Os Les Ballets Trockadero de Monte Carlo regressaram a Portugal e o Espalha-Factos não pôde deixar de marcar presença no primeiro dos cinco dias de espetáculo no Centro Cultural de Belém.

Swan Lake, Don Quixote Pas de Deux, Esmeralda Pas de Six, Dying Swan e Raymonda’s Wedding foram os momentos interpretados nesta noite, num repertório clássico que, apesar da da sua vertente mais cómica, se mantém fiel no estilo, guarda-roupa e movimento.

Quando as luzes do auditório se apagam, espera-se a usual introdução. No entanto, o texto preparado apela logo à gargalhada, a começar pelas gracinhas com os nomes das bailarinas supostamente russas, como Jacques d’Aniels, Tatiana Youbetyoubootskaya e Helen Highwaters.

Uma hilariante apresentação de O Lago dos Cisnes inicia este espetáculo de quase duas horas. Os Les Trocks, nome pelo qual são carinhosamente conhecidos os bailarinos desta companhia, trazem para o palco uma técnica e naturalidade perfeitas.

Mais do que dançar em cima de umas pontas

Andar em pontas é um equilíbrio difícil e inacessível para muitos. Ainda mais para um homem, por questões anatómicas e de relação entre peso e força. Mas para estes talentosos bailarinos esta parece uma tarefa bem mais simples.

A subtileza e os gestos delicados, comuns neste tipo de dança, são reproduzidos de forma admirável nos corpos musculados, dentro de maillots e tutus. Por momentos, conseguimos mesmo esquecer-nos de que em palco estão apenas homens, tal a leveza e rigor com que dançam e ‘piruetam’ em pontas.

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Ao mesmo tempo, parodiam com alguns dos aspetos típicos no mundo do ballet clássico. A inveja e competição entre bailarinas que se empurram em palco, as situações de esforço extremo que resultam em queda, o denunciar de um passo mal dado ou de um pas de deux que não corre tão bem… Estas são fraquezas que os bailarinos ridicularizam e transformam numa fonte de humor, fazendo das suas apresentações não só momentos de beleza mas também de diversão.

Recorrendo à expressão corporal (mímica) e teatral os bailarinos conseguem então interagir com o público, enfatizando sempre esses momentos mais cómicos.

Cinco interpretações perfeitas, divertidas e muito emocionantes, com doses de romantismo e encanto certas, uma característica destes artistas de ‘ponta cheia’. No entanto, queremos destacar a mais intensa atuação e aquele que considerámos o momento da noite – Dying Swan -, cuja coreografia podes espreitar neste vídeo.

Les Ballets Trockadero e a libertação

O ballet é, por si só, uma atividade física muito complexa e complicada de executar. Possui uma forma altamente técnica e um vocabulário próprio. Alguns bailarinos treinam anos e anos para atingirem a perfeição, se sentirem glamorosos, inteligentes, bonitos e com a postura correta. Pensar nisto e ainda, ao mesmo tempo, em proporcionar gargalhados ao público, que é ainda mais difícil, faz do trabalho desta companhia um trabalho excecional e, sobretudo, diferente.

Além do entretenimento existe, porém, um outro objetivo no trabalho de 42 anos dos Les Ballets Trockadero de Monte Carlo. A conhecida companhia foi fundada em 1974, como consequência dos Motins de Stonewall, em Nova Iorque, que representaram o movimento de libertação gay.

Passados tantos anos, o conceito original apenas mudou um pouco. Mantendo-se a essência ativista, os Trockadero são agora considerados uma das melhores companhias de ballet clássico do Mundo e já não apenas um grupo de rapazes vestidos de bailarinas e em pontas no cimo de um palco.