Em tarde/noite de chuva forte na capital, o DocLisboa arrancou para o segundo dia da sua 14.ª edição. Pela Culturgest, Cinema São Jorge, Gulbenkian e Cinemateca passou um público vasto para assistir às propostas do certame, naquele que foi o primeiro dia de programação completa. As secções Da Terra à Lua e Heartbeat tiveram maior destaque, com direito às duas principais sessões da noite, mas houve também espaço para se dar início à competição internacional, com Vangelo e Rat Film a abrirem a corrida aos prémios do festival. O Espalha-Factos esteve presente numa das sessões mais aguardadas do dia: Junun, de Paul Thomas Anderson.

Junun – 5/10

Paul Thomas Anderson rumou à Índia para acompanhar as gravações de Junun, o álbum que juntou o compositor israelita Shye Ben Tzur, o guitarrista britânico Jonny Greenwood e o grupo indiano Rajasthan Express. O resultado é um documentário com menos de uma hora, lançado no ano passado na plataforma MUBI e por fim visto no grande ecrã.

Anderson já nos habituou à sua mestria no que toca à realização de excelentes obras de ficção, por isso um dos pontos de grande interesse seria perceber como é que o cineasta se move no género do documentário. As expetativas crescem ainda mais tendo em conta a matéria-prima que tem a seu dispor (Junun é um trabalho muito curioso que junta as sonoridades de diversas culturas). Infelizmente, a forma como o realizador lhe pega deixa muito a desejar: limita-se a filmar as sessões de gravação, não explorando a relação que os músicos estabelecem entre si. São 54 minutos onde vemos os inúmeros artistas a tocarem os temas que constituem o álbum e pouco mais.

Junun é assim, mais que um documentário, um bilhete VIP para o Forte Mehrangarah, local onde o disco foi feito. Crédito tem que ser dado a Anderson por saber, como sempre, trabalhar bem com as câmaras, arranjando sempre forma de nos colocar no meio da música e sentirmo-nos numa longa jam session – a cena inicial, na qual vemos os artistas sentados num círculo através de um plano que vai rodando sobre ele, é um bom postal de boas-vindas para este ambiente. Contudo, quando as canções acabam, não nos é permitido ir conversar com Tzur, com Greenwood ou com os talentosos músicos indianos de Rajasthan; passamos diretamente para a sala do lado onde um novo tema está prestes a ser gravado.

O que acontece entre essas mudanças de salas, o quotidiano desta gente e o como as suas culturas se cruzaram ao longo da criação do álbum, não nos é dado a conhecer: Anderson foca-se somente na música e não em quem a faz. Se o realizador continuasse a filmar após os artistas pousarem os seus instrumentos, talvez o documentário ganhasse uma nova dimensão; mas Junun é-nos antes oferecido como um mero complemento à escuta do disco a que roubou o título. Dadas as elevadas expetativas que tínhamos, não negamos que saímos da sala algo desiludidos.