No quarto dia do festival do cinema do real, o DocLisboa trouxe sessões dedicadas ao deslumbre das instâncias da vida, como a família, as viagens e a política, com a presente lembrança da sua inevitável finitude.

Nas sessões para a Competição Portuguesa, o Cinema São Jorge recebeu, entre outros, A Cidade onde envelheço de Marília Rocha Cruzeiro Seixas – As Cartas do Rei Artur, de Cláudia Rita Oliveira. Destacamos também as sessões recebidas pelo Grande Auditório da Culturgest com Calabria, de Pierre-François Sauter na Competição Internacional, e Paris 15/16 de Teresa VillaverdeThe Lives of Thérèse, de Sébastien Lifshitz, inseridas na nova secção do festival, Da Terra à Lua.

Calabria – 7/10

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Pierre-François Sauter realiza este road-movie sobre dois cangalheiros imigrados na Suiça, que partem em viagem com destino a Gasperina, em Itália, para entregar o corpo de um falecido emigrante italiano. Jovan, um cigano servo, e José, um português filho de pais também emigrantes, conduzem a carrinha funerária. Entre o volante e as conversas entre ambos, conseguem, felizmente, transportar-nos para fora do ambiente rodoviário, tornando possível assistir atentamente a todo o filme.

Sem nunca deixarem de lado o objetivo daquela viagem, os protagonistas introduzem-nos numa deslocação com paragens pelas instâncias da vida, do amor à cultura, equilibradas pelo bom humor de Jovan e pela consistência do português José, ambos apaixonados pela sua pátria natal. Se, por um lado, só conhecemos o falecido depois da sua morte, ficamos a conhecer Jovan e José no caminho que juntos percorrem e onde estabelecem questões que permitem alargar e dar infinidade à sua história, mesmo encontrando-se num ambiente que tem a constante presença da morte.

Pierre-François Sauter faz um genuíno retrato do deslocamento de duas personagens reais que, habituadas a “tratar” da morte, homenageiam o falecido através da celebração da vida.

The Lives of Thérèse – 6/10

Inserido na secção Da Terra à LuaThe Lives of Thérèse é o mais recente projeto de Sébastien Lifshitz, que prima por explorar temas liberais e relacionados com a homossexualidade. Para este documentário, Lifshitz procurou fugir à comum história biográfica, focando-se no corpo e na mente de Thérèse Clerc, na fase terminal de uma doença incurável em que se encontrava na altura.

Tal como afirma no início do documentário, Thérèse sugere que este seja visto como uma sequela do anterior filme de Liftshitz  Os Invisíves (2012) -, na medida em que retrata a vida de alguém que também sempre esteve à frente do seu tempo.

Logo no início somos embalados para a vida de uma mulher multifacetada, facto que não é forçadamente mostrado. Enquanto vemos uma Thèrése atual, debilitada e em esforço para conseguir realizar pequenas lutas diárias contra o seu estado de saúde, é feita uma caracterização da Thérèse que cresceu numa família tradicional, conservadora e burguesa, e aos 40 anos decidiu abraçar a vida política, através da militância e do feminismo. Thérèse protagoniza a anti-estagnação, substituindo a crise de meia idade por um renascimento pessoal, que a definiu até ao fim dos seus dias.

Liftshitz supera assim a base biográfica do seu projeto, ao apresentar-nos as vidas de Thérèse na sua forma mais pura, não deixando de fora nenhuma fragilidade ou defeito.

DocLisboa continua até dia 30. Para hoje destacamos o documentário de Augusto M. Seabra José Nascimento, Manoel de Oliveira: 50 Anos de Carreira, e as sessões inseridas na Competição Portuguesa que serão projetadas no Cinema São Jorge.