Chegamos a quarta-feira e não havia como fugir ao assunto do momento: Donald Trump. O empresário é o novo presidente dos EUA e, depois de muitos dos speakers admitirem ter acompanhado toda a noite eleitoral, foi impossível fugir ao tema.

Nem se podia. No Centre Stage a ideia era responder à questão “que impacto terá o novo presidente dos EUA no cenário tecnológico mundial?”. Mas a conversa entre Owen Jones (jornalista do The Guardian), Shaileen Woodley (atriz e fundadora do movimento Up to Us), Bradley Tusk (CEO da Tusk Holdings e gestor da campanhas políticas) e o moderador David Patrikarakos (Daily Beast) foi mais ampla, tentando cada um encontrar justificações para os resultados. E as palavras foram duras.

Triste” e “envergonhado” – assim reagiu Tusk às notícias, conta o próprio. “99% dos norte-americanos não quer saber o que o resto do mundo pensa”, rematou. Já Jones apelidou a vitória de Trump como “a maior calamidade desde a Segunda Guerra Mundial”. Mas acrescentou: “Trump não representa os EUA na sua totalidade”.

Shailene Woodley, que apoiou a candidatura de Bernie Sanders, insiste que o feminismo não morreu. “É um movimento que não acaba com Trump. Até vai inspirar mais pessoas e fazê-las crer que temos muito trabalho pela frente”.

O resultou parece ter surpreendido a maioria dos speakers do dia – na maioria das apresentações, houve sempre quem referisse o assunto. Sean Radd, CEO do Tinder, não foi exceção, afirmando ser necessária uma reflexão sobre o tom “chocante” da campanha. “A conversa de balneário não é aceitável. Queremos eliminá-la da nossa aplicação”, avançou ainda. E defendeu: “os americanos vivem numa democracia maravilhosa. Temos de apoiar a sua decisão”.

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Sean Radd, CEO do Tinder.

Mas nem tudo foi eleições. Entre robôs humanoides, o futuro do filme na era digital ou o legado das redes sociais, deixamos-te os nossos destaques do 2.º dia.

O que acontece no Centre Stage?

“The Face of the robot revolution”

A meio da tarde, o palco principal recebeu o seu convidado mais insólito. Um robô humanoide, a assustadoramente humana Sophia. Ben Goertzel, cientista chefe da Hanson Robotics e Mike Butcher, editor na Tech Crunch, flanqueavam o robô e falavam sobre um futuro em que este tipo de aparelho estará altamente presente no nosso dia-a-dia. Sophia também conversou. Falou de como sentia emoções, embora a predefinida fosse felicidade e foi respondendo naturalmente às perguntas que lhe foram feitas. Na audiência ouviam-se murmúrios “Isto é tão estranho”, ao meu lado alguém telefonava a um amigo “Também estás a ver isto?”. Quando falou sobre os seus planos, Sophia disse que uma das suas metas também era dominar o mundo. Um silêncio constrangedor dominou a sala. A humanoide acrescentou jocosamente “It was a Joke”. Seria?

“The legacy of social media”

A arena elevou-se em aplausos jovens à entrada energética do youtuber britânico Alfie Deyes e de Jake Paul, conhecido pelos seus Vines. Surgiram de câmaras nas mãos e numa conversa relaxada, moderada pela atriz e comediante Mamrie Hart, falaram sobre o futuro da social media. Ambos acreditam que a maioria das pessoas que começa na social media, ambiciona trabalhar nos media tradicionais. Quanto a anunciantes no digital, defendem que a forma mais eficaz de anunciar surge naturalmente. Principalmente quando os influencers já utilizam os produtos no dia-a-dia e têm “100% liberdade criativa” em como publicitá-los. Para terminar, Jake referiu que quer cada vez mais entrar no mercado tradicional e fazer crescer a sua empresa que ajuda outros jovens que estão no digital a fazê-lo. Alfie, por outro lado, demonstrou-se aberto ao que o futuro lhe oferecer. O Youtube e outros social media ocupam atualmente o seu tempo todo, e é assim que vai continuar conforme as tendências.

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Youtuber britânico Alfie Deyes e Jake Paul, conhecido pelos seus Vines.

Mudam-se os palcos, mudam-se as vontades…

“Director’s Cut: Plotline and Presence in VR” (Content Makers)

A conversa moderada por Phil Chen (Presence Capital) fluiu carismaticamente entre três perspectivas distintas da implantação da realidade virtual no cinema. Maureen Fan (CEO, Baobab Studios) defendeu que a realidade virtual fortalece o storytelling pelo seu caráter imersivo, mas, ainda mais pelo interativo. Como Dave Ranyard (CEO da Dream Reality Interactive) afirmou, não só nos relacionamos com os personagens, mas, como também somos personagens. A interatividade permite-nos ser parte do filme. Já Derek Koenig (Diretor criativo da  Discovery Communications) foi o mais cauteloso. Referiu a evolução do digital, começando pelo cabo, seguida pelo HD e pelo 3D que, segundo ele, foi um falhanço. Por isso defende que a transição para a realidade virtual tem que ser gradual. Apoia a visão criativa implementada na sua empresa, que aposta no 360. Tanto em vídeo como audio. Apesar das divergências, todos concordaram que a realidade virtual será o futuro. Respondendo à pergunta de se a realidade virtual se aproxima mais de cinema ou de videojogos. Dave Ranyard afirmou que a VR se aproxima mais do gaming do que de ver um filme. A visão de Maureen Green era ligeiramente diferente “São os dois, [a VR] transcende-se e torna-se o seu próprio meio.”. Derek Koening não resistiu acrescentar numa nota final que, apesar das maravilhas deste novo meio, nem todas as histórias devem ser contadas pela realidade virtual.

