Caveman, que detém o recorde como o espectáculo a solo com mais tempo em cena na história da Broadway, já estreou em Lisboa e está em cena até 27 de dezembro. O texto de Rob Becker, agora interpretado por Jorge Mourato, revela-se uma peça astutamente hilariante sobre a forma como homens e mulheres se relacionam.

Começam por ser projetadas imagens de primatas e, pouco mais tarde, conta-se a história de um casal, não de primatas mas de seres humanos, através da voz de um narrador que não se vê. Quando vemos a mulher retratada a atirar roupas varanda fora, desconfiamos de que o narrador, que pede cuidado para uma estátua, esteja mais perto, ali mesmo, em palco.

Caveman, o homem que não quer pensar no meio da rua

Jorge Mourato, Jorge Miguel na peça, está à frente de uma porta a pedir à mulher Teresa que o deixe entrar. “Não, não quero pensar seriamente em nada no meio da rua”, afirma, enquanto o público se começa a rir sem demoras. Envergonhado, quebra a quarta parede, a imaginária que separa o ator da plateia, e pede para que não fiquemos a admirar a sua humilhação. “Não há aqui nada para ver. Nunca se zangaram com a vossa mulher?”

É óbvio que ninguém se vai levantar, por isso Jorge decide contar o que aconteceu e como as mulheres acreditam que os homens são todos uns sacanas com síndrome de Peter Pan. Para que não pareça só um discurso de vitimização, recorre-se a uma aula de história para explicar como os passados do homem e da mulher são tão diferentes. Eles eram caçadores, nós recoletoras. Essas funções iniciais ainda hoje nos perseguem, como instintos, insiste.

Através de vários exemplos, o homem é apresentado como alguém que vive pelo desafio e com apenas um objetivo, daí não conseguir concentrar-se em mais do que uma tarefa ao mesmo tempo. Razão pela qual, quando estão a ver televisão, sobretudo futebol, o mundo deixa de existir. A mulher, por outro lado, sempre conheceu o espírito de cooperação e, desde os seus tempos de recoletora, que necessita de observar tudo e recolher o máximo de informação.

Talvez esta peça peque de alguma forma. A verdade é que o passado não pode nem deve ser desculpa para determinados comportamentos, quer digam respeito ao homem ou à mulher. Ainda assim, as histórias que Jorge Mourato conta à laia de argumento são, sem qualquer sombra de dúvida, muito divertidas. Qualquer pessoa será capaz de se identificar com as situações descritas, independentemente do seu ponto de vista.

O homem que acha que ganhou quando a mulher faz as tarefas domésticas sem sequer discutirem primeiro (quando, na verdade, está só na esperança de que o seu companheiro a ajude), as mulheres que falam sem parar e que acham estranho quando os seus maridos não têm detalhes para contar, as formas diferentes de ir às compras, a verdade sobre os homens não quererem fazer conchinha e a importância da diferença entre beje e cor de champanhe.

Um texto hilariante que nos quer provar que todos tempos defeitos, falamos demais ou falamos de menos, e que sim, somos diferentes, mas podíamos ser um bocadinho mais felizes se nos tentássemos entender melhor.

Um texto hilariante que é um sucesso da Broadway

Caveman foi escrita ao longo de um período de três anos, durante o qual o autor realizou um estudo sobre antropologia, pré-história, psicologia, sociologia e mitologia. O espetáculo estreou em São Francisco em 1991 e, mais tarde, mudou-se para Dallas. Após um ano – passando a aclamado sucesso – seguiu para representações esgotadas em Washington DC, Filadélfia e Chicago, antes de se estrear na Broadwayem 1995.

Após estar em cena por dois anos e meio e 702 representações no Helen Hayes Theater, entrou para o livro de recordes como o espectáculo a solo com mais tempo em cena na história da Broadway. Desde então, Caveman tem estado em digressão em salas por todo o mundo.

Em Portugal, Caveman estreou com grande sucesso em 2009 e volta agora aos palcos para ver ou rever. O espetáculo estará em cena no Teatro Villaret todas as terças-feiras, às 21h30, até dia 27 de dezembro. O bilhete custa 12 euros na Ticketline.