mapplethorpe-banner

DocLisboa’16: do cinema à fotografia

O DocLisboa continuou ontem a sua 14.ª edição com mais um dia de programação rica e ofertas irrecusáveis. Os documentários biográficos foram os protagonistas, em especial o de David Lynch, The Art Life, que, em antestreia nacional, teve a sua sessão esgotada. Também o realizador Sidney Lumet e o fotógrafo Robert Mapplethorpe foram recordados na secção Heartbeat, que, até agora, se tem afirmado como o segmento mais corajoso e irreverente do festival.

By Sidney Lumet – 7/10

bysidneylumet__tom_hurwitz__web_1Gravado três anos antes da morte do realizador de clássicos incontornáveis como 12 Homens em Fúria ou Um Dia de Cão, By Sidney Lumet foi lançado no ano passado em Cannes e, graças ao DocLisboa, chegou finalmente ao público português. O documentário é assinado por Nancy Buirski, mas é o falecido cineasta quem nos guia pela sua própria vida e carreira, recordando os seus tempos de infância, os primeiros trabalhos no teatro e a chegada à televisão e cinema. E, claro, como todas estas vivências influenciaram os seus filmes.

Apesar da idade avançada (83 na altura das filmagens), Lumet apresenta-se surpreendentemente lúcido e são, contando detalhadamente os muitos episódios que o marcaram ao longo da vida. Buirski nunca intervém: vemos e ouvimos ninguém mais senão o realizador, num discurso que olha para o passado com uma inevitável nostalgia, onde está sempre patente, acima de tudo, o enorme amor ao cinema e o orgulho na sua carreira. Ficamos presos ao ecrã, completamente hipnotizados pela narração de Lumet, que nos cativa como se de um avô se tratasse.

O documentário resume-se então às palavras do cineasta. Tirando isso, ficamo-nos com um filme bastante básico e linear, cujo único ponto que podemos realçar é a escolha inteligente de excertos de filmes que ilustram eficazmente as ideias transmitidas por Lumet. Mas, verdade seja dita, Buirski não se propõe a nada mais que isso: gravar um último e íntimo testemunho de um homem que marcou o Cinema durante a segunda metade do século XX. Para os fãs e conhecedores de Sidney Lumet, é uma oportunidade única para estar de novo em contacto com este grande homem; para os ainda não familiarizados com a sua obra, serve para aguçar a curiosidade em descobri-la.

Mapplethorpe: Look at the Pictures – 5,5/10

mappletJá lá vão quase 30 anos desde que Robert Mapplethorpe morreu de SIDA, mas o seu trabalho continua a impressionar-nos como poucos fotógrafos conseguiram. Foi para entender melhor o homem por detrás de algumas das fotos mais chocantes e brutais da história que Fenton Bailey e Randy Barbato realizaram Mapplethorpe: Look at the Pictures.

Educado numa família conservadora e religiosa, ninguém adivinharia que Mapplethorpe, o menino bonito da mãe e, curiosamente, pouco interessado em fotografia, viria a ser um nome incontornável nessa arte. Os seus trabalhos explícitos chocaram o mundo e são hoje procurados por colecionadores sem restrições em pagar milhares de dólares para os adquirirem. À semelhança dos seus portefólios, também o quotidiano de Mapplethorpe era impressionante: frequentador de bares de sadomasoquismo, envolvimentos amorosos com grandes nomes no universo da arte, consumidor de drogas, etc.

Uma verdadeira superstar do mundo da fotografia cuja carreira ficámos a conhecer um pouco melhor com o documentário de ontem. Mas e o seu lado mais íntimo? A impossibilidade de entrevistar Mapplethorpe por razões óbvias obrigou a dupla de realizadores a recorrer aos testemunhos de amigos e familiares para entrar na sua cabeça (alguns registos sonoros do fotógrafo foram também utilizados, mas muitos pecam por ser francamente vagos), uma tarefa cujos resultados ficaram aquém da ambição do documentário. O foco é quase todo dirigido para a controvérsia das suas fotos mais polémicas e para o lado mais selvagem da sua vida, sem nunca haver interesse em procurar um porquê definitivo para os seus comportamentos. Mapplethorpe: Look at the Pictures não passou disso mesmo: olhou para as fotografias, sem chegar a olhar com tanto atenção para quem as tirou, contentando-se com a superfície de uma personalidade que tinha muito mais por explorar.

Mais Artigos
Sala de Cinema
Cinemas portugueses registam quebra de 75% de audiência em março