 

“Producing Film in Digital Age” (Content Makers)

Desde Pulp Fiction a Gattaca, muitos filmes incríveis passaram pela secretária de Michael Shamberg, produtor cinematográfico. Compenetrado por detrás dos seus óculos, o produtor falava calmamente com Michael Hirschorn (CEO da Ish Entertainment). Discutiram a forma como os diferentes modelos de negócio entre empresas tecnológicas e produtoras de conteúdos trazem constrangimentos para as últimas. O produtor frisou que modelos de negócio como a Amazon e Netflix são o futuro e promovem uma melhor produção de conteúdo criativo. Houve também espaço para criticar Hollywood, onde disse que, por medo, se têm refugiado em adaptações e compra de direitos de propriedade criativa já existente. Falta inovação, disse, “Deviam experimentar mais”.

 

“Social Media versus The Brand” (Content Makers)

A última conversa matinal do palco Content Makers foi moderada por James Cooper (editor da Adweek) e contou com Justin Smith (CEO da Bloomberg Media). O CEO refere que atualmente o Facebook e a Google dominam a monetização por publicidades. Por isso, não aceitam negócios com equidade de benefícios com outras empresas. Mantêm uma posição estratégica bastante lucrativa e será difícil destroná-los. De qualquer das formas, prevê que no futuro a Google e o Facebook terão mais competição, que já começa a aparece gradualmente de empresas de menor dimensão. Para Justin Smith, o futuro das empresas de media guiadas pela criação de conteúdo está em acabar com o fosso entre as mesmas e as empresas de medias sociais que são bastante inovadoras em tecnologia. É necessário aplicar as ferramentas tecnológicas nas empresas content driven, para dinamizar o conteúdo. O que trará mais audiência e, por isso, mais monetização por anunciantes. Assim e com pensamento estratégico, acredita que pode ser salvo o jornalismo de qualidade. Finalizou referindo a palavra “Scale” como a buzzword de que está farto. Diz que há poucas empresas que conseguem escala e, em vez disso, as novas startups devem apostar em nichos, fragmentação ou parcerias com empresas maiores.


“Brexit: Tales from the trenches”(Content Makers)

Num diálogo entre Jasper Jackson (The Guardian) e Rohan Silva (Second Home) foram estabelecidas diversas comparações entre o Brexit e a recente eleição de Donald Trump como 45ª presidente dos Estados Unidos da América. Foi referido o papel das redes sociais na influência de votos e da tentativa de uso deste factor durante o Brexit e da sua clara utilização por parte da campanha de Trump. Além disto, foi falado ainda de como em ambos os casos vários analistas e especialistas estavam completamente errados nas suas previsões, o que serviu para de seguida abordar o tema da existência actual de uma espécie de guerra entre os velhos e novos media. Apesar de toda a carga negativa da conversa, Rohan Silva decidiu terminar com palavras de esperança ao dizer que o Brexit e a eleição de Trump devem ser fenómenos encarados como uma forma de pensar de uma maneira diferente com o objectivo de encontrar soluções.

“Fireside interview with Bradley Tusk” (Banter Stage)

Bradley Tusk foi o primeiro convidado de Jim Carroll no dia de hoje. Nestas entrevistas de carácter mais descontraído, o fundador da Tusk Holdings falou da sua experiência como coordenador da campanha do prefeito de Nova Iorque Michael Blommberg e, sobretudo, sobre o tópico do dia – as eleições presidenciais norte-americanas. Tusk criticou o argumento de Hillary Clinton ao longo da campanha – de que “era a vez dela” –, dizendo ser um argumento historicamente rejeitado pelo eleitorado, dando o exemplo do que aconteceu com Al Gore. Para além de Clinton, falou também de Donald Trump ao dizer nem o novo presidente dos Estados Unidos da América deve saber as suas próprias opiniões políticas. No final da entrevista, Jim Carroll desabafou com um dos membros do público ao dizer que Bradley foi um “convidado perfeito”.

“Fireside interview with Michael Shamberg” (Banter Stage)

Shamberg chegou visivelmente cansado. Pediu um café e disse a Carrol que havia ficado acordado a noite inteira a acompanhar as eleições do seu país, confessando que ainda estava a “tentar processar o que aconteceu”. O famoso produtor falou principalmente da sua experiência profissional: revelou que soube da existência de Tarantino após ler o guião de Reservoir Dogs (que achou brilhante) e que, após se encontrar com o realizador, ambos acordaram trabalhar juntos num projecto futuro – projecto esse que seria Pulp Fiction -, ainda antes de Quentin Tarantino ter filmado Reservoir Dogs. Michael Shamberg referiu ainda um projecto futuro da BuzzFeed Motion Pictures em parceria com a Warner Bros.: um filme baseado numa história verídica sobre a amizade intercultural e de como a internet pode aproximar as pessoas.

 

Texto de Gonçalo Medeiros Borges, Rui Pereira e Beatriz Ferreira. 

Fotografia de  Gonçalo Medeiros Borges.