Nos dias 28 e 29 deste mês, na ilha de São Miguel, decorre a Maré Negra – Mostra de Cinema de Terror e Fantástico. Espalha-Factos esteve à conversa com Henrique Ferreira, o Diretor Artístico da mostra, para saber mais sobre a origem do projeto, motivações e planos para o futuro.

Espalha-Factos: O que é a Maré Negra? 

Henrique Ferreira: A Maré Negra propõe-se a mostrar algumas das melhores obras de terror produzidas internacionalmente nos últimos anos e refletir sobre os conceitos habitualmente associados a esta estética, mais notoriamente, através da exibição do documentário 48.

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EF: Como surgiu a ideia de criar a Maré Negra?

HF: Surge na sequência de um ciclo dedicado ao Cinema em domínio público no Bar/Galeria Arco 8, em Ponta Delgada. Começado em 2013 e ainda a decorrer, este ciclo dedicou-se desde o início a múltiplas estéticas e autores, mas teve sempre uma larga fatia dedicada ao terror. Foram projetados clássicos do género como O Gabinete do Doutor Caligari, Carnival of Souls e A Noite dos Mortos-Vivos, e outros bem menos recomendáveis como Manos: The Hands of Fate e The Giant Gila Monster, que evidenciaram que a afluência era superior quando o género era o “terror”. O desejo de passar esta experiência para uma sala de cinema era o passo seguinte natural.

EF: Quais são as expectativas?

HF: Hoje [dia 28] é o primeiro dia, portanto, a expetativa é que se registe uma boa afluência de público às sessões, em conformidade com o interesse que tem gerado junto das pessoas.

EF: Na seleção, além dos filmes serem do género terror e fantástico, foram realizados nos últimos anos. Qual foi a motivação por trás dessa escolha?

HF: É importante para a Maré Negra vincar o atual período estético que vive o cinema de terror, e em que medida tem características próprias do seu tempo. Para tal basta ver que as protagonistas dos três filmes de ficção não se cingem ao protótipo da “donzela em perigo aguardando pelo cavaleiro que a vem salvar”. A sua caracterização é real, robusta e há uma preocupação efetiva em que não sejam apenas marionetas.

EF: Também é de fazer notar que o filme 48, de Susana Sousa Dias, documenta a realidade de presos políticos, na altura do Estado Novo. Sendo que não é um filme de terror convencional, o que vos levou a incluí-lo? 

HF: A seleção do 48 acaba por ser uma pequena provocação. Numa altura em que a temática da tortura atinge uma nova atualidade a nível mundial, 48 leva-nos a refletir sobre o legado português nesta matéria e sobre as suas consequências nos dias de hoje, e se o verdadeiro terror não é aquele que se escreve sem guião, sem estrelas e bem longe dos holofotes do cinema.

EF: Atualmente, há algum desprestígio associado ao género terror. Acham que a mostra poderá demonstrar que essa ideia está errada? 

HF: Esse desprestígio de algum modo sempre esteve associado ao terror, uma vez que, em regra, é visto como uma produção de série-B e funcionalista (provocar o susto acima de tudo). Mas se elencarmos nomes que têm no currículo pelo menos uma produção no campo do terror, vamos encontrar alguns dos maiores e mais bem-sucedidos nomes da história do Cinema como os de F.W. Murnau, Carl Th. Dreyer, Robert Wise, Kenji Mizoguchi, Ingmar Bergman, Roman Polanski, Werner Herzog, Stanley Kubrick, David Cronenberg, Francis Ford Coppola e Peter Jackson.

Nisso o “terror” encontra um paralelo com a banda-desenhada, no sentido de constantemente ter de fazer valer o seu mérito estético por oposição a um desprestígio que já não tem nexo. Basta recordar o facto de uma instituição insuspeita como a Cinemateca Portuguesa já ter dedicado ciclos a autores deste género como Dario Argento, Mario Bava, Kiyoshi Kurosawa, George A. Romero e John Carpenter.

“Esse desprestígio de algum modo sempre esteve associado ao terror, uma vez que, em regra, é visto como uma produção de série-B e funcionalista (provocar o susto acima de tudo). Mas se elencarmos nomes que têm no currículo pelo menos uma produção no campo do terror, vamos encontrar alguns dos maiores e mais bem-sucedidos nomes da história do Cinema.”

EF: Na carta de intenções é expresso o desejo de contribuir para a formação de um público mais jovem para o contexto da produção recente. Porquê? Como? 

HF: A seleção do 48 é um contributo para fugir do cânone do documentário associado ao Portugal da ditadura excessivamente escolástico e sem refletir as vozes dos anónimos que foram alvo de perseguição. A projeção de produções recentes é relevante para que os públicos mais jovens vejam estes filmes como seus, reflexos da sua geração e não apenas uma reposição de clássicos do género.

Ademais, atualmente, a possibilidade de visionar um filme numa sala de cinema e não na sala de casa, ganhou um carácter quase didático, sobretudo numa região como a nossa onde nem sempre é possível aceder comercialmente às produções além dos grandes blockbusters.

EF: Também demonstram ambição de expandir o vosso projeto. O que vos leva a querer ir mais longe? Como pensam ir mais longe? 

HF: É natural que qualquer projeto possua a ambição de crescer. Com a Maré Negra não será diferente. Apesar desta nossa ambição, é importante dar um passo de cada vez, como é o caso desta 1ª Mostra.

EF: Os Açores têm potencial para mais mostras e festivais de cinema?

HF: Os Açores, com o incremento de visibilidade que adquiriram nos últimos anos, tornaram-se um espaço com potencial para tal, fruto também da renovação da nossa população que já cresceu com outras necessidades e hábitos culturais consentâneos com o período contemporâneo. Festivais como o Walk&Talk e o Tremor já refletem esse desejo, mas noutras áreas culturais. No âmbito do cinema ainda há algum caminho por explorar. A Maré Negra pretende dar o contributo para colmatar essa lacuna que muitas vezes se reflete na pouco oferta de locais devidamente equipados para o efeito.