Comemora-se hoje o Dia Mundial do Cinema. Desde o dia que os irmãos Lumière revolucionaram o mundo com a invenção do cinematógrafo que o Cinema se tem vindo a cimentar como a forma de arte predileta de muitos de nós. Afinal, quem é que conseguiria viver sem a 7.ª arte?

A secção de cinema do Espalha-Factos juntou-se então para celebrar a data através de uma lista de sete obras que consideramos terem um papel determinante na evolução dos filmes até aos dias de hoje. Deixámos de fora títulos incontornáveis como O Mundo a Seus Pés ou Viagem a Tóquio para destacar outros de igual importância mas por vezes ofuscados; e decidimos ocupar os tronos de Chaplin, Hitchock ou Tarkovsky com diferentes mas não menos influentes cineastas por vezes não tão recordados.

Sem mais demoras, que comece a viagem pelo Cinema…

Um Cão Andaluz (1929)

un_chien_andalou2Tudo começou com uma conversa de café entre Luís Buñuel e Salvador Dalí. Após falarem sobre seus últimos sonhos, decidiram pôr mãos à obra e fazer um filme neles baseado. O resultado foi Um Cão Andaluz, marco do cinema surrealista e ainda uma das curtas-metragens mais memoráveis de sempre.

A imagem mais popular e recriada do filme é, sem dúvida alguma, a que acompanha este artigo: o cortar do olho de uma jovem mulher. Contudo, esta é somente a cena inicial; o que se segue é toda uma viagem por um imaginário indescritível, que o próprio Buñuel confessou não ter um significado concreto. O realizador afirmou, aliás, que a única maneira de entender a simbologia de Um Cão Andaluz é através da psicanálise. Foi, talvez, a primeira vez que o público se deparou com tamanho desafio no grande ecrã: o de visualizar uma obra cuja ambiguidade desperta todo o nosso subconsciente.

Escusado será dizer que o cinema experimental e surrealista muito ou tudo deve a Buñuel. No final de contas, é ele o pai do género, e é em Um Cão Andaluz que podemos perceber o porquê de tal título.

Matou (1931)

m_lorreNuma época em que os talkies usufruíam do som para construir um ambiente jovial e animado, na Alemanha um realizador ousou usá-lo para dar calafrios ao mundo do Cinema.

Esse realizador é Fritz Lang e foi no seu Matou que se assistiu a uma das primeiras ocasiões na 7.ª arte em que a sonoplastia andou de mão dada à narrativa, através de uma complexa banda sonora e de um dos primeiros usos do leitmotif no grande ecrã. Lang estava claramente à frente do seu tempo quando estabeleceu praticamente todas as regras da utilização de barulhos, silêncios, narração, etc. que hoje nos parecem nada mais que senso comum.

O mestre alemão construiu assim um thriller assustador, onde um simples assobio pode deixar-nos gelados por dentro. Imortalizou ainda Peter Lorre, que em Matou interpreta um dos mais desconcertantes vilões da história do cinema.

A Desaparecida (1956)

450298Ethan Edwards, interpretado por John Wayne, é um veterano da Guerra Civil: racista, irascível e mal disposto. Mas quando a sua jovem sobrinha (Natalie Wood) é raptada por uma tribo de índios, lança-se numa missão de salvamento para a resgatar.

É considerado universalmente como não só um dos melhores westerns de sempre, mas também um dos expoentes máximos do Technicolor (um dos mais populares processos de coloração da história do cinema) e da VistaVision (um formato que se pode considerar “avô” do 70mm IMAX, e que ainda hoje é utilizado em determinadas sequências que exijam efeitos especiais).

A Desaparecida é um dos clássicos dos anos 50 que mais influenciou a nova vaga de realizadores das décadas seguintes, estando Steven Spielberg, Martin Scorsese, Paul Schrader, Wim Wenders e George Lucas entre os seus “apóstolos” mais notórios. O seu uso de cor, personagens complexas e momentos de pura poesia visual e auditiva conjugam-se em 2 horas de magia, cujos efeitos ainda podem ser vistos numa qualquer sala de cinema perto de si.

