Ash & Ice, o recente disco de originais da dupla rockeira The Kills, é o mote para a noite, mas a passagem por temas mais antigos da banda revelou-nos que por aqui há amor até à morte.

A baixa de Lisboa fervilha. Há muitos turistas pela Rua das Portas de Santo Antão, mas hoje a malta do rock invade a zona. Envergam t-shirts pretas, calças justas e botas de biqueira. Contrariam os que declararam a morte do rock e mostram como amores antigos têm sempre um lugar especial no coração dos portugueses. Ah, e os novos também.

É de certeza isso que sente Georgia, miúda inglesa que assinou recentemente pela Domino Records e que de braços e pernas coordenados se multiplica na secção rítmica de canções construídas com nervo e dedicação. Rende-se ao Coliseu que vai enchendo e que responde na mesma moeda. Inicia-se aqui, quase de certeza, uma bela amizade.

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Há um certo ambiente de festa no fim do concerto de Georgia. Reencontram-se amigos que não víamos desde os festivais de verão, celebramos o rock, relembramos aquela vez no Festival Sudoeste, no tempo em que ainda havia os White Stripes e…. Apagam-se as luzes. No palco entram os músicos que se ocuparão dos teclados e da bateria que irão acompanhar Alison “VV” Mosshart e Jamie “Hotel” Hince.

É aqui que queremos estar, mas estamos em todo o lado

Quando entram em palco – e que animais de palco – o barulho é estridente e Heart of a Dog, tema do recente Ash & Ice, é cantarolado do princípio ao fim com promessa de que o refrão entoado – “I’m loyal” – é mesmo para cumprir.

Quando de imediato se atiram a URA Fever, retirado de Midnight Bloom, disco a que ainda haveriam de regressar imensas vezes, está visto que se está a preparar uma noite memorável para todos. Jamie humedece as palhetas que atira às primeiras filas, Alison serpenteia em torno do microfone, e Kissy Kissy devolve-nos a crueza de Keep on Your Mean Side, o primeiro disco da dupla.

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Mais dois temas do novo disco e Black Balloon, tema que celebra a dor quase em tom festivo, sai das gargantas, das nossas e das deles e há uma melancolia delicodoce que paira sobre o Coliseu. Com Doing it to Death permanecemos nesse estado de realismo transcendental: é aqui que queremos estar, mas estamos em muitos lados; a guitarra de Jamie e a interpretação demoníaca de Alison levam-nos a toda a parte.

Baby Says e DNA transportam-nos de volta a Blood Pressures, possivelmente o disco mais consensual dos The Kills para de seguida voltarmos a Midnight Bloom com a raivosa e acelerada Tape Song.

O amor é uma doença

Neste momento há muito suor e se calhar algumas lágrimas, não sabemos bem, tudo se mistura, como a sensualidade quase dolorosa de Echo Home. E entretanto é Blood Pressures que volta a tomar conta do concerto: Future Starts Now, Pots and Pans com Alison a ajudar na percussão e o encadeamento perfeito, experimentalista e de fazer acelerar o coração – Monkey 23, da banda sonora de De battre mon coeur c’est tombé termina a primeira parte do concerto com Alison a libertar toda a sua garra.

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Qual felino fofinho, Alison regressa em modo acústico para nos espremer um pouco mais as emoções. That Love remete-nos para a nossa condição de amantes e pega perfeita com Siberian Nights e Love is a Deserter. Só para nos lembrar que o amor é uma doença e se há coisa que pode ajudar a apaziguá-la é um ingrediente único: a música.

Sour Cherry, a encerrar, atira-nos de volta para 2008 e manda-nos para casa – “G-g-g-go home, go home, it’s over” mas sabemos que este fim é um princípio qualquer. Eles abraçam-se e beijam-se. Nós também. O diabo anda à solta aqui no Coliseu, mas na sua caraterística devastação o que deixa desta vez são sobretudo cicatrizes de amor.

Fotografias de Catarina Alves