DocLisboa'16: exorcizar demónios e trepar a árvore genealógica

DocLisboa’16: exorcizar demónios e trepar a árvore genealógica

O DocLisboa não poupa nas emoções fortes e prova disso mesmo foram Liberami e A Family Affair, os dois principais destaques de quarta e quinta-feira, respetivamente. É destas duas obras que falamos hoje, no dia em que o festival irá passar Nos Interstícios da Realidade ou o Cinema de António Macedo na sua sessão de encerramento.

Liberami – 3/10

liberami-2-e1475233198420Na Sicília, um padre realiza exorcismos quase diariamente, numa comunidade para a qual o “mal-estar” é sempre associado à “possessão”.” É esta a premissa de Liberami, documentário italiano que toca num tema mil vezes já dissecado no campo da ficção, mas que raramente temos oportunidade de conhecer as it is.

Parece-vos interessante? Também a todos os que estiveram no Cinema São Jorge esta parecia uma proposta irrecusável. Infelizmente, aquilo com que nos deparamos em Liberami é uma série de episódios e de protagonistas unidos sem grande coesão, num documentário mais próximo do reality show do que do cinema. Por isto entenda-se tudo o que de pior há no universo da relity-TV: histerismo, voyeurismo e, em determinadas cenas, uma falta dessa tal realidade (alguns momentos parecem encenados perante as câmaras).

Não parece sequer haver um propósito para o filme, uma finalidade, uma tentativa de explorar a relação entre “mal-estar” e “possessão” da comunidade siciliana. Federica di Giacomo filma crentes a rebolarem pelo chão da igreja, uma jovem a babar-se ao colo dos pais enquanto estes a benzem, um drug dealer que snifa coca em escadas públicas para no dia seguinte o encontrarmos a confessar-se ao padre; mas a realizadora esquece-se de dar seguimento a qualquer ideia que quisesse desenvolver com a apresentação destas imagens, esvaziando-as assim de qualquer significado. Restam-nos cenas involuntariamente hilariantes, nas quais assistimos a exorcismos por telefone, para que a visualização de Liberami não seja totalmente enfadonha.

A Family Affair – 9/10

afa-still-2Marrianne Hertz foi, em tempos, uma femme fatale relativamente famosa na Holanda. Entregou os seus dois filhos, René e Rob, a um orfanato para os retomar nos braços dois anos depois. Aquilo que parecia ser um novo começo transformou-se numa vida familiar com muitos solavancos, já que Marrianne nunca se esforçou em ser a típica mãe atenciosa e presente. Quando emigrou para a África do Sul sem aviso, René tornou-se num adulto solitário com sinais de autismo e Rob formou a sua própria família, convencendo mulher e filhos que era órfão. Um desses filhos é Tom Fassaert, realizador que há cinco anos arrecadou o Prémio Universidades do Doc com An Angel in Doel e que regressa agora ao certame com este A Family Affair.

Fassaert parte para a África do Sul para conhecer a sua avó, agora com 95 anos de idade. O que espera lá encontrar nem ele sabe: anos de afastamento e uma família claramente amaldiçoada pela matriarca fazem com que o reencontro seja imprevisível. Marrianne também não ajuda: ainda que bem conservada, jovial e claramente à vontade perante as câmaras, a ex-modelo nunca segue um caminho certo no seu discurso e nas suas opiniões, consequência talvez do seu espírito manipulador e teimoso. Nunca é claro se as suas confissões e confrontos com o passado são genuínos ou apenas mais uma peça no puzzle de ilusões, desilusões e fugas da sua família, já que os seus sentimentos oscilam entre esporádicos sinais de arrependimento (autêntico, à primeira vista) e uma fria e chocante indiferença perante os seus descendentes.

Assistimos a tudo pelos olhos de um realizador que também está confuso no meio de todo este caminho, querendo simultaneamente aproximar-se de uma figura fascinante que é a sua avó enquanto tenta manter uma distância considerável para não cair numa qualquer armadilha emocional. Fassaert atreve-se a realizar um documentário íntimo, sensível e absolutamente desolador quando abre as feridas mais profundas da sua família. O resultado é A Family Affair, um dos pontos mais altos do DocLisboa’16, que bem pode valer ao cineasta holandês novo prémio meia década depois.

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