O cinema do real voltou ontem a Lisboa com o arranque da 14.ª edição do DocLisboa e, depois da sessão de abertura, a fasquia dificilmente poderia estar mais elevada. Oleg y las Raras Artes (2015), de Andrés Duque, deu o pontapé de saída ao festival e deixou o público do grande auditório da Culturgest com água na boca (e com o olho nas restantes exibições que se prolongam até dia 30).

O Espalha-Factos esteve lá e conta como foi sentir na pele o formigueiro da verdadeira fruição estética.

 

Oleg y las Belas Artes – 8.5/10

“Não há Estado que valha Shakespeare”. A frase é de Fernando Pessoa mas arriscamos dizer que também podia ser da autoria de Oleg Karavaichuk, pianista russo no crepúsculo da vida, que é o coração de Oleg y las Raras Artes. É que Oleg, um octogenário de rosto andrógeno e voz estridente, usa a liberdade que lhe é concedida pelo realizador Andrés Duque para fazer uma verdadeira apologia do sentimento e da experiência das sensações, em longos e distraídos monólogos salpicados por comentários políticos corrosivos.

Oleg corresponde ao protótipo do génio louco, como ele próprio admite. Porém, a verdade é que, ao fim de vinte minutos de filme, o espectador já não consegue distinguir onde termina a sua loucura e começa a lucidez. Ressoa o eco familiar da história do corcunda de Notre-Dame. Na figura envelhecida e encarquilhada de um homem de outro tempo, melancólico e saudosista, que envia cartas jocosas à Rainha Sofia a recusar os seus convites para tocar em saraus reais e relembra com nostalgia os serões em que actuava para o “querido líder” Estaline, encontramos a personificação da graciosidade e da sensibilidade românticas, o encarnar da concepção platónica de criação artística.

Ciente da intensidade e do efeito hipnotizador do seu protagonista, Duque opta por um estilo discreto e minimalista: planos fixos em que as maiores movimentações advêm das mãos deformadas do artista, tocando por um impulso incontrolável que em nada se assemelha, como o próprio lamenta, ao que se ensina à juventude nos metódicos mas aborrecidos conservatórios de música dos nossos dias.

É que para Oleg, a arte corre-nos nas veias. Talvez seja essa a razão pela qual consigamos estar ininterruptamente arrepiados durante os setenta minutos de filme. O lirismo delicado e a emoção vibrante estão em cada plano, em cada palavra e em cada tecla do piano do czar Nicolau II (no qual apenas Oleg tem autorização para tocar). Uma celebração do belo e do sensível num mundo em que “a fruta do mercado já não tem cheiro” e as árvores são cortadas em nome do princípio do “conforto”.

Escrevendo sem medo um verdadeiro tratado anti-Putin, Oleg apresenta-nos a sua tese de que a arte engrandece-se face à política, enquanto mais nobre e elevada proeza da sensibilidade humana. Depois deste bem-vindo balde de água-fria, nunca mais vamos entrar num museu com a mesma atitude. E ainda bem.