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AliGuler

‘No dia em que os cães se revoltaram’, o teatro turco veio a Lisboa

Depois do Teatro Praga ter levado ZULULUZU a Istambul, chega a vez da Turquia se fazer representar em Portugal. Co-produzido pelo São Luiz Teatro Municipal, No dia em os cães se revoltaram é uma peça frontal sobre as problemáticas políticas que se vive no país que faz a passagem entre a Europa e a Ásia. 

Um homem de capuz (Sercan Gülbahar) está sentado em cima de uma estrutura alta e movível. É ele que vai dar o mote de que algo vai acontecer. Desce dessa estrutura. Cheira a esgoto. Os ânimos estão exaltados. Os cães foram libertados. A revolta está a desenvolver-se.

Os cães revoltam-se num bairro emblemático de Istambul

O clima ameniza. Entramos numa casa do bairro de Nisantasi, em Istambul. Duas pessoas falam. São marido (Kanbolat Görkem Arslan) e mulher (Zuhal Gencer Erkaya). Falam de uma luva de vela. Claramente são da classe alta, ou pelo menos ainda são. A estrutura alta em que o homem estava sentado, move-se e juntamente com mais duas estruturas que se encaixam, formam um dispositivo cénico, que simboliza a mudança.

Alguém aparece. Uma mulher está preocupada (Elif Ürse). Algo aconteceu. Esta mulher é a responsável por tomar conta da mãe da outra mulher, da rica. De casaco comprido e sapatos rasos, contrasta com o elegante vestido e os sapatos de salto alto da mulher rica. Afinal, teve de desistir da escola. A mulher rica acolheu-a e deu-lhe a missão de tomar conta da sua mãe. Não resultou. A mãe doente está morta no quarto.

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Alguém morreu naquela casa do bairro Nisantasi. Foto: AliGuler

O casal rico vai a festas, tem negócios em França, conversa e tem conhecidos na Europa. Exalam a ocidentalização e não confiam nos mais pobres. O mais pobre, o homem que anunciou a revolta, também não confia nos mais ricos. Trabalha demasiado para eles. Mas surge a questão: Se não fizermos este trabalho, que outro faremos?

O inevitável para alguns e o esperado para outros acontece. Um F16 atinge um avião francês em solo turco. Tudo vai por água abaixo: os negócios no ocidente, o segredo da mãe morta, os sonhos dos mais pobres. Afinal algo já estava morto em Istambul e soube-se agora. Resta a revolta anunciada.

Uma peça frontal

Esta é uma peça sem medos. Sem meios termos nos diálogos e muito menos contra o que se passou e passa na Turquia. Mark Levitas (encenador) e Ceren Ercan (responsável pelo texto) salientam nos gestos e palavras um tempo antes do crescente autoritarismo e islamização da Turquia, assim como o clima de medo pela perseguição de militares ou jornalistas, desde a chegada de Erdogan ao poder.

Com estudos em Paris, Mark Levitas destaca-se pelo seu conhecimento em teatro físico. A utilização do espaço cénico é eficiente, sendo que a movimentação das estruturas é determinante para o dinamismo da peça. Todas as interpretações são consistentes, com destaque para Zuhal Gencer Erkaya. A atriz, já veterana, é a que consegue ter mais energia em palco, seja pela euforia quando está feliz com a sua vida de rica ou mais triste quando tudo desaba, desde a morte da sua mãe à descoberta do fracasso do seu pai como médico.

No dia em que os cães se revoltaram é uma peça pertinente. Sobre o que falhou, falha e vai falhar naquela zona do mundo. Mais que respostas, cria questões.

Ficha técnica

Encenação: Mark Levitas

Texto: Ceren Arcan

Interpretação: Zuhal Gencer  Erkaya, Kanbolat Görkem Arslan, Elif Ürse, Sercan Gülbahar

 

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