Mia Couto e José Agualusa escreveram um texto em conjunto. Desta vez, as palavras dos dois escritores podem ser ouvidas na Comuna Teatro de Pesquisa em O Terrorista Elegante. Simples e simbólica a peça aborda uma questão tão antiga como atual: Afinal, até quando temos liberdade? E tem uma resposta: Enquanto os pássaros continuarem a voar, ela ainda existe. Ah, e com vinagre à mistura. 

Há uma notícia. Um angolano foi preso em Portugal por ligações a uma organização terrorista. Um dos grandes medos do Ocidente: a Islamic State of Iraq and Syria (ISIS). O Inspetor Laranjeira (Virgilio Castelo) responde prontamente às questões do jornalista na televisão, sem dar muito informação. Até porque não a tem. Apenas tem suspeitas. Quais os fundamentos? O terrorista transportava cinco litros de vinagre quando começou a correr pela pista de aterragem dos aviões. Ah, e há um livro chamado Minas e Armadilhas.

O caso parece complicado para Charles Poitier Bentinho (Miguel Sermão). Este africano que consulta pessoas com problemas e receita mesinhas para combater demónios está com problemas.

A interrogá-lo, além do impertinente e racista Inspector Laranjeira, tem a Agente Lara (Ana Lúcia Palminha) e a Agente Maggie (Rita Cruz). Lara está comprometida com “demónios” do passado, onde existe um morto. Maggie também é uma refém dos anos que passaram e de guerrilhas no Sudão. No meio de tragédias, resta a boa disposição e os fatos bem passados de Bentinho.

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O Inspector Laranjeira já esteve em Luanda quando esta era Nova Lisboa. Agora coordena o caso de um angolano “terrorista” Foto: Bruno Simão

Para si, a liberdade está representada pelo pássaro que desenhou na parede e nos que cantam lá fora, a voar no céu. Ao longo dos interrogatórios, os inspectores percebem que Bentinho é inocente e que nunca fez parte da organização terrorista, apenas se apaixonou e foi à Síria. Mas há burocracias a cumprir, há a Central Intelligence Agency (CIA)  pelo meio e suspeitas que não podem ficar no ar.

O Terrorista Elegante foi um convite da Comuna e de João Mota a José Eduardo Agualusa e Mia Couto. Aceitaram, como já o tinham feito para o Trigo Limpo Teatro ACERT. A criação foi feita em Moçambique e o ângulo da peça foi escolhido quando um dos escritores levou um recorte de um jornal português com a notícia da prisão em Lisboa, de um jovem angolano com ligações ao Estado Islâmico. A João Mota coube a encenação.

As palavras cheiram a África

O texto é simples. As palavras conduzem-nos à essência da liberdade. Quase que cheira a África no final do espetáculo, ou pelo menos à liberdade que tantos africanos anseiam. A duração da peça é curta. As palavras de Bentinho ficam na memória. É disto que se faz O Terrorista Elegante: leveza.

É quase como se os pássaros que o angolano evoca percorressem o drama. Se uma das interpretações tiver de ser destacada será a de Miguel Sermão. Expressivo e autêntico são duas das palavras que definem o seu papel. Desde os 17 anos em Portugal, o angolano tem um dos papéis da sua carreira com este Bentinho. Realmente alguém que é considerado “terrorista”, mas com a sua elegância, só se for da liberdade.

Foto: Bruno Simão

Miguel Sermão tem com Bentinho um dos papéis da sua carreira Foto: Bruno Simão

O Terrorista Elegante pode ser visto na Comuna Teatro de Pesquisa até dia 18 de dezembro, de quarta a sábado às 21h30, e domingos às 16h. Vê mais informações sobre os bilhetes, aqui.