Na passada terça-feira, a Culturgest recebeu várias sessões inseridas em diferentes categorias do festival. O Espalha-Factos destaca Rat Film, candidato na Competição Internacional, e I am the Blues Having a Cigarette with Álvaro Siza, ambos incluídos na secção Heart Beat.

Rat Film – 6/10

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O estreante Theo Anthony reorganiza a cidade de Baltimore a partir da sua população de ratos. Filmando de perto os roedores, tanto em caixotes de lixo como na casa de quem os adota, o fotojornalista norte-americano contrapõe “maps to rats, ou seja, a organização da metrópole relativamente ao modo de vida dos roedores. Num paralelismo assumido de questões raciais da sociedade e do tratamento que os humanos dão aos pequenos animais, Anthony filma situações do quotidiano de quem partilha o seu espaço com ratos e ratazanas e recorre a profissionais de desinfestação para resolverem o problema, ao mesmo tempo que coloca em análise a evolução da segregação social da cidade de Baltimore, desde o século XX.

Mesmo pecando na organização e na correlação entre os assuntos que formalizam o paralelismo, Theo Anthony realiza um documentário interessante que, sem filtros, se coloca no contexto das questões raciais que têm preenchido a atualidade dos Estados Unidos da América.

I am the Blues – 7.5/10

Daniel Cross filma, num registo simples, uma viagem à cultura musical Blues bastante satisfatória. Bobby Rush, Jimmy “Duck” Holmes, Lazy Lester, Carol Fran e Little Freddie King são alguns dos diversos nomes sonantes que fazem parte dos testemunhos que definem o que e quem são os Blues. E o que entendemos é que não existe separação entre ambos. Os Blues são, sem dúvida, quem os canta.

Sem recorrer a planos ou montagens pomposos, Cross conseguiu cumprir aquilo a que se propôs: pôr em evidência os laços familiares e a identidade de quem não só canta como vive os Blues. Como nenhum outro estilo musical, entendemos que existe uma ligação muito forte e carinhosa entre os artistas e que a vida que levam raramente se separa da identidade que criaram para levar para os palcos. Todos eles são the Blues. Os que vêem em Muddy Waters uma grande influência ou os que fizeram sucesso com um estilo próprio, como Barbara Lynn, entregam-se de coração à música, da mesma forma que este documentário consegue tocar no dos que, mais ou menos, são aficionados pelo género musical.

Having a Cigarette with Álvaro Siza – 5/10

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Uma hora à conversa com o mais importante arquiteto português e um dos mais reconhecidos no mundo é aquilo que Having a Cigarette with Álvaro Siza nos oferece. Siza Vieira abre-se num documentário que nos apresenta à sua forma de trabalhar e pensar no ramo da arquitetura, bem como à sua própria personalidade, naquele que é um raro registo do seu lado mais íntimo.

O alemão Iain Dilthey assina uma realização simples mas eficaz, ao intercalar as reflexões de Siza Vieira com as suas obras mais imponentes. O arquiteto surge como um excelente orador e leva-nos para dentro do seu universo através de um discurso cativante, mesmo para aqueles não muito familiarizados com a sua área. Contudo, e apesar da duração curta, não deixa de haver momentos mais enfadonhos. No final de contas, Having Cigarette with Álvaro Siza é só isso: vê-lo a fumar e a falar de um tema relevante mas que nunca nos prende a 100%, dada a forma insonsa como nos aparece ecrã. Após um dia onde vimos Edgar Pêra provar que é possível transformar meras entrevistas em obras únicas de excelência, o documentário de Dilthey sabe a pouco.

Artigo redigido por Patrícia Nunes e Sebastião Barata