Não é segredo nenhum: o novo milénio não tem sido generoso com o prolífero (mas instável) cinema de Woody Allen. Sem quaisquer pretensões de “explicar” esse desencanto do qual as obras recentes do cineasta parecem estar reféns, afigura-se necessário, todavia, falar um pouco sobre alguns dos filmes que precederam Café Society, para melhor compreender o lugar que este último ocupa na filmografia do autor.

Homem Irracional, aquele que lhe foi imediatamente anterior, reunia todas as afetações mais aborrecidas do realizador, das quais Café Society nem sempre se consegue desembaraçar: diálogos escritos a pensar na citação fácil; verborreia de superficiais referências culturais que apenas lá estão para dar ares de sofisticação a um rascunho de enredo; atores cujas interpretações são sabotadas uma e outra vez pelo recorte caricatural das suas personagens… Como seria isto possível se Blue Jasmine, dois anos antes, apontava numa direção bem mais favorável – a de um melodrama metódico, exemplar, fora do roteiro turístico pela Europa a que o Woody do século XXI nos tinha acostumado? Ali havia inspiração – literária, sem dúvida – e inequívocos sinais de vida. O engenhoso Stendhal de Match Point já não nos parecia, portanto, tão distante e irrepetível. É certo que, entre estes dois filmes, o público também celebrara Meia-Noite Em Paris, mas esse era um circo, uma montra vistosa, um anódino jogo de “quem é quem?” que nos situava na elite cultural dos roaring twenties. E se a nostalgia do tal postal parisiense é a mesma que está na base de Café Society, pelo menos o novo Woody Allen tenta, ainda que com pouco sucesso, erguer uma intriga romântica sobre ela, e poupa-nos do desfile dos “famosos”, que agora são mais ditos que vistos.

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Ditos, até porque não há cena alguma em Café Society que passe sem a menção de um cineasta, ator ou vedeta da golden age de Hollywood. Estes anos 30 compõem-se, assim, não apenas pelos sets, mas pela materialidade da palavra que os vai povoando, convocando-se pelo nome todos os grandes vultos que estão em falta, talvez na esperança de que com eles venha o glamour da época. Esse, porém, nunca chega. Aliás, para um filme que encontra num contexto histórico – e no espírito desse tempo – a principal, ou mesmo única, ideia que o orienta, Café Society mostra-se surpreendentemente esvaziado desse brilho sépia que decerto queria recriar. Não se trata de uma questão de desinteresse, porque a cidade de Los Angeles é um fútil labirinto de mexericos e sonhos frustrados que muito apela à sensibilidade “existencialista” de Woody Allen (a que perpassa os seus melhores filmes, quando genuína e descomplexada). Desta vez, o problema resume-se a um só sentimento: cansaço.

Não tem desculpa o modo como se inutiliza o promissor casal protagonista (Jesse Eisenberg e Kristen Stewart, ambos irrepreensíveis dentro do que lhes é permitido) num triângulo amoroso desenxabido e algo despropositado. Nem se compreende para que serve essa família – judaica e disfuncional, pois claro – que Allen revisita sempre que pode, para de lá arrancar as indispensáveis tiradas filosóficas, que aqui aumentam tanto em número como em banalidade. É natural que nos cansemos. Neste Café Society faz-se uma revisão da matéria, em tom de greatest hits: é uma festa que não celebra coisa nenhuma, e onde ninguém se diverte. Resta somente um anfitrião de memória falível, dispersa, incoerente, que quer entreter os convidados com histórias que estes já ouviram cem vezes antes, e que quer pôr em cena um passado vestido de presente. E este “passado” não é o de Hollywood, obviamente, mas sim o do próprio Woody Allen – é o eco das suas idiossincrasias, reduzidas a lugares-comuns.

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As cenas que nos deixam mais perplexos são, ainda assim, aquelas que acompanham o irmão gangster do protagonista nos seus homicídios rotineiros. Há muito para dizer sobre o mau gosto e a inconsequência destas intromissões de violência na narrativa do filme. Note-se, contudo, que todas elas são atravessadas por uma certa amargura niilista que, não sendo totalmente estranha ao realizador, surge aqui tão pronunciada e desligada do restante enredo que talvez devêssemos perguntar: não estará Woody Allen tão cansado como nós?

Ele, ambíguo, responde-nos com esse final que é um nó na garganta, como já o de Blue Jasmine o fora, embora o rasgo de ambição não chegue para redimir tudo o que veio antes. É que, neste apático Café Society, Woody Allen não faz outra coisa senão correr atrás da sua própria sombra – exercício dispensável que, novamente, ele procura legitimar com o recurso a uma erudição pop, uma cultura meramente nominal, que vive da citação vaidosa e da anedota pomposa.

4/10

Ficha técnica
Título: Café Society
Realizador: Woody Allen
Argumento: Woody Allen
Elenco: Jesse Eisenberg, Kristen Stewart, Steve Carell
Género: Comédia dramática
Duração: 96 minutos