Não houve grande consenso em torno da atribuição do Grande Prémio de Cannes 2016 a Tão Só o Fim do Mundo. Foi, certamente, “um dos momentos mais polarizantes do festival” – eufemismo que a imprensa da especialidade fez questão de repetir vezes sem conta, ao longo das vinte e quatro horas que se seguiram ao discurso de aceitação de Xavier Dolan.

Entre os críticos, ouviram-se muitos (demasiados) apupos; e nas redes sociais não faltaram “veredictos” acerca do filme que escondiam, com maior ou menor eloquência, uma retórica ad hominem francamente hipócrita ou, no mínimo, incongruente.

De que outra forma poderíamos descrever esta mudança de opinião tão súbita? É que, em 2014, Dolan recebia nesse mesmo festival uma aclamação quase universal pelo seu igualmente histérico Mamã, com poucas vozes discordantes e muitos elogios papagueados até à exaustão. Porém, aqui estamos: Tão Só o Fim do Mundo fez Dolan cair de um pedestal onde talvez nunca deveria ter sido colocado.

É uma pena, porque há no cinema do canadiano pequenos triunfos de estilo e execução que merecem uma outra atenção que não a do aplauso entusiástico ou a do prémio precipitado. Diríamos, também (e sem que isso lhe retire algum mérito), que o sucesso de Dolan resulta, em parte, da aridez que o rodeia: a emoção desregrada dos seus filmes, que não hesitam em resvalar para dramas de neuroses, é, apesar de tudo, o sintoma de um profundo desejo de comunicar, vontade essa que contrasta positivamente com o género de indiferença solipsista que hoje aflige muito do academismo arthouse.

“Tão Só o Fim do Mundo fez Dolan cair de um pedestal onde talvez nunca deveria ter sido colocado.”

Em Mamã, ele havia aperfeiçoado esse desequilíbrio hormonal e já não receava mostrar-se ridículo cada vez que o peso do melodrama parecia estar prestes a fazer desabar o seu filme. Com Tão Só o Fim do Mundo, Dolan retoma alguma da seriedade psicodramática de Tom na Quinta, e não sabe muito bem onde e quando a deve aplicar. O produto final dispara, por isso, em várias frentes.

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Ora temos a gritaria do costume – e que divertido é pensar que Dolan reuniu um elenco tão estrelado (Vincent Cassel, Léa Seydoux, Marion Cotillard…) só para depois o submergir numa orgia de berros e insultos –, ora temos momentos mais ponderados, sensíveis ao silêncio e à dramaturgia sem fogo-de-artifício.

A pontuar tudo isto estão os breves videoclipes que, tal como sucedia com Mamã, são inteligentemente usados para desarmar até o mais cético dos espetadores, religando-o, ainda que por escassos segundos, ao coração emocional do filme. E são pouquíssimos os cineastas capazes de coreografar sentimentos genuínos (isto é, sem ironias pretensiosas) ao som de um banda-sonora tão desavergonhadamente trash pop como a Dragostea Din Tei (isso mesmo, a Mai Ya hee…) que se ouve em Tão Só o Fim do Mundo.

“Um largo e inconsciente gesto de recusa (…)”

Conclusão: o cinema de Dolan cada vez mais se assume como um largo e inconsciente gesto de recusa: a recusa da auto-objetivação, a recusa em olhar criticamente para consigo mesmo e refrear essas inclinações para o kitsch, para um lirismo desmedido e mais que óbvio nas suas intenções.

Tão Só o Fim do Mundo partilha com Tom na Quinta o tema da visita. A diferença é que, se em Tom na Quinta, a personagem de Dolan visitava um lugar que lhe era interdito (a casa assombrada de um amante falecido), em Tão Só o Fim do Mundo, Louis, dramaturgo que sofre de uma doença terminal, regressa aonde nunca verdadeiramente esteve: a casa da família que abandonou, um passado que deixou em suspenso durante doze anos.

É com o propósito de falar do tempo que lhe resta que Louis empreende essa viagem que lhe é insuportavelmente íntima. E quando chega a casa com a terrível revelação a fazer, logo se vê enredado numa complexa birra que atrasa os seus planos: a birra dos irmãos e da mãe que o estranham, que não lhe perdoam a ausência e que o recebem com grande relutância sob a máscara de uma aparente saudade.

Teimoso e enervante, o filme é também ele uma grande birra à qual assistimos num misto de fascínio e aversão. Será assim tão diferente de Mamã? A resposta é um evidente “não”. Tão Só o Fim do Mundo ganha em dimensão aquilo que perde em desinibição, porque nos quer falar de coisas maiores e mais difíceis. E, se ainda não é desta que Dolan nos convence por completo, reconfortamo-nos, pelo menos, ao ver que a sua invulgar intuição cinematográfica permanece intacta.

6/10

Ficha técnica
Título: Juste la fin du monde
Realizador: Xavier Dolan
Argumento: Xavier Dolan (baseado na peça homónima de Jean-Luc Lagarce)
Elenco: Nathalie Baye, Vincent Cassel, Marion Cotillard, Léa Seydoux, Gaspard Ulliel
Género: Drama
Duração: 97 minutos

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