“Sofar Sounds Lisbon” era o que estava escrito numa folha branca na parede de pedra da Travessa do Corpo Santo, no Cais do Sodré. Parece que era ali que a magia ia acontecer, ou como quem diz que, num mistério inicial, seria ali que íamos ser surpreendidos pela música. Sarah Packiam, Um Corpo Estranho e Postcards foram os presentes que desembrulhámos desta edição, onde a bola de espelhos do tecto refletiu o que todos ali sentiram.

Aqueles corpos – nada estranhos – que aguardavam cá fora, ansiosos e expectantes por mais uma edição do Sofar, lotaram a sala do Lost Collective, um espaço que pertence à cadeia de hostéis Lost Lisbon, numa das encruzilhadas do Cais do Sodré, em Lisboa. Na falta de companhia, nada melhor que o calor humano para nos encher as medidas.

Tapeçaria estilo marroquina, sofás de veludo e poltronas mesmo à espera que alguém as ocupasse, se o espaço se podia tornar mais acolhedor? Podia, mas só quando as vozes começassem a cantar.

O burburinho e agitação, a ânsia de quem tinha estado à espera é interrompida por Inês Pires, que a par de João Alvarez, organiza o Sofar Sounds Lisbon. Inês anuncia, finalmente, a primeira artista – Sara Packiam.

Filha de mãe irlandesa e pai indiano, Sarah cresceu com a música. Começou a carreira a tocar em pubs e bares, um pouco pelos quatro cantos do mundo, e lançou o primeiro álbum em 2012.

O conceito do Sofar já não é novo para a cantora, que já actuou no Sofar Sounds Miami. Agora, em plena cidade das sete colinas, senta-se sozinha com a sua guitarra e faz uma viagem pelos três álbuns lançados, acompanhada por um copo de whisky.

Do amor aos desgostos e coração partido, um reportório que se transforma quase numa cronologia da vida de Sarah, segundo o que a mesma ia relatando entre cada canção. Conquistou a plateia – sempre acolhedora – com as melodias I Loved You First e Miss You, onde o romantismo (ou o mel!) entre muitos casais ali presentes foi mais que visível.

“Vocês gostam de covers?”, perguntou Sarah a um público que não tardou em responder afirmativamente e em uníssono à questão da irlandesa. Creep de Radiohead ganhou um novo tom na voz da cantora e foi sendo acompanhada timidamente pelo público, que não esperava este momento.

Mais um copo de whisky e acabamos com Messed Up e palmas calorosas para Sarah Packiam. Inês Pires ocupa novamente o palco e anuncia os portugueses que atuariam nesta edição do Sofar Sounds.

Choco frito é bom, mas Um Corpo Estranho é melhor. Estes meninos vieram de Setúbal para dar tomar conta daquele pedaço de chão de madeira do Lost Collective, num momento magnífico de música nacional.

Uma portugalidade cantada por esses corpos estranhos que são Pedro Franco e João Mota, acompanhados por outros três músicos que se apoderam dos instrumentos para resultar tudo numa simbiose perfeita entre eles e a sua lírica quase poética.

Não podíamos pedir muito mais daquele momento que ali se viveu, onde houve tempo para uma breve homenagem ao poeta, também setubalense, Bocage.

Já embalados com todo o ambiente que até ali tinha sido criado, os Postcards, última banda do dia, foram recebidos como mereciam. Vindos do Líbano, mais concretamente de Beirute, já não são estreantes em terras lusas, tendo no ano passado estado em digressão pelo nosso belo país.

Postais cantados que vêm com amor e que encantam com o seu indie folk numa sala cheia, onde terminam mais uma tour. Com uma voz quase angelical, Julia Sabra entoa os primeiros versos e deixa-nos rendidos e com vontade de puxar uma manta e ficarmos enrolados. Se os Postcards tivessem uma estação ligada a eles, seria o inverno e as noites frias e de chuva onde nos aninhamos ao som de vozes calmas e que nos enchem o coração.

Ficamos agora a aguardar a próxima edição do Sofar Sounds Lisbon, no dia 23 de outubro, onde ainda te podes inscrever aqui.