Fotografia: Catarina Alves

Melanie Martinez na Aula Magna: birras e displicência

Chamam-lhe bebé chorona e é um choro estridente o primeiro som que ecoa na passagem de Melanie Martinez pela Aula Magna, em Lisboa. Cry Baby é o nome do seu disco de estreia, editado no ano passado, e serve de título também da sua primeira digressão mundial.

A cantora inicia o concerto com a faixa-título, aparecendo em palco saída de um berço de tamanho gigante. “They call me Cry Baby, Cry Baby / But I don’t fucking care“, canta. A sua estética é particular: como uma menina que cresceu muito depressa. Funde imagens dóceis de brincadeiras infantis com temas de gente grande – histórias de abuso, vício e desamores.

Em palco mostra-se também uma personagem de contrastes. O cabelo divide-se entre o preto e o loiro-platina e no corpo ostenta várias tatuagens. Em conjunto, chocam com os calções de bebé, o sutiã de cetim azul e com a transparência da camisa de noite.

O palco é o seu recreio. Há dois bolos de aniversário colossais, os blocos de construção têm letras do abecedário – escrevem “CRYBABY” – e sobre o berço pende um móbile com bonecos macabros. Acompanhada por dois músicos, com orelhas de coelho, avança para a música Dollhouse.

Esta foi a primeira música que lancei“, afirma. E pede: “Se souberem a letra, cantem comigo.” E o público sabe, claro. Os fãs, que esgotam os mais de 1600 lugares da Aula Magna, são – na maior parte – pré-adolescentes: uns sozinhos, alguns acompanhados pelos pais, muitos divertidos com o grupo de amigos. Na plateia, vêem-se laços nos cabelos, há madeixas coloridas de tons pastel e ursos de pelúcia saltitam nas mãos dos fãs mais fervorosos.

Durante o espetáculo, com duração de uma hora, Martinez dá voz a todas as faixas de Cry Baby, incluindo as favoritas Pity Party, Carousel Alphabet Boy. As cordas vocais da participante do The Voice não falham e a jovem soa tão cristalina como nas músicas masterizadas.

Muito boneca, pouco chorona

No entanto, esse brio sobrepõe-se à história e, com o decorrer do espetáculo, mitiga o meu entusiasmo. As expectativas diminuem quando me apercebo que Martinez está mais preocupada em soar bem do que em construir uma narrativa. Rodopia no relvado, mas falta teatralidade. Move-se sistematicamente de um lado para o outro, mas olha para o vazio, alheia ao público.

Estamos a falar de uma artista que se estreou com um disco estreitamente conceitual e que nos habituou a um cuidado estilístico enorme na sua apresentação e nos seus videoclipes. Mas a mulher que aparece em palco é plástica e sem vida. As histórias que narra são pessoais e trágicas, mas servem apenas como banda sonora de um ato onde não expõe qualquer vulnerabilidade.

As interações com o público são raras e ficam-se pelos “obrigada” e “cantem tão alto quanto conseguirem“. Entendo que seja tímida, algo que aliás já admitiu no Twitter, mas admito que esperava mais. Antecipava ser convidado para o seu mundo. Em Pity Party, Martinez canta “It’s my party and I cry if I want to” e eu acreditava ter recebido um convite para a festa. Em vez disso, ela despacha o alinhamento do concerto e canta música seguida de música, sem espaço para qualquer interação com os fãs.

Recorda: Melanie Martinez ensina o ABC no vídeo de ‘Alphabet Boy’

Infelizmente esta é a última música“, lamenta, antes de introduzir Mad Hatter. Para compensar deixa uma promessa: “No próximo ano volto com o meu novo disco.” Em uníssono, canta com o público: “All the best people are crazy” e, no seu País das Maravilhas, ela é a Alice. No final, sai a saltitar do palco como se corresse atrás de um coelho branco.

A plateia chama-a de volta e pede mais: os gritos fazem estremecer a Aula Magna. Ela regressa: “Posso cantar só mais uma?“, pergunta. E o público diz que sim. Com sabor a sobremesa, despede-se com Cake, no topo de um dos bolos de aniversário. Talvez fosse uma festa de desaniversário e, com o acender das luzes, percebemos: esta Alice prefere soprar as velas sozinha.

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