2001: Odisseia no Espaço (1968)

eph9wqbj52ix1wppcjl16l2iujos76hjoa7l4229cinqsthfyhjw4d0w3c1qsdaiQue Stanley Kubrick é um marco na sétima arte desde que começou a fazer parte dela não é novidade. De uma vasta carreira cheia de clássicos e obras-primas, para celebrar o dia mundial do Cinema não poderia faltar a menção a 2001: Odisseia no Espaço – não só uma das suas melhores obras como uma das melhores peças cinematográficas alguma vez feitas. Em 1968, ainda antes de o homem ter conhecimento detalhado do espaço ou da forma como a Terra era vista dele, Kubrick foi lá e levou-nos com ele.

Qualquer tentativa de explorar toda a magnitude deste filme parece sempre insuficiente. Desde os planos que nos transportam pelos cenários da nave à banda sonora excecional (ou não estivéssemos a falar de Kubrick), o realizador norte-americano faz um ensaio sobre a evolução humana inserido num ambiente espacial credível, sem precisar de momentos de ação com monstros ou armas de laser.

2001: Odisseia no Espaço é ainda hoje uma grande influência nos filmes de ficção científica sobre viagens ao espaço e a marca que deixou no Cinema é visível desde o dia da sua estreia. Méliès ficaria orgulhoso.

Monty Python e o Cálice Sagrado (1975)

montypythonandtheholygrail_press_1A lenda do Rei Artur é recontada por uns rapazes britânicos sem muita experiência em cinema e com uma propensão monumental para a idiotice: os Monty Python.

Esta foi a primeira longa-metragem realizada pelos Terry’s da trupe de geniais saloios: e que maravilhosamente se saíram. Influenciando toda uma nova geração de comediantes, dando a volta a limitações de orçamento com gags inesquecíveis (os cocos são prova irrefutável) e levando o seu estilo de “profanidades com classe” a um público que não estava acostumado a tais maneirismos.

Com um orçamento inferior a 400 mil dólares e um retorno de 5 milhões (só em bilheteira), o filme foi um sucesso comercial e crítico, abrindo as portas para que este género de comédia fosse explorado mais a fundo: quer em cinema (O Rei dos Gazeteiros, O Grande Lebowski), quer em televisão (Os Simpsons, Family Guy).

Quanto aos Python, tiveram a possibilidade de continuar a trabalhar na 7ª arte com orçamentos mais avolumados e alcançando um estatuto de celebridades mundiais de estatuto incontornável até aos dias de hoje.

Oldboy – Velho Amigo (2003)

oldboy-106484lOldboy é, aparentemente, um clássico filme de vingança, onde a personagem principal acarreta a sua personal vendetta até ao fim do mundo, qual Conde de Monte Cristo, fazendo o que for necessário para ver a sua sede de vingança satisfeita. No entanto, Oldboy é muito mais que isso.

Este clássico sul-coreano é vingança, mas é uma vingança distorcida por hipnose e por Édipo, presenteando-nos com uma crueza na sua narrativa, e uma realidade na sua carnificina, que o elevam do seu género de thriller para algo muito acima. Porque todos sabemos que não precisamos de mais filmes de vingança em que se entra naquele estado meditativo tão cliché, se de facto a vingança irá trazer aquele estado de satisfação que tanto ansiamos.

Oldboy é selvagem. Oldboy é injusto. Oldboy deixa-nos a questionar se não preferiríamos viver num estado de inconsciência, do que numa verdade imperdoável. Oldboy dá a medir as consequências das nossas ações e a loucura das circunstâncias, de uma maneira tão brutalmente honesta, que comer um polvo cru torna-se algo mundano.

A Origem (2010)

inceptionUma das maiores obras de Christopher Nolan, A Origem é um marco evolutivo no cinema de ficção científica. Todo o plot é bastante original: não é todos os dias que nos deparamos com as peripécias de viagens entre sonhos, ou com as consequências das mesmas.

As características adjacentes a esta longa-metragem despoletaram questões existenciais, deram origem a um mar de diferentes interpretações para os seus acontecimentos, e, sobretudo, fez pelo seu género algo que não víamos desde o Matrix: pôs o desfecho da ação inteiramente nas mãos do espectador.

Porque é precisamente na ambiguidade do desfecho que está a beleza da obra. A Origem é a prova viva que o universo sci-fi é muito mais que os plots espaciais monótonos a que nos habituaram. A beleza da mensagem mascarada pelas peripécias de ação e viagens entre sonhos deste filme é tão singela, mas de tão vital importância ao mesmo tempo: somos livres de escolher a nossa própria realidade, seja esta qual for, mesmo que o pião continue a girar.

Artigo redigido por Diogo Simão, Patrícia Nunes, Rodrigo Umbelino e Sebastião Barata