Para quem quiser assistir ao vivo à A Idade de Ouro, apenas poderá fazê-lo em Moscovo. Mas se é para muitos impossível ver no teatro Bolshoi este ballet, nada está perdido. Há outras formas de se apreciar. O live-streaming em cinemas de todo o mundo foi a oportunidade certa.

Nunca é o mesmo assistir a um espetáculo de dança na cadeira de um cinema e com o filtro do ecrã. Mas, quando uma peça é dançada exclusivamente a milhares de quilómetros de distância, tudo muda de sentido.

A Idade de Ouro é uma peça de amor-ódio. Composta por Shostakovich, apenas com 24 anos, foi considerada uma desilusão na altura, no Teatro Kirov. Volta aos palcos 52 anos depois, desta vez pelas mãos do Bolshoi, com coreografia de Yuri Grigorovich. Com moldes semelhantes continua a ser executado como se tratasse da primeira vez.

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No cabaret Golden Age há quadrilha de mafiosos. Foto: Damir Yusupov – Facebook do Bolshoi

Em palco, vive-se o ambiente da Nova Política Económica, nos anos 20, na União Soviética. Estamos numa cidade da Rússia meridional, onde a economia parece prosperar e atividades lúdicas não faltam. Nascem empresas privadas, Estaline sobe ao poder e o cabaret Golden Age está em ascensão.

Há um festival na cidade. Rita (Nina Kapstsova), dançarina no cabaret, conhece Boris (Ruslan Skvorstsov), um jovem pescador, nesse evento. Fica o interesse de ambos para mais tarde se encontrarem. Yashka (Mikhail Lobukhin), líder de um grupo de mafiosos do cabaret, não quer ceder a sua dançarina ao amor de Boris. A partir daqui há zangas, desencontros e ações até à cena final em que termina tudo bem.

Mas o que faz deste um ballet de aplausos?

1) Um ambiente burlesco no ballet

Nem sempre é frequente vermos um bailado com um ambiente de cabaret. Pelo menos, um bailado mais tradicional e em que a narrativa tem um fio condutor. Esta era uma época de transformação na União Soviética e porque não apostar em influências dos anos 20 americanas?

Há vestidos de franjas, cabelos  bob e uma música clássica com influências jazz. Contudo, percebe-se porque não resultou. O país foi-se fechando e não simpatizava com americanices. Só nos anos 80, A Idade de Ouro voltou com a sua dança de cabaret.

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O ambiente burlesco domina. Foto: Facebook do Bolshoi

2)Um dueto tradicional e romântico

Bailado que é bailado tem o seu pas de deux romântico e branquinho. Nada contra os que não o têm.Contudo, o dueto de Rita e Boris muda o ambiente de boémia vivido no cabaret ou no festival.

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Um duento alivia o ritmo eufórico da peça. Foto: Damir Yusupov – Facebook do Bolshoi

3) Os “maus da fita” são os que têm mais energia

A técnica de Nina Kapstsova e Ruslan Skvorstsov é quase inquestionável e a sua presença em palco confirma-os como Rita e Boris. Contudo, há que destacar Mikhail Lobukhin e Ekaterina Keysanova. O mau e a má da fita têm dos duetos mais expressivos e sensuais da peça. Fica na memória Mikhail a juntar-se à sua trupe com movimentos “de corcunda” poderosos ou Ekaterina a fazer movimentos de cabaret em pontas.

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Sensuais e atrevidos, os dois mafiosos principais dominam a cena. Foto: Damir Yusupov – Facebook do Bolshoi

4) Figurinos que fogem do tradicional

Não há tutus neste bailado! Não é inédito, nem algo fora de série, claro. Mas os figurinos de A Idade de Ouro não são exagerados nas lantejoulas dos vestidos de cabaret, nem demasiado simplórios no festival da cidade. Além disso, permitem perceber bem os movimentos dos bailarinos.

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O cenário e os figurinos não são tradicionais. Foto: Damir Yusupov – Facebook do Bolshoi

5) Um ritmo alucinante

Ora estamos num festival, ora no cabaret e o espetador nunca consegue chegar ao tédio. A música também não o deixa enfraquecer com toques de jazz e clássico. Depois há o cenário em constante transformação. Ora sobe, ora desce. Assim se passam mais de duas horas.

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Há um festival na cidade. Foto: Damir Yusupov – Facebook do Bolshoi

O momento do espetáculo

É no segundo ato (de dois) que se pode assistir ao grande momento da peça: o dueto da Nina com Mikhail (no vídeo, o dueto é dançado por Pavel Dmitrichenko). Incisivo, concreto e sensual.É um foxtrot com cheirinho a tango num bailado. Há partes mais arriscadas, com destaque para algumas elevações e momentos em que se fixa a imagem de ambos numa posição que confronta com o público com aqueles dois talentosos bailarinos.

 

https://www.youtube.com/watch?v=CVtd0-nbTU4

Próximos espetáculos em live-streaming

A UCI Cinemas continua a transmitir espetáculos de alguns dos mais conceituados palcos do mundo. É já no dia 27 de outubro que podes assistir a The Entertainer, a partir do Branagh Theatre, às 19h15. É possível ver Anastasia, no dia 2 de novembro, a partir do palco do The Royal Ballet, às 19h15. O Bolshoi volta no dia 6 de novembro com Bright Stream, às 15h00.