Langdon

O insulto a Dante: parem com as adaptações de Dan Brown

Na verdade o filme chama-se Inferno e não “o insulto a Dante”, mas esta obra de Ron Howard é tão medíocre que não há por onde fugir: o purgatório é a sala do cinema, e não os sonhos esquizofrénicos do Professor Langdon (Tom Hanks).

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Florença, Itália. Robert Langdon (Tom Hanks) acorda num hospital, com um ferimento na cabeça provocado por um tiro. Ainda confuso, ele é tratado por Sienna Brooks (Felicity Jones), uma médica que o conheceu quando ainda era criança.

Langdon não se lembra de absolutamente nada do que lhe aconteceu nas últimas 48 horas, nem mesmo o porquê de estar em Florença. Subitamente, ele é atacado por uma mulher misteriosa e, com a ajuda de Sienna, escapa do local. Repara depois num misterioso objecto que carregava consigo num dos seus bolsos, um ponteiro que abriu a porta ao universo de Dante.

Apesar de Dan Brown apaixonar imensos leitores à volta do mundo e de o Código Da Vinci ser ainda hoje um memorável filme comercial que trouxe o subgénero puzzle/enigmático de novo à berra, a franquia estrelada por Tom Hanks e realizada por Howard está a viver os seus piores momentos, e este declínio começou desde cedo com o sofrível Anjos e Demónios, de 2009.

Não é para ser presunçoso ou nada do que se pareça e, confesso, não tenho o background literário para desconstruir a obra de Dan Brown, mas posso apenas dizer o que vi em ecrã: uma desmiolada narrativa, preguiçosa adaptação recheada de plot holes e um dantesco insulto à obra de Dante Alighieri.

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Eu sei que não podemos levar muito a sério filmes que são especificamente feitos para alimentar o desejo de entretenimento das audiências mais massificadas, mas não nos enganemos: os produtos de entretenimento podem, e devem, construir boas narrativas.

Mad Max: Fury Road fê-lo e tornou-se num dos melhores filmes do ano passado. Por isso esta falta de noção de desenlace e de criação de suspense num filme como Inferno, que se assume um policial de características enigmáticas e misteriosas, é um defeito fatal que atira por completo o filme para a prateleiras dos “descartáveis 2016”.

É incrível esta falta de toque de Ron Howard no seu próprio filme, uma obra que parece que foi completamente fabricada pelo estúdio para única e exclusivamente gerar receitas de box office. Os enigmas deixados e o tema do purgatório de Dante são tão acessórios à ação em si, que parecem apenas inseridos neste filme como obrigação e não como ponto de partida para o desenlance da narrativa.

Não há um caminho por entre pistas e mistérios, avanços e recuos. Há apenas duas personagens amorfas (sim, estou a falar com vocês Felicity Jones e Tom Hanks) que se guiam por noções básicas de wikipédia e nos vão mostrando cidades europeias como se se tratasse de um catálogo da agência Abreu, passando pelos locais icónicos com uma realização tão pouco inspirada que fez locais como Florença e Istambul perder por completo o charme que lhes é sempre associado.

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Juntando à mediocridade da narrativa temos a preguiça técnica e a hilariante direção de atores. Começando pelo protagonista, Tom Hanks. O ator está completamente em piloto automático porque sabe que não vale a pena o esforço, já que o seu ponto de partida (argumento) também não é o melhor. Já Felicity Jones consegue ainda estar pior, além de em piloto automático, tem uma personagem francamente previsível e o tom mais monocórdico possível. Longe está da performance que nos presenteou n’A Teoria de Tudo.

A nível técnico, o filme pode ser caracterizado pelo desleixe e desinteresse de Howard em o tornar esteticamente cativante. Até a visão contemporânea do purgatório de Dante, tecnicamente aquele que poderia ser o aspecto mais interessante da longa-metragem, era francamente enfadonha e repetitiva. A confusa montagem e o uso do plano subjetivo em demasia só fez com que o filme se parecesse quase amador.

Em suma, um mediocre filme da franquia inaugurada pelo Código Da Vinci, muito no seguimento dos Anjos e Demónios de 2009. Inferno é um dos piores filmes do ano e é um produto de uma vergonha realização de Ron Howard e de um ainda mais vergonhoso argumento de David Koepp.

3.5/10

Ficha técnica
Título: Inferno
Realizador: Ron Howard
Argumento: Livro de Dan Brown e argumento por David Koepp.
Elenco: Tom Hanks, Felicity Jones, Irrfan Khan, Sidse Babett Knudsen.
Género: Ação, Crime, Drama, Mistério, Thriller.
Duração: 121 minutos

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