Há dias em que nos lembramos dos motivos pelos quais deve existir um serviço público de televisão. Admito que, no meu caso, são muitos esses dias, não fosse eu um espectador atento da programação televisiva e um consumidor difícil de contentar.

Esta segunda-feira, a RTP1 estreou na televisão aberta o documentário Before The Flood, narrado e protagonizado por Leonardo DiCaprio. Às 21h00, pleno horário nobre, a televisão estatal programou um alerta pungente contra as alterações climáticas.

Os números de audiência – 3,9% de audiência média e 8,9% de share – provam que a escolha não teria sido possível se o propósito fosse ganhar audiências, mas o impacto da opção não se esgotará certamente aí. Foi aberto um espaço de debate sobre o assunto no Prós e Contras, que durante uma hora também contribuiu para chamar a atenção para as nossas responsabilidades ambientais.

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Olhar para o público tendo em conta uma missão de o formar e estimular intelectualmente não devia ser uma missão exclusiva dos canais públicos, mas é, decerto, uma das principais razões pelas quais devem existir veículos cujos objetivos primordiais não são a conquista de receitas comerciais.

“Todos tememos que, depois do dilúvio, não sobrasse RTP”

Todos tememos que, depois do dilúvio dos últimos anos, não sobrasse RTP ou serviço público de comunicação. Todos sabemos o resultado que deu quando o operador de serviço público foi constrangido a olhar para os números pelos números, sem pensar nas missões principais que estão estabelecidas no seu contrato de concessão.

Não quero com isto dizer que seja papel da RTP demitir-se de cativar os espectadores ou de fazer uma programação que seja capaz de os atrair. Não há serviço público sem público. No entanto, o caminho tem de ser outro, diferente do dos privados. A qualidade também pode, e deve, ter audiência e espaço. Trazer Before The Flood para o principal horário da televisão é, em última análise, a melhor maneira de poder dar público a uma aposta tão ousada – e quase quatrocentos mil espectadores não é assim tão pouca coisa.

Tenho a certeza que todos aqueles que o puderam ver – tal como eu – ficaram agradecidos à televisão pública por ter esse arrojo e atrevimento. Agradecemos, principalmente, o facto de não olharem para nós como uma massa anódina e sem gosto, de não nivelarem por baixo. E isso começa a ser muito raro na televisão generalista em Portugal.