Já está. Lisboa já entrou no circuito de cidades que acolhem o Red Bull Music Academy Culture Clash. Também já Londres, Nova Iorque ou Milão assistiram a uma batalha de crews, onde quem decide o vencedor é o público. Como? Através do sonómetro, um sistema que mede a intensidade do som. A crew Club Atlas, liderada por Branko, foi a grande vencedora da noite. 

Nem parecia o Coliseu de Lisboa. Afinal, o esforço era para esta sala de espetáculo se adequasse a um sound clash de origem jamaicana. Quatro palcos diferentes estavam distribuídos pelos recantos do espaço. Num dos camarotes, surge Alex D’Alva Teixeira, e na plateia aparece Gisela João. São eles que vão ditar as regras e lançar as contagens para cada atuação. Ao público, basta apreciar e fazer barulho pela crew de que gosta mais. A competição conta com quatro rounds. No final, há um vencedor.

Alex e Gisela João foram os anfitriões. Foto: João Pedro Marnoto

Alex e Gisela João foram os anfitriões. Foto: João Pedro Marnoto

A primeira crew a entrar em ação foi Club Atlas. Liderada por Branko, o grupo contou com Fred Ferreira, DJ Riot, Kalaf, Pongolove e Carlão. Os nomes já suscitavam a nostalgia do público e a escolha de temas como Re-Tratamento, dos Da Weasel, ou Yah, dos Buraka Som Sistema, previa que o sonómetro fosse generoso para esta crew.

Carlão é um dos membros da crew Club Atlas. Foto: João Pedro Marnoto

Carlão é um dos membros da crew Club Atlas. Foto: João Pedro Marnoto

Segue-se Moullinex Live Machine, com XinobiDa Chick e The Legendary Tigerman em palco, mas para o público o som chega tímido, fraquinho, embora se assuma a qualidade dos artistas. Do funk ao hip-hop, chega a vez de Matilha, com DJ Ride, Jimmy P e MGDRV. Desde o início que entraram a perder. Eram tantos e tão desorganizados em palco, que nem alusões a Kendrick Lamar ou a introdução de We Are the Champions salvaram a situação.

Foto: Hugo Silva

Foto: Hugo Silva

A última crew na primeira ronda trazia Batida (Pedro Coquenão), DJ Satélite e Karlon à competição. Os sons africanos do afro-house e do kuduro eram apenas um aquecimento que o grupo prometia vir a seguir. O sonómetro entrava finalmente em ação e dúvidas não restaram. Club Atlas eram os primeiros vencedores. Contudo, esta era uma ronda de experiências e apenas as próximas três ditariam o vencedor.

Moullinex voltou e aumentou as expectativas que muitos tinham nesta crew. Selma Uamusse subiu ao palco e agitou a música para aqueles lados. Já a Matilha continuou uma desorganização. Palavra essa que não se pode aplicar à crew de Batida e amigos. Aos sons africanos, juntou-se o movimento com os irmãos Gonçalo e André Cabral, que fixaram os muitos olhares naquele pequeno palco. Mas o derradeiro momento aconteceu quando foram lançadas fotografias dos 17 ativistas angolanos, numa das galerias do Coliseu, detidos em maio de 2015 e atualmente em liberdade condicional. A estas fotografias juntou-se o retrato de José Eduardo dos Santos e assobios na plateia. Grande parte do público já tinha escolhido o grande vencedor daquela ronda.

Os manos Cabral dançaram pela crew de Batida. Foto: Hugo Silva

Os manos Cabral dançaram pela crew de Batida. Foto: Hugo Silva

Mesmo assim, Club Atlas não desistiu e investiu em temas como Kalemba e Tá Tranquilo, Tá Favorável. No final, a segunda ronda consagra a crew de Batida.

Uma terceira ronda chega e se já tinham sido lançadas “provocações”, como as de Club Atlas a Matilha: “Esqueçam se vêm para aqui com músicas da Rádio Cidade”. Matilha ataca e chama “cotas” a Club Atlas, mas nem assim se safam. Batida também “provoca” Moullinex ao fazer kuduro com uma verdadeira Moulinex levando o público ao riso total. Mas o trunfo está em Bonga, “o Próprio Kota” que alinha na competição e impõe o respeito no Coliseu.

Club Atlas ataca com mais temas conhecidos, desde Sam the Kid a Regula. Moullinex aposta com a entrada de Catarina Salinas, dos Best Youth, montada num cavalo branco em palco, não no pequeno palco da crew, mas no verdadeiro palco do Coliseu. Foi o momento para interpretar Fumo Denso, de DJ Ride, num sensual momento com Ed Rocha Gonçalves. No palco da Live Machine, surgiam ainda Mike El Nite e Marta Ren. Estas bolinhas de energia eléctrica e trunfos de Moullinex acabam por vencer esta terceira ronda.

Moullinex vence a terceira ronda. Foto: Hugo Silva

Moullinex vence a terceira ronda. Foto: Hugo Silva

A derradeira medição do som

No final, tudo parece imprevisível e qualquer uma das crews parece estar apta para vencer, sendo que Matilha está em desvantagem. Mas convidados especiais vão aparecer. Se Batida escolhe Konono nº1, Club Atlas traz Nelson Freitas e Richie Campbell. Já Moullinex convida Marta Ren e um coro gospel e a Matilha chama Capicua. Tudo está incerto, mas o sonómetro não engana: o vencedor é Club Atlas. O Culture Clash trouxe uma batalha “amigável” a Lisboa, em que quem venceu foi a música. Não interessa quem ganhou, mas sim o ritmo e som da batalha.