada, mas sobretudo interagir com os autores convidados, nacionais e internacionais, nas sessões de autógrafos.

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Foto: Raquel Silva

Este ano foram muitas as críticas ao festival, desde a fraca divulgação (que não é realizada atempadamente), passando pelo facto de, na primeira semana, algumas exposições não estarem expostas ou se apresentarem incompletas (sem qualquer aviso aos visitantes que pagaram para ver meio evento), até à ausência de nomes sonantes para cabeça de cartaz. Espera-se que para o ano as falhas sejam colmatadas e o AmadoraBD possa voltar, no mesmo espaço, à glória de outros tempos.

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